
Um relatório da Polícia Civil de São Paulo apontou “consistentes suspeitas” de que recursos do programa WiFi Livre SP tenham sido desviados para financiar a produção de “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo dos documentos da investigação neste domingo (13).
A apuração concentra-se na relação entre o Instituto Conhecer Brasil (ICB), contratado pela Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de internet, e a Go Up Entertainment, produtora responsável pelo longa. Karina Ferreira da Gama preside o ICB e é sócia da Go Up.
Para os investigadores, empresas subcontratadas e outras organizações sociais administradas por Karina podem ter servido para movimentar os valores. “Há consistentes suspeitas de confusão patrimonial e de que os recursos públicos do programa ‘WiFi Livre SP’ tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme”, afirma o relatório.
O documento também cita apontamentos do Tribunal de Contas de São Paulo sobre ao menos 20 irregularidades graves no edital que levou à contratação. Entre os problemas, a Polícia Civil destacou o uso de critérios genéricos para selecionar uma organização social sem experiência prévia no setor de telecomunicações.
O contrato do WiFi Livre SP tem valor total de R$ 108 milhões. Segundo a investigação, o ICB recebia R$ 1.800 por ponto de internet instalado, enquanto a empresa municipal de tecnologia Prodam cobrava R$ 230 pela implantação e R$ 306 pela manutenção mensal de cada ponto.

A Polícia Civil classificou os valores contratados como ao menos duas vezes superiores aos praticados pela administração municipal. Os investigadores também apontaram vício de origem no processo de seleção e suspeitas sobre a disparidade dos custos adotados no acordo.
Durante a campanha eleitoral de 2024, a instalação dos pontos avançou até chegar a 1.605 unidades ativas no fim de outubro. Depois da eleição, o ritmo caiu: em junho de 2025, havia 3.200 pontos, e os 1.800 restantes previstos no contrato não foram instalados.
Com base no fornecimento efetivo de internet nos pontos ativos, a Polícia Civil calculou que o município deveria ter desembolsado cerca de R$ 43 milhões. Os pagamentos, porém, chegaram a R$ 69 milhões, uma diferença de R$ 26 milhões que o relatório atribui a serviços não prestados.
Em nota, a defesa de Karina Gama negou qualquer irregularidade e disse considerar positiva a decisão de Dino de abrir os documentos. “Quem já apresentou voluntariamente mais de 20 mil páginas de documentação não teme transparência”, afirmou.
Quando a operação foi deflagrada, em 1º de junho, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) declarou que colabora com as autoridades e que a contratação respeitou os princípios de legalidade, transparência e economicidade.