Manas, por Walnice Nogueira Galvão

Manas

por Walnice Nogueira Galvão

Causou surpresa o destaque dado ao filme Manas na premiação do Grande Otelo, da Academia Brasileira de Cinema. Dentre cinco troféus que conquistou, figuram dois dos mais importantes: os de melhor filme ( dividido com O agente secreto) e melhor direção. Não teve nada do merecido estardalhaço feito por O agente secreto, mais um  grande filme de Kleber Mendonça Filho, passando em revista a história da ditadura no Brasil. Que houvesse outro filme na disputa, foi o que surpreendeu tanta gente. Isso, embora Manas já chegasse aqui galardoado em Veneza e  Cannes. E conviria ter prestado atenção aos nomes dos produtores conforme os créditos: os irmãos Dardenne, Walter Salles, Sean Penn.

A diretora, Marianna Brennand, já havia pegado os espectadores desprevenidos, ao surgir com um belo documentário sobre seu tio, o escultor pernambucano Francisco Brennand. Ali, sem louvaminhas mas de modo bem direto e carinhoso, mostrou a arte maior do  tio, que passou a vida afeiçoando milhares de esculturas em cerâmica, ou barro cozido. Desde sua morte, esses milhares ficaram expostos no estúdio instalado na antiga olaria onde o pai fabricava telhas e tijolos. Alguns poucos estão em diferentes museus e outros ajudam a compor o monumento ao ar livre que erigiu em Recife, o Parque de Esculturas, com 90 de suas peças, defronte ao Marco Zero.

O documentário encaminha o respeito do espectador por um artista tão dedicado a sua arte. Brennand já atingira a maturidade quando pela primeira vez uma exposição sua saiu de Recife, rumo à Pinacoteca de São Paulo. Mesmo assim, não expunha muito e era reticente quanto a fazer auto-propaganda – o que só realça sua seriedade. A sobrinha soube entender essas virtudes e transmiti-las ao espectador. O documentário não passou despercebido e recebeu os principais prêmios do festival É Tudo Verdade, em São Paulo.

Reconhecida nesse gênero, a cineasta partiu para outro: a ficção.

Temos agora um filme entretecido de silêncios, lacunas e insinuações – partido adequado ao tema de que trata. O próprio espectador só entende aos poucos aquilo que o filme está abordando, e que é um assunto espinhoso: o incesto dentro de casa, e acobertado. Vemos uma menina de 13 anos, chamada Marcielle, decidindo que a irmã mais nova, aproximando-se da idade limite, não será mais uma vítima. E vai-se preparando para subtraí-la a uma tal fatalidade.

O filme focaliza o mundo das águas, onde as ruas são igarapés e os automoveis cedem lugar às canoas. É o meio-ambiente da gente bronzeada das comunidades ribeirinhas amazônicas. Tudo, ou quase tudo, se passa no universo líquido.

Uma palavra sobre os supracitados produtores. Eles se destacaram nesse tipo de cinema, ou seja, o engajado, de alcance politico e social. São eles os irmãos Dardenne, belgas, talvez menos conhecidos entre nós, mas que ganham um prêmio atrás do outro com filmes de orçamento reduzido. Dissecam sem piedade a condição dos olvidados na opulência europeia: jovens sem futuro, marginais, desempregados, pequenos delinquentes. Os irmãos são uma contrapartida ao inglês Ken Loach e ao francês Robert Guédiguian, todos de uma rara espécie: consagram-se aos pobres  Outro dos produtores é Walter Salles – é só lembrar Central do Brasil e Ainda estou aqui. Ainda outro  é Sean Penn, que acaba de levar mais um Oscar por seu desempenho em Uma batalha após a outra. Encarna ali um militar tentando matar a filha mestiça, sob pena de comprometer sua candidatura ao supremacismo branco.

Em suma: Marianna Brenand fez suas primeiras armas, com notáveis resultados tanto no documentário quanto na ficção. Saiu-se bem em ambos, como uma veterana. E isso numa arte que tem extraordinárias mulheres profissionais em nosso país. Muitas das mais profundas discussões de atualidades políticas e sociais devemos a essas cineastas. Como Anna Muylaert, que trouxe ao debate as questões que a instituição da empregada doméstica implica e que até então só tinham sido timidamente ventiladas. Ou como os inúmeros filmes diretamente militantes, obra de mulheres que fazem a crônica da ditadura (Lucia Murat e muitas outras). Ela tem uma brilhante carreira pela frente.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Leia também:

Artigo Anterior

Caso Master: PF expõe elo de Vorcaro com cúpula do BC de Bolsonaro

Próximo Artigo

VÍDEO: Malu Gaspar interrompe Octavio Guedes na GloboNews e toma invertida

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!