Dino vê detalhe “curioso” nos dados financeiros de “Dark Horse”; entenda

O ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino. Foto: Luis Nova/Metrópoles

O ministro Flávio Dino apontou uma ausência “curiosa” nos dados financeiros que embasaram a Operação Make Up: um relatório completo do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre a Academia Nacional de Cultura (ANC), controlada pela empresária Karina Gama. Na decisão que autorizou a ação, o magistrado apontou que a entidade recebeu R$ 6.175.273,64 de outras empresas, mas uma comunicação do órgão apontou depósitos de apenas R$ 564 mil e pagamentos de R$ 524 mil. A informação é da coluna de Demétrio Vecchioli no Metrópoles.

“Assim, constata-se registros do envio de um total de R$ 6.175.273,64 para a ANC, o que, novamente, torna curioso o não recebimento de comunicações simétricas referentes às contas da mencionada organização da sociedade civil”, escreveu o ministro. Para Dino, o fato de a ANC aparecer repetidamente como destinatária de recursos em registros de terceiros pode indicar a existência de outra conta bancária que não entrou na comunicação analisada.

O ministro também lembrou que os registros do Coaf não abrangem necessariamente todas as contas de uma pessoa ou entidade, nem todas as instituições financeiras onde elas mantêm relacionamento. A comunicação citada na decisão cobre o período entre maio de 2025 e maio de 2026.

A Polícia Federal identificou R$ 6,1 milhões que saíram de fornecedores do Instituto Conhecer Brasil (ICB) e chegaram à ANC. A instituição tinha contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo e também recebeu emendas parlamentares. A ANC, por sua vez, ficou fora do foco inicial das apurações sobre o financiamento de “Dark Horse”, produzido pela Go Up Entertainment, outra empresa ligada a Karina Gama.

Ministro Flávio Dino
Karina Gama. Foto: Reprodução

Repasses à ANC e recursos usados na produção

Em junho de 2025, a ANC realizou em São Paulo a feira tecnológica gospel Connect Faith, que teve apresentação do cantor norte-americano Kirk Franklin. A Prefeitura de São Paulo informou ao Ministério Público que gastou R$ 3,5 milhões diretamente com fornecedores para apoiar o evento. A maior parte dos R$ 6,1 milhões em transferências de fornecedores do ICB para a ANC, porém, ocorreu depois da feira.

A decisão também detalha movimentações da Go Up brasileira, que recebeu R$ 8,9 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. Os recursos vieram de um banco de câmbio, com R$ 3,9 milhões; do publicitário Marcello Lopes, conhecido como Marcelão, com R$ 1 milhão; do deputado federal Mário Frias, com R$ 645 mil; da GO7, outra empresa de Karina Gama, com R$ 2,4 milhões; e da NTT Brasil, com R$ 750 mil.

Os relatórios registraram despesas da produtora com itens usuais de uma produção audiovisual, como hospedagem, alimentação e empresas do setor. Uma perícia privada contratada pela Go Up afirmou que a empresa gastou R$ 20,9 milhões no Brasil e que a versão norte-americana desembolsou outros R$ 54 milhões nos Estados Unidos.

Dino afirmou haver “fortes indícios de retorno dos recursos públicos pagos ao ICB para a esfera de disponibilidade dos próprios responsáveis pela OSC, com potencial caracterização de desvio e contornos de lavagem de dinheiro”.

A decisão pública não determinou quebra de sigilo fiscal ou tributário das empresas; também não traz relatórios sobre as transações da GO7, que recebeu R$ 1 milhão do ICB e transferiu R$ 2,5 milhões para a Go Up.

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