China transforma multipolaridade em projeto institucional e disputa as regras da governança mundial

Da Redação

Pequim sustenta que a redistribuição do poder internacional precisa chegar às instituições criadas no pós-guerra e articula BRICS, Organização de Cooperação de Xangai e novas estruturas para ampliar a representação do Sul Global; estratégia não propõe simplesmente destruir a ordem existente, mas reformar sua distribuição de poder — enquanto também amplia a influência chinesa sobre as instituições emergentes

A China está dando um passo importante na transformação de sua ascensão econômica em um projeto explícito para a governança mundial. Uma análise publicada pela RT chama atenção para uma mudança que vem se tornando cada vez mais clara nos discursos e documentos de Pequim: o governo de Xi Jinping já não se limita a defender genericamente um mundo multipolar, mas procura construir instituições, fóruns e mecanismos capazes de converter essa multipolaridade econômica e geopolítica em poder político dentro da ordem internacional. O movimento ganhou nova dimensão em setembro, quando Xi utilizou tanto a Organização de Cooperação de Xangai quanto a cúpula do BRICS em Nova Délhi para defender uma reforma das estruturas globais e maior representação dos países em desenvolvimento.

A diferença é importante. Multipolaridade descreve uma distribuição de poder na qual diferentes Estados ou centros econômicos possuem capacidade relevante de influência. Governança global diz respeito a algo diferente: quem escreve as regras, quem ocupa as instituições, quem possui poder de veto, quem define padrões tecnológicos, quem controla instrumentos financeiros e quem participa efetivamente das decisões internacionais. A estratégia chinesa procura agora aproximar essas duas dimensões. Para Pequim, não basta que China, Índia, Brasil e outros países emergentes tenham aumentado sua participação na economia mundial se instituições centrais continuarem refletindo uma correlação de forças construída no final da Segunda Guerra Mundial.

Esse diagnóstico não é exclusivamente chinês. No início de setembro, durante a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai no Quirguistão, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que o mundo está se tornando mais multipolar e classificou essa transformação como positiva. Foi além: declarou que a multipolaridade é uma condição para maior justiça na governança internacional e defendeu reformas nas Nações Unidas e no sistema de Bretton Woods para aumentar a representação e a influência dos países em desenvolvimento.

É nesse ambiente que deve ser compreendida a Global Governance Initiative, ou Iniciativa de Governança Global, apresentada por Xi Jinping em 2025 e desenvolvida desde então como o quarto componente de uma arquitetura diplomática chinesa que já incluía iniciativas para desenvolvimento, segurança e civilização. Em junho deste ano, Pequim publicou um livro branco sistematizando sua proposta. O documento organiza a iniciativa em torno de cinco princípios declarados: igualdade soberana, respeito ao direito internacional, multilateralismo, abordagem centrada nas pessoas e orientação para resultados concretos.

Esses conceitos precisam ser entendidos simultaneamente como princípios diplomáticos e como instrumentos da estratégia externa chinesa. Pequim afirma que pretende fortalecer um sistema internacional centrado nas Nações Unidas e não substituí-lo por uma arquitetura exclusivamente chinesa. Ao mesmo tempo, sua proposta contesta explicitamente relações internacionais baseadas em hegemonia, unilateralismo e utilização de instrumentos econômicos como mecanismos coercitivos. É uma formulação que se contrapõe, sobretudo, à capacidade dos Estados Unidos e de seus aliados de utilizar sanções financeiras, restrições tecnológicas, tarifas e controles de exportação como ferramentas de política externa.

A disputa, portanto, não ocorre simplesmente entre uma “ordem existente” e uma “nova ordem chinesa”. A realidade é mais complexa. A China reivindica elementos fundamentais da própria arquitetura criada depois de 1945 — soberania estatal, Carta da ONU, multilateralismo e direito internacional — enquanto procura alterar a distribuição de influência dentro dela e construir instituições complementares onde países emergentes possuam maior espaço.

É justamente por isso que BRICS e Organização de Cooperação de Xangai aparecem como peças de uma mesma arquitetura, embora sejam organizações diferentes e possuam funções distintas.

Na cúpula da OCS realizada no início do mês, Xi afirmou que a tendência em direção a um mundo multipolar seria “irreversível” e defendeu aquilo que Pequim chama de uma ordem multipolar “igualitária e ordenada”. O presidente chinês associou diretamente essa transformação à ascensão do Sul Global e sustentou que os países devem possuir direitos, oportunidades e regras iguais independentemente de tamanho, riqueza ou poder. Também afirmou que a OCS deveria funcionar como instrumento para aumentar a capacidade dos países em desenvolvimento de participar da governança internacional.

Poucos dias depois, em Nova Délhi, Xi levou essencialmente a mesma arquitetura para o BRICS. Em seu discurso na 18ª cúpula do agrupamento, pediu que os membros atuassem como força pioneira na reforma da governança global, defendessem o multilateralismo e ampliassem a capacidade de ação do Sul Global. A China assumirá a presidência do BRICS em 2027 e já anunciou que pretende utilizar esse período para aprofundar a chamada cooperação do “Grande BRICS”.

A dimensão econômica desse projeto talvez seja ainda mais relevante. No segundo dia da cúpula, Xi apresentou iniciativas para ampliar cooperação em comércio, inteligência artificial e desenvolvimento tecnológico. Segundo a Reuters, Pequim quer transformar o BRICS ampliado numa plataforma mais prática de desenvolvimento do Sul Global, expandindo a cooperação das áreas política e diplomática para economia, finanças e tecnologia.

Uma das propostas é particularmente estratégica: a China anunciou a intenção de liderar uma plataforma aberta de inteligência artificial para os países do BRICS, incluindo cooperação em grandes modelos de linguagem, ao mesmo tempo em que defende uma estrutura internacional de governança da IA.

Isso revela uma transformação decisiva na natureza da disputa internacional. Durante boa parte do século XX, governança global significava principalmente tratados, organizações diplomáticas e instituições financeiras. No século XXI, governar também significa estabelecer padrões tecnológicos.

Quem determina protocolos de inteligência artificial, circulação de dados, sistemas de pagamentos, infraestrutura digital, telecomunicações, cibersegurança e interoperabilidade tecnológica participa da construção das regras materiais dentro das quais a economia mundial funcionará. Nesse sentido, uma plataforma aberta de IA para o BRICS não é apenas um programa tecnológico. Ela pode se tornar parte de uma infraestrutura institucional alternativa ou complementar às plataformas desenvolvidas pelas grandes empresas e centros tecnológicos ocidentais.

O mesmo raciocínio vale para finanças. O BRICS vem discutindo interoperabilidade entre sistemas nacionais de pagamentos, liquidação comercial em moedas locais e redução dos custos das transações internacionais. Isso não significa que esteja criando uma moeda única para substituir o dólar, interpretação frequentemente exagerada no debate público. Significa que diferentes países procuram construir redundâncias capazes de permitir que uma parcela maior de suas relações comerciais não dependa obrigatoriamente das mesmas infraestruturas financeiras.

Os acontecimentos desta própria semana ajudam a compreender por que essa discussão ganhou urgência. O Congresso dos Estados Unidos acaba de aprovar uma legislação que concede ao Executivo instrumentos tarifários para pressionar grandes compradores de petróleo e gás russos, inclusive países terceiros. A lógica das chamadas sanções secundárias é justamente utilizar o peso do mercado e do sistema financeiro norte-americano para influenciar relações econômicas realizadas fora dos Estados Unidos.

É nesse ponto que projetos de pagamentos alternativos, moedas nacionais e infraestruturas financeiras próprias deixam de ser apenas experiências econômicas e passam a ser tratados por determinados governos como instrumentos de autonomia estratégica.

A China está tentando ocupar posição central nessa transformação, mas seria incorreto confundir automaticamente os interesses chineses com os interesses de todo o Sul Global. Pequim é simultaneamente um país que se apresenta como integrante do mundo em desenvolvimento e a segunda maior economia do planeta, potência nuclear, membro permanente do Conselho de Segurança e uma das maiores forças militares existentes. Quanto mais a China constrói instituições alternativas ou lidera reformas, mais aparece uma questão inevitável: a democratização da governança internacional produzirá uma ordem efetivamente mais distribuída ou simplesmente deslocará parte da concentração de poder de Washington para Pequim?

Essa é uma pergunta especialmente importante para Brasil, Índia, África do Sul, Indonésia e outros grandes países emergentes.

A multipolaridade interessa a esses Estados precisamente porque pode ampliar sua margem de autonomia. Se ela se transformar apenas numa bipolaridade reorganizada entre Estados Unidos e China, parte dessa vantagem desaparece. Por isso, países como Brasil e Índia tendem a defender um sistema com múltiplos centros de poder, e não simplesmente a substituição de uma hegemonia por outra.

A própria heterogeneidade do BRICS funciona como limite à capacidade chinesa de convertê-lo numa extensão automática de sua política externa. Índia e China possuem divergências territoriais e competem por influência regional. Brasil mantém relações econômicas fundamentais com China, Estados Unidos e União Europeia. Emirados Árabes Unidos mantêm fortes relações com Washington. Outros membros possuem interesses igualmente distintos. O agrupamento funciona por consenso e não constitui uma aliança militar.

Essa característica pode parecer fraqueza, mas também constitui parte de sua lógica. O BRICS oferece uma plataforma na qual Estados com sistemas políticos e alianças diferentes podem cooperar em áreas específicas sem assumir obrigações semelhantes às existentes numa aliança tradicional.

A OCS possui outra composição e outra trajetória, mas Pequim também insiste na fórmula de “parcerias, não alianças”. No discurso de setembro, Xi defendeu explicitamente diálogo em vez de confrontação e participação igual dos Estados na governança global.

Ao mesmo tempo, a China está construindo novas instituições. Segundo o Ministério das Relações Exteriores chinês, a Organização Internacional para Mediação já iniciou operações; foram criadas a World Data Organization e a World Artificial Intelligence Cooperation Organization; mais de 60 países aderiram ao chamado Grupo de Amigos da Governança Global; e Pequim afirma que quase 160 países e organizações internacionais manifestaram apoio ou respostas positivas à sua iniciativa de governança. Esses números são apresentados pelo governo chinês e devem ser entendidos como sua própria contabilização diplomática, não como prova de adesão uniforme ao conjunto da visão chinesa.

É justamente essa proliferação institucional que torna o momento atual historicamente interessante. A ascensão chinesa está passando de uma fase predominantemente econômica para uma etapa normativa e institucional.

A Belt and Road Initiative construiu infraestrutura. O Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura criou capacidade financeira. O BRICS ampliou mecanismos de cooperação entre grandes economias emergentes. A OCS consolidou uma plataforma euroasiática. As novas organizações para mediação, dados e inteligência artificial procuram ocupar áreas nas quais as regras internacionais ainda estão em formação.

Pequim parece ter compreendido que poder internacional duradouro não deriva apenas do tamanho do PIB ou das Forças Armadas. Deriva também da capacidade de construir instituições que outros países tenham interesse em utilizar.

Há, entretanto, um ponto que merece atenção particular do Sul Global: a diferença entre participar de instituições criadas por outros e possuir capacidade própria de formular regras.

Durante grande parte do período posterior à Segunda Guerra Mundial, países latino-americanos, africanos e asiáticos participaram de instituições cuja arquitetura central havia sido desenhada antes de sua ascensão econômica — e, em muitos casos, antes mesmo de sua independência política. A crítica atual à representação do Sul Global nasce dessa assimetria histórica.

Guterres reconheceu exatamente esse problema no encontro da OCS. Segundo o secretário-geral, as relações de poder mudaram, mas as instituições multilaterais continuam refletindo essencialmente o mundo de 1945. Por isso, defendeu reformas tanto das Nações Unidas quanto das instituições de Bretton Woods.

Nesse sentido, existe uma convergência objetiva entre parte do diagnóstico chinês e um debate muito mais amplo sobre reforma da governança internacional. A divergência começa quando se pergunta como reformar essas instituições, quais poderes redistribuir, quais regras preservar e quais novas organizações criar.

Para o Brasil, essa discussão é particularmente importante. O país defende há décadas reforma do Conselho de Segurança da ONU, maior representação dos países em desenvolvimento e mudanças nas instituições financeiras internacionais. Ao mesmo tempo, a recente aproximação com Pequim inclui inteligência artificial, minerais críticos, tecnologia e BRICS — exatamente áreas que a China agora conecta ao seu projeto de governança mundial.

Isso significa que a relação sino-brasileira pode deixar de ser medida apenas por toneladas de soja, minério de ferro e petróleo. Ela passa a envolver a participação brasileira na construção das infraestruturas institucionais e tecnológicas que poderão organizar parte das relações internacionais nas próximas décadas.

A oportunidade para o Brasil está em participar desse processo sem abrir mão de capacidade própria de decisão. Em termos estratégicos, uma ordem genuinamente multipolar interessa mais ao país quanto maior for a possibilidade de Brasília negociar simultaneamente com Pequim, Washington, Bruxelas, Nova Délhi, Moscou, África e América Latina, preservando autonomia para definir seus interesses.

É também por isso que a discussão sobre governança não pode ser reduzida a uma escolha entre “Ocidente” e “China”. O fenômeno mais profundo é a redistribuição gradual das capacidades econômicas, tecnológicas e políticas que sustentaram a ordem construída no pós-guerra.

A China está tentando converter essa transformação material em arquitetura institucional. O BRICS e a OCS são duas plataformas importantes. As iniciativas de governança, desenvolvimento, segurança e civilização fornecem o vocabulário político. As novas organizações de dados, inteligência artificial e mediação começam a oferecer estruturas concretas. E a presidência chinesa do BRICS em 2027 dará a Pequim outra oportunidade para avançar esse programa.

Nada disso significa que uma nova ordem mundial esteja pronta ou que a antiga tenha desaparecido. Os Estados Unidos continuam dispondo de enorme poder financeiro, tecnológico, militar e institucional. O dólar permanece central. As instituições de Bretton Woods continuam fundamentais. A OTAN ampliou sua presença. E o próprio crescimento chinês enfrenta limites econômicos, demográficos e geopolíticos.

O que está mudando é outra coisa: a exclusividade na formulação das regras internacionais está sendo contestada.

É esse o sentido estratégico mais profundo da proposta chinesa. A multipolaridade já não aparece apenas como previsão de um mundo futuro. Pequim procura transformá-la em instituições, tecnologias, sistemas financeiros, fóruns diplomáticos e mecanismos permanentes de coordenação.

A grande questão para o restante do Sul Global será determinar se essa transformação produzirá efetivamente maior capacidade de decisão para países historicamente sub-representados — ou se uma nova distribuição do poder entre grandes potências continuará deixando Estados menores na periferia das decisões.

Essa disputa ainda está aberta. E talvez seja exatamente por isso que ela seja uma das questões centrais da geopolítica contemporânea: o conflito não é apenas sobre quem terá mais poder no mundo multipolar, mas sobre quem participará da construção das regras desse mundo.

Artigo Anterior

Servidores vão às ruas de Patos- PB para cobrar do prefeito Jacob Souto atendimento à pauta de reivindicações

Próximo Artigo

CTB recebe dirigente sindical iraniano em São Paulo para fortalecer relações internacionais

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!