Por Victor Jara: um exército de guitarras

Foto: Reprodução

Por Aline Antunes

Da Página do MST

Todos os anos, em 16 de setembro, nos lembramos da partida de Víctor Jara, uma data dolorosa que nos faz verter emoções diversas. Mas, como uma canção diz “me olvidé de olvidarte”, e assim é Jara, inesquecível, e mesmo com a brutalidade com a qual sua vida foi tirada, é com o legado da cultura, pela radicalidade do amor, com a rebeldia da cultura popular e folclórica que nos agarramos e preservamos sua memória e eterna presença. 

Em setembro de 2026 o Chile rememora os 53 anos do golpe militar, financiado pelo Imperialismo Norte Americano, que tirou a vida de seu principal líder político, Salvador Allende, e interrompeu um processo revolucionário que democraticamente acontecia desde as bases. A cultura chilena estava ativamente envolvida no efervescer político da época, e um de seus nomes era o dele, o dono de la guitarra trabajadora.

Por esse mesmo motivo, por construir uma atuação política cultural carregada de sentido e razão, que Víctor Jara tornou-se também alvo do golpismo assassino que o torturou e matou, com o objetivo de deixar um recado através da crueldade executada contra um operário da cultura. Mas o que a história nos conta é que a voz dos carrascos não ecoa, e sim o coro daqueles que cantam os direitos da humanidade, a trajetória dos povos, sua luta. O seu direito de viver em paz!

Aquela que jamais morre ou envelhece – La Nueva Canción Chilena

Apesar de seu tamanho continental e algumas características mais distintas de seus hermanos, durante os anos 60 o Brasil vivia movimentações bastante próximas de seus países vizinhos. Por um lado, o avanço do autoritarismo e a interferência yankee em nossa política interna. Ataque aos direitos, perseguição a movimentos populares, violência, desaparecimentos, e incertezas.

Foto: Reprodução

Do outro lado, como consequência ou como respiro, uma movimentação cultural que acompanhava o clima político de luta do continente. Aqui, a MPB partilhava de características  de um movimento mais amplo, a Nueva Canción Latinoamericana, que teve como países símbolo Chile – com a Nueva Canción Chilena, Argentina – com o Nuevo Cancionero Argentino, e Cuba – com a Nueva Trova Cubana, mas que também repercutiu em diversos outros territórios.

Enquanto nos EUA e na Europa se popularizava o termo “canções de protesto”, aqui ao Sul Víctor Jara preferia o termo “canções populares”, reivindicando um enraizamento da sua arte no popular do folclore, dos ritmos e instrumentos ancestrais, e sempre atento às novas cores e demandas do novo tempo.

Apesar de atento ao mundo, podendo ter viajado a Cuba, União Soviética, países da Europa, a trajetória de Víctor Jara era bastante própria, e mesmo trazendo referências e podendo estudar e se aprofundar nas teorias revolucionárias pelo mundo, sua trajetória artística e de militância foi forjada, do começo ao fim, por esse impulso de conexão com a vida do povo e sua luta cotidiana. Víctor via o mundo, mas seu universo chileno – desde o povoado de Lonquén – era gigante!

Víctor, sempre pensamos em ti!

Em homenagem às suas ferramentas de trabalho, sua voz, mãos, violão, canetas e canções, todos os anos “las guitarras” se reúnem como um verdadeiro exército obreiro para evocar a memória de Víctor, mas além disso, para demarcar a luta popular que permanece viva, seja no Chile, no Brasil, Cuba, Venezuela, em toda Nuestra América.

Por Víctor e por nossos mártires não mantemos apenas nossos acordos de luta, mas também nossos acordes: Sempre afinados em um mesmo coro cheio de sentido y razón. 

Editado por Vítor Peruch

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