A corrida presidencial ganhou um capítulo financeiro nada trivial. Enquanto disputa a Presidência, Flávio Bolsonaro aparece na investigação da PF como interlocutor direto de Daniel Vorcaro na tentativa de viabilizar recursos para Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. A cronologia dos contatos foi organizada pelo g1 a partir do relatório da PF, elaborado com dados extraídos do celular do banqueiro e informações do Coaf.
A relação entre os dois se intensificou no segundo semestre de 2025. Em 20 de agosto, surgiu o primeiro registro direto de mensagens entre os dois. Em 8 de setembro, Flávio já cobrava Vorcaro por repasses atrasados para o filme e demonstrava preocupação com um possível “calote” em integrantes da produção, citando o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro pediu desculpas e prometeu resolver a situação.
Em 15 de setembro, Flávio queria encontrar o banqueiro pessoalmente para mostrar o material gravado. No dia seguinte, os dois tiveram uma ligação. A data coincide com uma remessa de US$ 1,66 milhão feita pela Entre Investimentos para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, segundo o Coaf. A PF registra a coincidência, mas não afirma que a ligação tenha tratado da transferência.
A pressão continuou. Em 22 de outubro, com as filmagens em andamento, Flávio avisou que a produção estava “no limite” do orçamento e pediu que Vorcaro o avisasse imediatamente caso o aporte não saísse, para que pudesse buscar “outro caminho com urgência”. O banqueiro respondeu que verificaria a situação e informou ter liberado mais uma parcela. Na sequência, Flávio o convidou para um jantar em São Paulo com Caviezel e Nowrasteh.
No fim de outubro e início de novembro, o empresário Thiago Miranda voltou a cobrar Vorcaro, afirmando que pagamentos que teriam sido feitos ainda não haviam chegado aos destinatários no exterior. Em 7 de novembro, Flávio enviou um vídeo das gravações e agradeceu pelo apoio do banqueiro: “Tudo isso só está sendo possível por causa de vc!”, escreveu.
Nove dias depois, às vésperas da prisão de Vorcaro, Flávio voltou a procurá-lo. “Irmão, estou e estarei contigo sempre. […] Só preciso que me dê uma luz!”, escreveu. O banqueiro respondeu com uma mensagem de visualização única e Flávio encerrou a conversa com “Amém”. No dia seguinte, 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela PF ao tentar embarcar em um jato particular para o exterior.
Um encontro que ficou fora da cronologia da PF
A relação entre os dois, porém, não terminou ali. Em maio deste ano, veio à tona que Flávio havia se encontrado com Vorcaro quando o banqueiro estava em prisão domiciliar e usava tornozeleira eletrônica. O encontro não consta do relatório da PF que serviu de base para a cronologia divulgada agora.
Flávio admitiu a reunião, ocorrida entre a primeira e a segunda prisões de Vorcaro, e afirmou que o objetivo era “botar ponto final na questão” de Dark Horse.
A versão que mudou
A cronologia também expõe uma mudança na versão apresentada por Flávio: primeiro, ele negou ter pedido dinheiro a Vorcaro; depois, admitiu ter solicitado recursos para o filme. A alegação de que se tratava de uma captação privada de patrocínio contrasta com os próprios registros reunidos pela PF, que mostram cobranças por repasses, reuniões e contatos diretos do senador com o banqueiro. Flávio nega ter recebido valores diretamente ou cometido irregularidades.
O dinheiro ainda sem resposta
A investigação ainda não fechou a trajetória do dinheiro. A PF busca esclarecer de onde partiram os recursos destinados ao filme, por que a Entre Investimentos foi usada como intermediária, qual era a função do fundo Havengate Development Fund, no Texas, e quem foram os beneficiários finais dos valores enviados ao exterior.
Os investigadores também querem delimitar o papel de cada personagem na captação, gestão e destino das quantias — entre eles Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Mario Frias, Thiago Miranda, Antônio Freixo e os operadores do fundo nos Estados Unidos.
Por enquanto, essas perguntas continuam abertas. Mas a cronologia já desmonta qualquer imagem de Flávio como mero espectador da operação: ele cobrava os repasses, acompanhava as filmagens, marcava encontros com Vorcaro, agradecia pelo dinheiro liberado e voltava a procurá-lo quando o caixa apertava.
Para quem agora disputa a Presidência da República, é uma relação que a investigação ainda está longe de considerar encerrada.