
Aos poucos e a fórceps, começa a ruir a estrutura protetiva do bolsonarismo imposta ao caso Master pelo ministro André Mendonça e por parte da imprensa. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, anuncia a tomada de rédeas do inquérito. Pior que Mendonça ele não será. A conferir o que a quebra de sigilos revelará de pronto. Resta incólume nos pré-julgamentos midiáticos, para surpresa de ninguém, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, candidato à reeleição.
Os fatos que aproximam Tarcísio de Daniel Vorcaro são claros como água. Diferentemente da volúpia com que condena de antemão políticos de conduta suspeita, a mídia mainstream trata o governador paulista com nauseante doçura. O candidato dos sonhos da direita “civilizada” é pintado como “gestor”, termo usado para descrever governantes privatistas. E é justamente na prateleira das “privatizações” que o armário de Tarcísio guarda esqueletos.
Os fatos a envolver a privatização da Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia) mereceriam o empenho investigativo de Malu Gaspar junto a suas fontes de alta credibilidade. A coisa foi noticiada friamente e esquecida. Esta coluna vai recordá-la.
A Emae foi a primeira estatal privatizada na gestão Tarcísio de Freitas. O leilão ocorreu em abril de 2024 e o controle acionário da companhia foi arrematado por R$ 1,04 bilhão pelo Fundo Fênix de Investimento em Participações. A Emae é um ativo estratégico por gerenciar recursos hídricos vitais em São Paulo, como as represas Billings e Guarapiranga, e controlar o volume de água que abastece ou impacta diretamente as operações de saneamento do Estado. Sua venda foi repleta de excentricidades.

O Fundo Fênix foi criado cerca de 30 dias antes do leilão, tendo contado com uma sofisticada estrutura de apoio financeiro ligada diretamente ao Banco Master e ao empresário Nelson Tanure, apontado em investigações e relatórios da Polícia Federal como provável sócio oculto de Daniel Vorcaro. O Ministério Publico de São Paulo apontou que a engenharia financeira para arrematar a estatal teria utilizado como garantia ações da empresa Ambipar, que supostamente estariam com valores inflacionados artificialmente.
Logo após a privatização, a executiva que chefiava a área de fusões e aquisições do Banco Master, Karla Maciel, assumiu o cargo de CEO da Emae. Depois de passar às mãos do Fundo Fênix, a Emae teria retirado parte significativa de seu caixa líquido – cerca de R$ 160 milhões – e aplicado em CDBs e debêntures do próprio Banco Master e de outras empresas de Tanure, como a Light. É claro que o caixa da ex-estatal foi à lona. Foi quando a Sabesp, outra estatal paulista privatizada por Tarcísio, comprou o controle acionário da Emae.
A Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social do Ministério Público de São Paulo apura os reflexos desse escândalo financeiro sobre ativos do Estado de São Paulo. O MP-SP acatou representações da oposição na Assembleia Legislativa e abriu um procedimento preliminar focado nas privatizações da Emae e da Sabesp. A promotora de Justiça responsável pelo caso deu prazos formais ao governo estadual e às agências reguladoras para o envio de relatórios técnicos. Pretende-se descobrir se a privatização da Emae foi usada como balcão de negócios para irrigar o ecossistema do Banco Master.
Para o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, Nelson Tanure era sócio oculto do Banco Master. A engenharia financeira desenhada pela PF na Operação Compliance Zero detalha que a proximidade entre os dois ia muito além de uma relação tradicional de cliente e banco. As investigações apontam um esquema de triangulação em que o Master realizava vultosos empréstimos para empresas que, na sequência, depositavam esses valores em fundos administrados pela Reag Investimentos. Esses fundos realizavam transações com títulos de baixo valor, inflacionados de forma artificial, para escoar o dinheiro a empresas de fachada ou “laranjas” diretamente ligadas a Tanure.
Essa teia de negócios escusos, que envolve estatais paulistas privatizadas, já seria suficiente para que Tarcísio de Freitas figurasse entre os mais visíveis envolvidos com o Master de Daniel Vorcaro. Não bastasse, sua primeira campanha de 2022 para governador recebeu R$ 2 milhões de reais em doação de Fabiano Zettel, cunhado e “operador financeiro” de banqueiro-mafioso.
A face “previdenciária” do caso Master também contempla a figura do governador de São Paulo. Em 23 de outubro de 2025, o prefeito de Santa Rita d’Oeste, Osmar Sampaio (PL), o Osmarzinho da Oficina, recebeu o governador Tarcísio de Freitas em grande estilo para celebrar o recebimento de R$ 2,5 milhões para investimento em obras no município de 2,7 mil habitantes, que fica a 645 quilômetros da capital. O Iprem (Instituto de Previdência Municipal), que opera o Regime Próprio de Previdência dos funcionários públicos municipais de Santa Rita d’Oeste, investiu R$ 2 milhões em títulos do Banco Master.
A coluna procurou a assessoria de Tarcísio de Freitas para obter respostas dele às suspeitas de envolvimento com o Banco Master mais convincentes do que as dadas até agora, sempre na linha de apoio às investigações e ao esclarecimento dos fatos. O governador preferiu não nos atender.