
Por Pablo Araujo e Agatha Azevedo
Da Página do MST
Ao som de tambores, muita música e palavras de ordem, aconteceu na tarde de sábado (12), durante a programação da VI Feira Estadual da Reforma Agrária em Belo Horizonte, Minas Gerais, o ato de solidariedade promovido pelo Mãos Solidárias em parceria com os assentamentos e produtores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O intuito foi distribuir alimentos oriundos da reforma agrária aos territórios, instituições e cozinhas solidárias parceiras.
Com o objetivo de combater a fome no cenário urbano, os alimentos distribuídos para a realização da ação foram doados pelos feirantes participantes da VI Feira Estadual da Reforma Agrária, que contribuíram com 5% de sua produção, possibilitando a conexão e o diálogo direto entre o campo e a cidade. Ao todo, foram 4 toneladas de alimentos destinados a 20 territórios, que alcançarão diversas famílias em vulnerabilidade social, alimentar e nutricional.
Para Gabriela dos Anjos, integrante da coordenação do Mãos Solidárias e responsável pelas cozinhas solidárias, a iniciativa vai além da partilha. O ato buscou também conscientizar o público sobre o combate à fome e pautar a alimentação saudável como uma discussão política. Como reforça a coordenadora, o papel do projeto é fazer com que “as pessoas entendam de onde vem esse alimento, por que têm direito a ele e que só vamos conseguir acabar com a fome destruindo as estruturas que a constroem”.
O impacto da ação também foi sentido por quem atua na linha de frente dos territórios beneficiados. Para a contramestra Flávia Soares, da Capoeira Angola (Associação Cultural Eu Sou Angoleiro), a feira e a parceria com o Mãos Solidárias vão muito além da distribuição de comida, conectando-se diretamente com a ancestralidade, a identidade e a força das mulheres negras e agricultoras.
“Não é só uma feira onde a gente tem a presença do alimento, mas o alimento que cura a alma e nos fortalece para poder virar o jogo”, afirmou.
Flávia destacou ainda que os mantimentos doados pelo ato servirão para alimentar os participantes do encontro Aldeia Quilombo no Século XXI, reforçando o papel do projeto como uma base fundamental de apoio às favelas e comunidades periféricas.
O ato contou também com a participação especial da “Mesa de Thereza”, projeto da artista plástica e professora da Escola Guignard (UEMG), Thereza Portes. Embora Thereza tenha participado de todas as edições anteriores da Feira, desta vez a intervenção teve um peso diferente ao se somar diretamente à ação do Mãos Solidárias. O momento foi marcado pela partilha de uma rosca de oito metros, distribuída ao público presente, que se reuniu ao redor da mesa para comer e tomar um café coado na hora.
A experiência de convivência ia além do alimento. As pessoas eram convidadas por Thereza a pegar agulha e linha para bordar a grande toalha branca da mesa. Essa prática, que a artista iniciou anos atrás para registrar as histórias compartilhadas por quem lhe doava xícaras e canecas, tornou a toalha uma verdadeira cartografia social e afetiva, selando os laços momentâneos e o espírito de coletividade que dominaram o evento.

Solidariedade como atuação política do movimento
A ação do Mãos Solidárias reforça o caráter de centralidade da solidariedade na atuação política do MST, que aparece tanto na organização das lutas no Brasil quanto na construção de alianças com a cultura, os povos e movimentos de outros países. Para o Movimento, a solidariedade e o internacionalismo não se limitam à defesa simbólica de uma causa, mas expressam-se em brigadas, intercâmbios, formação política, campanhas e ações concretas de apoio.
Desta forma, ao promover a tradicional ação de doação de alimentos, o Movimento reforça seu compromisso com a luta de todos os povos, pauta que esteve presente em diversos momentos da Feira Estadual. Essa perspectiva de ação aparece na relação histórica do MST com Cuba, por exemplo.
Com mais de quatro décadas de articulação envolvendo cooperação, produção agroecológica e intercâmbio de formação, sementes, remédios e alimentos,o MST atua em forma de brigada permanente no país. Em maio de 2026, a campanha “Ajude Cuba”, articulada pelo MST, mobilizou a sociedade brasileira e enviou mais de sete toneladas de medicamentos à ilha, reafirmando seu compromisso diante do bloqueio econômico.
Na Venezuela, essa atuação também se manifesta por meio de missões, brigadas e intercâmbios com organizações populares. Em março de 2026, o MST realizou um curso sobre internacionalismo e mobilizou 41 brigadistas para uma missão de solidariedade no país. A experiência foi apresentada pelo Movimento como parte de uma rede de apoio aos povos em resistência e de construção de alternativas contra-hegemônicas.
Em maio, uma brigada formada por 80 militantes de organizações brasileiras e venezuelanas divulgou uma carta em defesa da Revolução Bolivariana, destacando a importância de aprender com as experiências de organização popular e de fortalecer a integração latino-americana.
Essa perspectiva ganhou expressão coletiva no 14º Encontro Nacional do MST, realizado em Salvador, que reuniu delegações de 22 países. Durante a programação, cerca de 3 mil pessoas participaram de um ato em solidariedade ao povo venezuelano, com a presença de movimentos populares, organizações sindicais e delegações internacionais. É nesse sentido que a solidariedade se torna também uma prática de construção de pertencimento e identidade coletiva.
Durante a Feira, Guê Oliveira, do Coletivo de Cultura do MST e militante do Mãos Solidárias, sintetizou esse sentimento ao afirmar: “somos todos só um povo”, referindo-se aos trabalhadores do mundo, seja no Brasil ou em qualquer país do planeta, da periferia das grandes cidades, às terras, águas e florestas. A frase traduz, em linguagem simples, uma concepção política presente nas ações do Movimento ao reconhecer que, apesar dos diversos tipos de fronteiras que separam os povos, estes compartilham desafios, enfrentam formas de exploração e dominação e podem construir respostas comuns. Para o MST, o combate à fome através da solidariedade é central na elaboração coletiva de respostas para os problemas criados pelo imperialismo, pelo neoliberalismo e pelo capitalismo.
