A Ministra Cármen Lúcia ou a comovente mostra de falsa virtude, por Urariano Mota

A Ministra Cármen Lúcia ou a comovente mostra de falsa virtude*

por Urariano Mota

Na sessão do Supremo Tribunal Federal, em 15 de setembro, no julgamento para discutir o relatório que aponta a relação entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, assim falou no seu voto a Ministra Cármen Lúcia:

Eu me encontro, como talvez muitos de meus colegas, em estado de profunda consternação e tristeza. Hoje um dos colegas me dizia se eu estava contrariada com alguma coisa, não, eu disse eu estou triste não apenas pelo tema que nos traz aqui que você teria sido o aquele ato decidido, mas porque este Supremo Tribunal Federal guarda da Constituição por determinação nela expressa provocou um mal estar cívico em todas as cidadãs e cidadãos brasileiros nesses últimos dias”, disse a Ministra. Continuou: “estou pedindo desculpas ao presidente do Supremo, a todos os colegas, mas ao povo brasileiro, porque realmente queria ter sido melhor e poder ter ajudado a acalmar as coisas e não consegui”.

E votou pelo golpe contra o Brasil, tentado pelo bolsonarista mendonça! Foi de chorar de emoção.

O ilustre jornalista Luis Nassif publicou sobre ela um texto do qual retiro alguns trechos:

(Carmen Lúcia teve) “o apoio de José Dirceu para sua indicação ao Supremo, em 2006, além do respaldo de dois padrinhos de grande prestígio: Sepúlveda Pertence e Itamar Franco. Uma vez nomeada, as manifestações de indignação desapareceram. Cármen Lúcia votou pela condenação de José Dirceu por corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

Mais tarde, também integrou a maioria que autorizou a execução da pena após condenação em segunda instância. Esse entendimento abriu caminho para a prisão de antigos aliados e, sobretudo, do então ex-presidente Lula, cuja retirada da eleição de 2018 alterou profundamente o rumo político do país….

Há a Cármen Lúcia das declarações públicas — austera, indignada, sensível aos direitos e aparentemente alheia aos jogos de poder. E há a ministra dos autos, dos silêncios, das mudanças de posição e dos processos que avançam ou permanecem paralisados conforme os interesses em disputa”.

Procuro na literatura comportamentos e práticas que se assemelhem à pessoa que virou personagem Cármen Lúcia. Primeiro, me vem um parágrafo dos Provérbios da Bíblia, que é boa literatura para leitores maduros: 

“Aquele que aborrece dissimula com os lábios, mas no íntimo encobre o engano; quando te falar suavemente, não te fies nele, porque sete abominações há no seu coração.
Ainda que o seu ódio se encobre com engano, a sua malícia se descobrirá publicamente”.

Mas de modo menos abstrato, podemos ver uma ação perversa semelhante em Lady Macbeth. Diante da notícia do assassinato do seu rei, que ela própria planejara, eis o que fala a “comovida” Lady Macbeth:  

“Doravante nada mais há de sério no universo. Tudo é bandidagem. A honra e a glória já não existem. Esgotado se acha o vinho da vida, só resta a borra, a escória no fundo desta adega”

Que magnífica personagem, podemos dizer. Mas Shakespeare não conseguiu expressar tão bem a emoção simulada quanto nesta semana as palavras comoventes da Ministra:

Eu me encontro em estado de profunda consternação e tristeza. Estou pedindo desculpas ao presidente do Supremo, a todos os colegas, mas ao povo brasileiro, porque realmente queria ter sido melhor e poder ter ajudado a acalmar as coisas e não consegui”.

E completou o golpe contra a democracia no Supremo Tribunal Federal. Mas tudo muito sentido, com a frase pronta para o Jornal Nacional. Lady Macbeth não possuiu jamais um telejornal em rede nacional.

Se procurarmos qualificar melhor o voto da Ministra, nos vem a definição de François de La Rochefoucauld:  “A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude”.  Tão comovente ela foi, num momento em que a nação brasileira balança aos crimes cometidos por Trump contra a soberania brasileira, e como, ao mesmo tempo, se mostrou de aparência tão digna. Ela se tornou a encarnação da definição de La Rochefoucauld.

E não precisamos ir ás reflexões de um autor do século XVII, Aqui entre nós, mais perto do gênio nacional, temos o nosso maior escritor, que assim escreveu, conforme está no Dicionáro Machado de Assis, de José Carlos Ruy: 

“Dizer que Leonardo se apaixonou por Cecília é mentir à história, e eu prezo, antes de tudo, a verdade dos fatos e dos sentimentos; mas é por isso mesmo que eu devo dizer que Cecília não deixou de fazer alguma impressão em Leonardo. O que causou profunda impressão no ânimo do nosso mal-aventurado e conquistou desde logo todos os seus afetos, foram os cem contos que a pequena trazia em dote.” (O oráculo, 1866).

Eduardo – Um rapaz frívolo e vaidoso, que namora ao mesmo tempo Maria Luísa e Sara. É leviano e joga com as paixões e os sentimentos das duas mulheres; é um espírito para o qual nada há fora do culto da própria personalidade. (Questão de vaidade, 1865).

“Nóbrega – Foi coletor de esmolas para a Igreja. Encontrou Natividade e Perpétua na Rua de São José quando elas foram consultar Bárbara. Ele ficou com a nota de 2 mil réis que Natividade deu de esmola. Aplicou e multiplicou o dinheiro. Poucos meses depois, deixou de ser coletor de esmolas e mudou de carreira. Deixou a cidade; quando voltou, tinha alguns pares de contos de réis, que a fortuna dobrou, redobrou e tresdobrou. Ganhou dinheiro na especulação, do ‘encilhamento’. Era outro; as feições não eram as mesmas, senão as que o tempo lhe veio compondo e melhorando. (Esaú e Jacó, 1904)….”.  

Para sorte da Ministra, o Dicionário Machado de Assis ainda está inédito.

*Vermelho A Ministra Cármen Lúcia ou a comovente mostra de falsa virtude – Vermelho

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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