Sanções do Reino Unido a Colonos na Cisjordânia Ocupada são uma Piada?, por Ruben Rosenthal

do blog Chacoalhando

Sanções do Reino Unido a Colonos na Cisjordânia Ocupada são uma Piada?

Por Ruben Rosenthal

As penalidades não deveriam ser impostas apenas aos colonos, isentando assim o governo de Israel, que financia e incentiva os assentamentos

Em discurso de 3 minutos proferido no dia 8 de setembro (assista no X), o ministro das relações exteriores Reino Unido, Ed Miliband, reafirmou que a ocupação da Cisjordânia por colonos judeus é ilegal e que imporia um boicote ao comércio de produtos provenientes desses assentamentos, como também imporia sanções aos que atuassem na expansão da ocupação. A fala se deu poucos dias após o ministro de habitação de Israel abrir uma licitação para a construção de 1.237 unidades residenciais em uma região da Cisjordânia conhecida como área E11. O Reino Unido reconheceu o Estado Palestino em setembro de 2025, ainda no governo de Keir Starmer.

Doze países do Ocidente já assinaram uma declaração a favor da solução de Dois Estados, rejeita a anexação da Cisjordânia por Israel, a expulsão de palestinos e defende um possível boicote ao comércio com os assentamentos judaicos. Reino Unido, França e Canadá são os mais comprometidos com o boicote, mas precisariam antes aprovar a legislação pertinente, o que pode levar tempo. Suécia, Dinamarca e Polônia preferem esperar que a União Européia lidere o processo. Os Estados Unidos não saíram em defesa dos assentamentos, não havendo ainda ameaças de retaliações contra o Reino Unido ou outros países que se juntem ao boicote.

Reações Internas ao Discurso de Miliband. No Reino Unido, a recente declaração de Miliband, que é judeu, gerou críticas e apoios da comunidade judaica.   

Para o rabino-chefe do país, Ephraim Mirvis, as medidas anunciadas por Miliband seriam contra-produtivas. O Conselho de Lideranças Judaicas alerta para um “impacto danoso” na comunidade judaica. Na mesma linha, o Conselho de Representantes (Board of Deputies) dos Judeus Britânicos, teme que as medidas, se implementadas, trariam o “risco de encorajar um movimento mais amplo de boicote contra Israel”. Por outro lado, outros grupos judaicos britânicos expressaram apoio ao boicote. 

Os movimentos anti-ocupação, Na’amod e Mi-neged, defenderam as medidas anunciadas como “uma mínima resposta” às ações ilegais de Israel. Eles declararam apoio a ações contra qualquer Estado que “infrinja as leis internacionais, cometa crimes de guerra e abusos de direitos humanos, incluindo Israel”. Várias autoridades religiosas também apoiaram o governo britânico, como os líderes do judaísmo progressista e do movimento Masorti.  Em carta aberta, o rabino Jeremy Gordon, da New London Synagogue, argumentou que as sanções são necessárias porque o Estado de Israel permite a violência dos colonos contra os palestinos da Cisjordânia.

Uma pesquisa revelou que cerca de 52% do público britânico apóia a proibição de importação de produtos provenientes dos assentos judaicos ilegais, enquanto 17% são contra a proposta de sanções.  

As Reações de Israel. Em uma reação furiosa ao discurso do Ministro das Relações Exteriores Ed Miliband, seu homólogo israelense, Gideon Saar, anunciou quatro medidas retaliatórias: o fechamento do Consulado Britânico em Jerusalém; a retirada de representantes britânicos do Centro Internacional de Apoio a Gaza em Kiryat Gat; o encerramento da “Equipe Britânica de Apoio em Ramallah” (que treina as forças de segurança da Autoridade Palestina); e a proibição de entrada de 12 representantes eleitos britânicos, que estariam envolvidos em atividades antissemitas e anti-Israel, segundo o ministro.  

A reação de Israel pode não ter qualquer efetividade em deter os países que resolverem implementar sanções contra os assentamentos, mas as medidas anunciadas pelo Reino Unido terão de fato impacto sobre Israel?  

As Sanções vão Funcionar? Para o jornalista israelense Gideon Levy, as sanções pretendidas pelo Reino Unido são uma piada. Elas não iriam impedir que prossiga a construção de casas de colonos em terras tomadas aos palestinos, bem como o roubo de seus rebanhos. Ele ressalta que, quando a Europa impôs sanções à Península da Crimeia ocupada, também impôs sanções à potência ocupante, a Rússia. Então as penalidades não deveriam ser impostas apenas aos colonos, isentando assim o governo de Israel, que financia e incentiva os assentamentos, inclusive por meio das ações de seu exército

Ainda segundo Gideon, sanções não irão deter os colonos extremistas de continuar a agredir palestinos e tomar suas terras, com total apoio do regime sionista. A economia de Israel pouco será afetada se o boicote for de fato implementado, avalia o jornalista, já que apenas 2,23% das exportações israelenses para a Europa são provenientes dps assentamentos ilegais. Como os dados do Banco Mundial são de 15 anos atrás, o percentual deve ser provavelmente acima desse valor. 

Na verdade, os exportadores israelenses em geral adulteram a origem dos produtos que são cultivados dos assentamentos, quando da rotulagem das cargas, como forma de obter redução de tarifas cobradas pelos europeus, segundo artigo no The Guardian. Uma investigação conduzida por 4 anos pela organização Global Echo revelou os mecanismos pelos quais produtos agrícolas provenientes de assentamentos israelenses, avaliados em milhões de euros, entram ilegalmente nos mercados europeus, com a cumplicidade desses países. 

Para que um boicote aos produtos produzidos pelos assentamentos possa de fato ter algum efeito econômico sobre Israel, sanções deveriam ser aplicadas aos bancos e empresas de Israel que contribuem para a viabilização e expansão dos assentamentos ilegais na Cisjordânia ocupada. É o mínimo que se deve cobrar da comunidade internacional, que não apenas reluta em desmantelar o regime de Apartheid vigente em Israel e nos territórios ocupados, como ainda fornece armamentos pesados ao Estado sionista. Foi apenas através de sanções econômicas obrigatórias nos anos 80 do século passado, que o regime de Apartheid então vigente na África do Sul pôde ser desmontado.  

Em flagrante desafio ao Reino Unido, Europa e ao resto do mundo, o governo israelense anunciou a licitação de mais 2.167 unidades residenciais a serem construídas na região E1 da Cisjordânia. A decisão já foi condenada pelo presidente palestino Mahmoud Abbas, como mais uma violação da lei internacional. Já o ministro das finanças israelense, Bezahel Smotrich, declarou que o plano “sepulta” de vez a possibilidade de um Estado palestino

Fica a incógnita se a celeuma sobre a aplicação do boicote aos assentamentos terá alguma influência significativa nas eleições parlamentares em Israel, previstas para outubro próximo.

Notas do autor:

 1. A área E1 consiste de um trecho de terra com cerca de 12 km2, dentro da área C da Cisjordânia, que pelos acordos de Oslo de 1993 ficou sob controle civil e militar de Israel. A região possui vilas e cidades palestinas, mas vem sendo ocupada por assentamentos judaicos, principalmente após o início do conflito em Gaza.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.  

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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