O governo Lula rejeitou a acusação de Donald Trump de que o Brasil falhou no combate ao PCC e ao Comando Vermelho. A investida é vista como mais uma tentativa dos Estados Unidos de criar justificativas para pressionar o país e interferir nas eleições brasileiras.
“O governo brasileiro refuta quaisquer alegações de que existam falhas ou omissões no enfrentamento ao crime organizado transnacional”, afirma a nota divulgada na noite de quarta-feira (16).
Trump fez a acusação no relatório anual enviado ao Congresso norte-americano sobre os principais países produtores ou usados como rota de drogas. Embora o Brasil não apareça na lista formal de 23 nações, o presidente dos Estados Unidos dedicou um trecho do documento a atacar o governo brasileiro.
“Essas organizações terroristas brasileiras representam uma ameaça crescente à paz e à segurança mundial, e o governo brasileiro precisa, com urgência, adotar medidas enérgicas para enfrentá-las e derrotá-las antes que se expandam e se fortaleçam”, afirmou Trump.
O uso do narcotráfico como justificativa para ameaçar outros países é denunciado por lideranças progressistas do Brasil e da América Latina.
Washington recorre ao argumento para pressionar governos que adotam uma política externa soberana e resistem à hegemonia norte-americana. A mesma acusação foi usada na ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela.
No Brasil, a ofensiva ocorre depois do tarifaço, das sanções contra autoridades nacionais e da pressão de Trump para impedir a condenação de Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe. Eduardo Bolsonaro também voltou a Washington para pedir novas punições contra o país.
A nota do governo Lula lembra que o próprio Trump recebeu, em 7 de maio, uma proposta brasileira para ampliar a cooperação contra o crime organizado. Passados mais de quatro meses, a Casa Branca não respondeu.
“Convém frisar a proposta entregue pessoalmente pelo presidente Lula no dia 7/5/2026, em Washington, com detalhamento de medidas conjuntas de enfrentamento à lavagem de dinheiro, compartilhamento de inteligência e combate ao tráfico de armas. Até o momento, o país aguarda possível resposta do governo dos EUA”, diz o comunicado.
O governo Lula também destaca que já existe uma “robusta cooperação” entre os dois países nessa área.
“O combate ao crime organizado é prioridade do Governo Federal e vem sendo conduzido de forma permanente por meio de ações de inteligência, investigação, integração entre as forças de segurança e cooperação internacional e jurídica”, afirma a nota.
A resposta brasileira enumera as medidas adotadas contra as organizações criminosas. Entre elas está a Lei Antifacção, sancionada em março, que aumentou as penas para líderes das facções e criou instrumentos para atingir suas fontes de financiamento.
“A posição estampada na referida nota desconsideraria, se acolhida em todos os seus termos, os esforços do Governo Federal no enfrentamento ao crime organizado, como a Lei Antifacção, sancionada em março de 2026, que prevê penas mais severas para líderes de facções e cria mecanismos que asfixiam suas operações”, afirma o governo.
A nota menciona ainda dezenas de milhares de operações realizadas pelas forças federais, com bilhões de reais em prejuízos para os grupos criminosos.
“Também não levaria em consideração as dezenas de milhares de operações de combate ao crime por forças federais, com bilhões de reais de prejuízo aos criminosos, bem como as múltiplas ações implementadas em 2026 no âmbito do Programa Brasil contra o Crime Organizado, lançado em maio último, que sufoca economicamente as facções, fortalece o sistema prisional, qualifica a investigação de homicídios e enfrenta o tráfico de armas.”
Apesar do ataque de Trump, o Brasil nem sequer foi enquadrado formalmente pelos Estados Unidos entre os principais países produtores ou de trânsito de drogas. A crítica foi inserida apenas na parte narrativa do documento e não produz, por si só, sanções automáticas.
“A alusão registrada no texto não corresponde à categoria jurídica de descumprimento formal prevista na legislação norte-americana que rege esse mecanismo anual. Trata-se, portanto, de manifestação circunstancial inserida na parte narrativa do documento, sem respaldo em sua parte dispositiva”, esclarece a nota.
Lula responderá na ONU
Lula pretende tratar do combate ao crime organizado no discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, na próxima semana, em Nova York. O presidente deve apresentar as ações realizadas pelo governo brasileiro e denunciar o uso do narcotráfico como pretexto para ingerências na América Latina.
A decisão também antecipa a resposta a Trump, que será o segundo chefe de Estado a discursar na Assembleia, logo depois de Lula. O governo avalia mencionar os R$ 11 bilhões investidos no combate ao crime e as operações realizadas pela Polícia Federal.
A disputa já entrou na campanha presidencial. Flávio Bolsonaro afirmou que, se eleito, pretende aderir às alianças militares promovidas por Trump na região e classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, como defende a Casa Branca.
O governo brasileiro encerra a nota com a defesa de uma atuação soberana contra as facções.
“O Governo brasileiro seguirá atuando de forma soberana e coordenada no enfrentamento às organizações criminosas, como demonstram os resultados obtidos nos últimos anos.”
“O enfrentamento ao crime organizado transnacional exige atuação contínua, integração entre instituições e cooperação. Essa é a estratégia adotada pelo Estado brasileiro e que continuará sendo fortalecida em defesa da segurança da população brasileira.”