PF aponta “assessoria paralela” a Vorcaro em reunião com o bolsonarista Campos Neto

Daniel Vorcaro, ex-CEO do Banco Master. Foto: reprodução

A Polícia Federal (PF) apontou que Daniel Vorcaro recebeu orientações de um servidor do Banco Central (BC) sobre assuntos que deveriam ser abordados em reuniões com Roberto Campos Neto, então presidente da autoridade monetária. A informação consta de relatórios tornados públicos nesta sexta-feira (11), após a retirada do sigilo de investigações relacionadas ao Banco Master.

Segundo a PF, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, servidores afastados do BC, atuaram de maneira reiterada como consultores informais de Vorcaro. Os investigadores afirmam que eles forneceram orientações, revisaram documentos e intervieram em assuntos ligados à supervisão bancária em benefício dos interesses do então controlador do Banco Master.

Paulo Sérgio chegou a enviar a Vorcaro a portaria de sua promoção para chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup). O setor é responsável por monitorar capital e liquidez dos bancos e acompanhar práticas de gestão e controles internos das instituições financeiras.

A PF afirma que, a partir desse período, a atuação do servidor “passa a assumir contornos de verdadeira assessoria paralela”. Uma das mensagens destacadas pelos investigadores foi enviada em 21 de dezembro de 2023.

Na conversa, Paulo Sérgio “toma a liberdade” de sugerir a Vorcaro pontos que poderiam ser apresentados em reuniões com o “Presi”. Ao analisar o diálogo, a PF registra: “infere-se tratar-se do presidente do BCB, à época, ROBERTO CAMPOS NETO”.

Entre as orientações, Paulo Sérgio recomendou que Vorcaro demonstrasse como o Banco Will poderia ampliar a oferta de serviços de pagamento e contas correntes para uma base de aproximadamente 4 milhões de clientes do Credcesta. O Banco Master, em conjunto com a Reag Investimentos, adquiriu o Will Bank em fevereiro de 2024.

Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana. Foto: reprodução

“Tal fato indica que as orientações, seguidas ou não, culminaram na efetiva aquisição do referido banco”, afirma a PF. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Will Bank em 21 de janeiro de 2026.

Os investigadores também apontam que Paulo Sérgio tentou atuar, a pedido de Vorcaro, para modificar normas de enquadramento de entidades ligadas à Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc). Em outra ocasião, em 25 de abril de 2025, Vorcaro encaminhou ao servidor a minuta de um ofício do Banco Master destinado justamente ao Desup e pediu que ele revisasse o documento. Paulo Sérgio respondeu com alterações sugeridas.

Belline Santana, ex-chefe de departamento da área de supervisão bancária, também aparece no relatório. Em outubro de 2025, ele criou um grupo de mensagens com Vorcaro e Paulo Sérgio. “O contexto geral observado se relaciona ao que já vinha sendo tratado ao longo deste documento: a prestação de uma espécie de consultoria, tanto por meio de mensagens de texto e ligações quanto pela revisão de documentos, em benefício dos interesses de DANIEL VORCARO”, diz a PF.

A relação entre Belline e Vorcaro, segundo os investigadores, era anterior. Em novembro de 2023, Belline enviou uma mensagem ao banqueiro para tratar da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Em abril de 2024, procurou Vorcaro para marcar uma reunião com a participação de Paulo Sérgio.

Ao ser questionado sobre o assunto do encontro, Belline respondeu: “visão prospectiva e estratégica”. A PF afirma: “Sendo assim, entende-se que o tema tratado nenhuma relação tinha com o cargo ocupado por BELLINE como servidor do BCB, mas sim com os interesses de VORCARO e de seus negócios”.

Os relatórios ainda apresentam mensagens sobre pagamentos destinados a Belline. Em dezembro de 2023, Fabiano Zettel avisou Vorcaro de que era dia de realizar um pagamento ao servidor. Em outubro de 2024, uma das conversas indicou R$ 760 mil como valor destinado a Belline por meio de Leonardo Palhares. Segundo a PF, as referências a pagamentos continuaram durante 2025.

O sigilo das principais investigações do caso Master foi levantado nesta quinta-feira (10) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A medida ocorreu após solicitação do presidente da Corte, Edson Fachin, e liberou o acesso a inquéritos, reclamações e petições vinculados ao caso.

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