Quem precisa de quem : O que a comunicação digital revela sobre as alianças de 2026
por Eduardo Barbabela
Há uma pergunta que as coligações registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não respondem: a aliança existe de fato? Assinar uma composição é barato e reversível na prática política. Aparecer publicamente ao lado do aliado, pedir voto para ele, colar o próprio número ao dele, pode custar politicamente. E é justamente o que as redes sociais permitem observar, com data e hora, para cada candidato do país.
Acompanhamos 1.716 publicações dos candidatos presidenciais entre 1 e 20 de agosto, e 5.374 publicações de 69 candidatos a governador entre 17 e 31 de agosto, todas coletadas na Meta Content Library. O que aparece nesses dois conjuntos é um padrão só, e ele não é o que a leitura convencional das alianças sugeriria.
Nas seis chapas presidenciais em que titular e vice estão no corpus, quem exibe a aliança é sempre o vice. Geraldo Alckmin cita Lula em 30,8% das suas publicações; Lula cita Alckmin em 0,9% das dele. Eduardo Girão cita Romeu Zema em 62,5%; Zema o cita em 3,5%. Alfredo Gaspar cita Flávio Bolsonaro em 54,2%; Flávio o cita em 6,6%. Nenhum candidato a presidente menciona o companheiro de chapa em mais de 7% do que publica, e nenhum candidato a vice fica abaixo de 11%.
O padrão atravessa campos ideológicos, tamanhos de partido e graus de institucionalização. Ele não depende de simpatia nem de coesão programática. Depende de quem precisa da transferência de capital político e de quem a concede. Quem depende, mostra. Quem concede, economiza o gesto.
O mesmo movimento reaparece um degrau abaixo. Nos estados, 403 publicações de candidatos a governador citam um presidenciável em quinze dias. A recíproca praticamente inexiste: nas três semanas que monitoramos as contas presidenciais, os candidatos a presidente quase não nomeiam seus palanques estaduais. A campanha nacional é invocada pelos estados; os estados não são invocados pela campanha nacional.
O mapa das alianças que se vê nas redes não coincide com o mapa registado no TSE. É um mapa de necessidades, e a intensidade da sinalização mede carência de apresentação, não força do vínculo. A menor assimetria do corpus presidencial está na chapa formada mais recentemente, entre Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar, anunciada em 16 de agosto. A maior está em Lula e Alckmin, parceria com quatro anos de governo compartilhado. A aliança nova precisa ser apresentada ao eleitor; a antiga ele já conhece.
Entre os candidatos a governador, o alvo das citações é quase sempre o mesmo. Lula aparece em 314 das 408 menções; Flávio Bolsonaro, em 31. Vinte e nove perfis citam Lula, dez citam Flávio. Em 5.374 publicações de campanhas estaduais, o nome do principal desafiante aparece 0,6% das vezes.
O número mais revelador está dentro do campo de direita. Entre os candidatos a governador alinhados à oposição, as citações se dividem quase pela metade entre os dois: 19 mencionam Lula, 22 mencionam Bolsonaro. Do lado governista, a proporção é de 288 para 5. Ou seja, mesmo as campanhas que combatem o governo dedicam quase metade das suas menções presidenciais ao adversário, e não ao próprio candidato.
Quinze dias depois de aberta a campanha oficial, a disputa presidencial que chega à comunicação estadual continua organizada em torno do presidente, movida com igual empenho por quem o apoia e por quem o ataca. O desafiante ainda não se tornou referência para as campanhas estaduais, nem para as aliadas.
Comparando cada candidato a governador consigo mesmo, as publicações que citam um presidenciável ficam 45% acima da sua própria linha de base em reações, 51% em comentários e 34% em compartilhamentos. Publicações de ataque rendem cerca de três vezes o que rendem as de apoio. Esse último resultado, porém, não sobrevive ao escrutínio. São apenas 25 publicações de ataque no período, e uma única peça, de Sergio Moro sobre a entrevista de Lula ao Jornal Nacional, responde por metade do efeito estimado. Removida essa publicação, o ganho cai de 160% para 94%.
Quando se mede a taxa de engajamento, ou seja, reações divididas por visualizações, a vantagem desaparece. As publicações de apoio ganham 41% de alcance e 5% de taxa; as de ataque ganham 151% de alcance e nada de taxa. Citar um presidenciável está associado a mais circulação, não a público mais responsivo. Quem vê a peça não reage mais do que reagiria a qualquer outra daquele candidato.
Para quem faz campanha, a implicação é desconfortável. A campanha negativa estaria comprando alcance, e alcance é exatamente aquilo que também se compra com dinheiro. Aqui esbarramos em um limite que nenhuma metodologia resolve. A Content Library não informa se uma publicação foi impulsionada com verba de campanha. Nós, que temos acesso de pesquisa à base, não distinguimos a peça que viralizou da peça que foi paga. O eleitor, evidentemente, muito menos.
A impressão corrente é a de que candidatos a governador se agarram ao presidenciável do seu campo e que o ataque é a moeda forte da campanha digital. As duas coisas são verdadeiras pela metade, e a metade que falta muda o sentido político de cada uma. Seguiremos medindo até outubro.
Eduardo Barbabela (ISCSP-ULisboa)
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