O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, retirou neste domingo (13) o sigilo de cerca de cinco mil páginas produzidas pela Polícia Civil de São Paulo sobre a produtora do filme Dark Horse, cinebiografia fictícia de Jair Bolsonaro.
No despacho, o relator afirma que há a hipótese de um esquema sofisticado de destinação e desvio de recursos públicos, com destaque para emendas parlamentares federais e contratos da Prefeitura de São Paulo, e registra que essa organização teria vínculos com a facção criminosa PCC.
Dino determinou que o material da Vara Estadual das Garantias de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens passe a tramitar com publicidade no STF e que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo entregue à Polícia Federal celulares, computadores, documentos e o conteúdo bruto extraído dos aparelhos apreendidos em junho.
Também autorizou Relatórios de Inteligência Financeira do Coaf sobre a empresária Karina Ferreira da Gama e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), pedido que a Justiça estadual havia recusado.
Com a determinação, a apuração deixa de ficar confinada à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e passa a ser tratada no Supremo como um possível sistema de captação, circulação e ocultação de dinheiro público.
O elo que a polícia paulista documentou
A ramificação com o Primeiro aparece a partir dos vínculos contratuais e financeiros de Karina Ferreira da Gama, que preside o ICB e é sócia da Go Up Entertainment, com a Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda. que à época pertencia a Alex Leandro Bispo dos Santos, que segundo a polícia paulista, seria integrante relevante da facção criminosa, conhecido como escorpião.
O escorpião e os vínculos com a produtora de Dark Horse.
O instituto Conhecer Brasil firmou com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia o Termo de Colaboração do programa Wi-Fi Livre SP para a instalação, operação e manutenção de 5 mil pontos de internet em comunidades da capital, com valor inicial citado pelas investigações de R$ 108 milhões ao ano, e aditivos que elevaram o montante a cerca de R$ 157 milhões.
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Dentro dessa execução, o ICB subcontratou a Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., cujo contrato chegou a R$ 12 milhões, conforme a Polícia Civil.
Notas fiscais juntadas aos autos registram ao menos três pagamentos em 2025: R$ 500 mil em 24 de junho, R$ 500 mil em 4 de julho e R$ 2 milhões em 7 de julho. Até dezembro de 2025, a empresa havia recebido mais de R$ 2 milhões.
Órgãos de inteligência policial e o Ministério Público de São Paulo apontam Alex Leandro como integrante relevante do PCC no estado, conhecido como Escorpião do PCC.
O empresário acumula condenações por roubo e outros crimes, cumpriu cerca de 13 anos em regime fechado e passou por unidades de segurança máxima. Responde ainda a processo de feminicídio pela morte de Maria Katiane Gomes da Silva, em novembro de 2025. Ao receber a denúncia, a juíza da 5ª Vara do Júri registrou que havia notícia de que o réu se vangloriava da pecha criminosa de Escorpião do PCC.
A defesa dele nega filiação à facção e o feminicidio. O ICB afirmou que a empresa estava regular e que desconhecia vínculos criminais, enquanto a Prefeitura de São Paulo diz que seu contrato é apenas com o instituto. O ponto para a investigação não é uma filiação formal na produtora, mas o trânsito de dinheiro público municipal por uma empresa cujo sócio é qualificado pelo Ministério Público e pela inteligência como quadro da facção, no mesmo emaranhado societário que recebe emenda federal e produz a cinebiografia.
Suspeitas sobre deputados e repasses financeiros
Dino registrou em seu despacho que há alusão reiterada ao deputado federal, Mário Frias, que ocuparia um papel de liderança na suposta arquitetura criminosa.
Frias, ex-secretário de Cultura, é roteirista e produtor executivo de Dark Horse. A Controladoria-Geral da União apontou indícios de irregularidade na destinação de R$ 2 milhões em emendas do parlamentar ao ICB e à Academia Nacional de Cultura, também ligada a Karina Gama.
A Polícia Federal mapeou transferências pessoais de R$ 645,4 mil do deputado à Go Up entre novembro e dezembro de 2025.
Na quinta-feira (10), a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, autorizada por Dino na mesma petição, cumprindo 49 mandados de busca em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.
O comunicado oficial do STF registra a tese de que recursos de emendas ao ICB e ANC foram desviados para o filme. Dino suspendeu atividades econômicas das duas entidades e impôs cautelares.
A defesa de Frias nega irregularidades e afirma que as emendas tiveram fim social.
Conexões apontam ligações de Vorcaro com o crime organizado
De acordo com apurações divulgadas pelo portal ICL Notícias, a PF encontrou transferências de R$10 mil em articulação por proteção do PCC para Vorcaro, na cadeia.
Relatórios policiais detalharam movimentações financeiras e mensagens em que integrantes do braço miliciano de Vorcaro, conhecido como A Turma transferiu dinheiro para fazer chegar ao banqueiro o recado que havia uma “força por trás” capaz de ajudá-lo na prisão.
O dinheiro foi transferido por Manolo (Manoel Mendes Rodrigues), integrante da A Turma para o advogado André Luis Chagas Bergeralck.
Paralelamente, corre sob a relatoria do ministro André Mendonça a apuração de recursos pedidos por Flávio Bolsonaro ao ex-controlador do Banco Master, totalizando cifras milionárias rastreadas para fundo nos Estados Unidos,que teria sido usado para manter Eduardo Bolsonaro morando no Texas, EUA, de onde promove sucessivos ataques à soberania nacional.