
Por Diego Armando Cohecha
Durante a VI Feira da Reforma Agrária, mais de 60 toldos vermelhos, lotados de clientes e alimentos plantados em territórios do MST, deixaram ver que a produção de alimentos saudáveis é uma realidade que vem se ampliando ano a ano, uma feira após a outra.
No espaço Caminhos da Agroecologia estava Tomás Alvarenga, agrônomo e coordenador da equipe técnica da cooperativa mineira Coopertrac. Ele é um homem jovem e seu amor pela terra vem desde quando morava na roça com os avós. Questionado sobre os desafios da produção agroecológica como alternativa ao modelo do agronegócio, e a afirmação de que a produção agroecológica é uma iniciativa para pequenos “produtores gourmet”, que só é viável em pequena escala, ele apontou desafios de tipo estrutural.
“A produção de alimentos saudáveis, à escala, de maneira agroecológica por agricultores familiares é possível. O grande gargalo é político. Tem a ver com o financiamento e a educação.”
Sobre a recuperação dos solos degradados, ele explicou ainda.
“Quando os solos estão muito degradados pelos monocultivos, eu falo que eles ficam viciados em agrotóxicos, mas isso aí dá para solucionar com tempo, paciência e agrofloresta — e logo agrega sobre a diferença entre o orçamento estatal para o agronegócio e a agricultura familiar — mas o assunto do financiamento é muito discrepante. O agronegócio recebe bilhões de reais do Ministério da Agricultura, enquanto os agricultores familiares recebem uma parte ínfima do Ministério do Desenvolvimento Agrário”, disse Alvarenga.
Tomás explica que o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) tem um papel fundamental na pedagogia agroecológica, mas diz que, nas atuais condições, a política pública não tem o respaldo suficiente para formar a quantidade de pessoas de que precisa um modelo agroindustrial/agroecológico de caráter nacional.
Questionada sobre o mesmo assunto, Paula Ribeiro, dirigente do setor da produção do MST e coordenadora da Concentra — que é reconhecida pelos seus companheiros por sua espontaneidade e pragmatismo — indicou desafios técnicos.
“Primeiro, isso que você fala acontece nas experiências individuais e pequenas. Nós ‘estratejamos’ a produção de maneira coletiva e nossa diferença é o trabalho cooperativizado. É por isso que precisamos de mais famílias de agricultores e um nível de consciência mais elevado. Massificar a agroecologia é massificar a cooperação.”
Como exemplo de que massificação não é só possível, mas já é uma realidade na produção de alguns alimentos, a coordenadora comenta que no último ano, só em Minas Gerais, as cooperativas comercializaram 60 toneladas de feijão. A cifra aumenta levando em conta os lotes dos produtores do Movimento que ainda não estão cooperativizados. E quanto aos desafios dos fertilizantes e tratamentos das doenças, ela manifestou sem duvidar:
“A mecanização e os bioinsumos. Só batendo enxada não vai adiantar. A mecanização tem que acontecer, mas não pode ser com a maquinaria do agronegócio, ela tem que ser adaptada à realidade das famílias produtoras. É por isso que está rolando a parceria com as fábricas de tratores e as universidades chinesas”.
Sobre a elaboração dos fertilizantes e os tratamentos das doenças, Paulinha, como é conhecida pela militância mineira, ressaltou a importância das biofábricas dentro dos territórios do MST, “para produzir massivamente precisamos produzir nossos bioinsumos à maior escala”, explicou.
Tecnificação e saúde social em massa e para as massas
Para conseguir seu objetivo de massificar a produção agroecológica, o MST vem desenvolvendo, junto com organizações populares internacionais, uma ferramenta digital a serviço dos produtores da agricultura familiar: a IARAA, Inteligência Artificial da Reforma Agrária.
Além de responder perguntas sobre plantio, doenças, associações, entre outros assuntos, a ferramenta também é uma tecnologia social, pois fornece assessoria em metodologias de trabalho em grupo. Ribeiro acrescentou que a tecnificação passa pelo domínio da “nossa informação”, permitindo identificar condições particulares da produção local do Movimento, sem entregá-la aos impérios das bigtechs.
Desde o início deste século, o MST tem se dedicado a difundir a agroecologia como alternativa de produção no campo brasileiro. Nos últimos anos a aposta só tem aumentado. A estratégia enlaça agroindústria e produção em massa. É um projeto ambicioso, do tamanho do problema, da crise ambiental gerada pelo modelo do agronegócio. E hoje, na VI feira, o público foi testemunha de que tratores e ferramentas digitais dão as mãos às enxadas, foices e facões para produzir saúde e alimento em grande escala.
Editado por: Vítor Peruch