Jornalista analisa a crise entre integrantes do STF e da Polícia Federal, alerta para seus efeitos eleitorais e cobra uma política pública capaz de sustentar a comunicação independente
Da Redação
A crise institucional envolvendo integrantes do Supremo Tribunal Federal e da Polícia Federal será explorada politicamente durante a campanha eleitoral de 2026 e amplificada por plataformas digitais e grandes empresas de comunicação. A avaliação é da jornalista, comunicadora e escritora Rosângela Bion de Assis, para quem o episódio ocorre em um ambiente marcado por informações fragmentadas, falta de regulamentação das redes e uso eleitoral dos conflitos entre instituições.
As declarações foram dadas nesta quinta-feira (10) ao programa Trilhas da Soberania, transmitido pela TV Código Aberto em parceria com a Rádio e TV Atitude Popular, Rede Lawfare Nunca Mais, Satélite de Ideias, Pensando o Brasil e o Mundo e TV Travessia. A entrevista contou com comentários de Ludmila Cindra, da Rede Lawfare Nunca Mais, do jornalista e advogado Luís Delcides e do jornalista Ricardo Silveira.
Rosângela é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e trabalhou, entre 1988 e 2025, em entidades representativas da classe trabalhadora. Cofundadora da Cooperativa Comunicacional Sul, presidiu a organização entre 2017 e março de 2026. Também integra o Portal Desacato, no qual apresenta o Jornal dos Trabalhadores e Trabalhadoras e, neste ano, o programa Eleições 2026.
Durante a conversa, a jornalista relacionou a atual tensão institucional ao ambiente eleitoral e à capacidade de grupos políticos transformarem decisões judiciais, relatórios, vazamentos e conflitos internos em peças de campanha. Para ela, a crise não pode ser compreendida sem considerar a disputa pela Presidência e pelo controle do Congresso Nacional.
“A gente nunca subestimou a importância dessas eleições. Lá no Desacato, começamos em janeiro e fevereiro anunciando um programa que colocamos no ar em março, chamado Eleições 2026, com a seguinte grande chamada: um ano fundamental para o Brasil”, afirmou.
Crise institucional entra no calendário eleitoral
Questionada por Ludmila Cindra sobre os efeitos do conflito no STF e na Polícia Federal, Rosângela afirmou que a extrema direita não atravessaria o processo eleitoral sem provocar novas tensões. Ela associou o momento às consequências políticas do golpismo e chamou atenção para a trajetória de André Mendonça antes de sua chegada ao Supremo.
Mendonça foi ministro da Justiça e Segurança Pública e advogado-geral da União durante o governo de Jair Bolsonaro. Sua indicação ao STF ocorreu em 2021, após Bolsonaro prometer escolher um ministro “terrivelmente evangélico”.
“O André Mendonça é ministro do STF indicado por Jair Bolsonaro. Chefiou a Advocacia-Geral da União, foi ministro da Justiça e Segurança Pública e foi indicado para cumprir uma promessa de Bolsonaro”, recordou Rosângela.
A jornalista avaliou que Mendonça atua de acordo com a origem política de sua indicação. Para ela, a discussão não deveria ficar limitada a comportamentos individuais, pois a crise se desenvolve em um cenário mais amplo, no qual grupos econômicos, forças políticas e empresas de comunicação disputam a interpretação pública dos acontecimentos.
“Mendonça está dizendo a que veio. Está cumprindo a função dele de indicado por Jair Bolsonaro”, declarou.
Rosângela também contestou a expectativa de neutralidade absoluta em instituições formadas por pessoas indicadas politicamente. Em sua avaliação, ministros, jornalistas e demais agentes públicos possuem trajetórias, posições sociais e experiências que influenciam suas interpretações.
Ao falar sobre sua própria atuação profissional, ela citou a formação em escola e universidade públicas, a criação pela mãe solo e a experiência no movimento sindical para explicar por que não considera possível separar completamente uma análise da trajetória de quem a realiza.
“Como é que eu vou ter uma visão imparcial do mundo se eu venho desse lugar, se tive essa vida, com essas experiências e essa formação?”, questionou.
Para Rosângela, isso não elimina a necessidade de responsabilidade profissional ou jurídica. A questão é reconhecer que decisões não são tomadas fora dos conflitos sociais e políticos existentes no país.
Disputa vai além da eleição presidencial
Ao analisar o possível efeito eleitoral da crise, Rosângela afirmou que a atenção não deve ficar concentrada apenas na candidatura à Presidência. A composição das assembleias legislativas, da Câmara dos Deputados e do Senado também será decisiva para a relação entre o Executivo, o Judiciário e o sistema político a partir de 2027.
“As plataformas digitais e a mídia vão trabalhar para amplificar, colocar uma lupa em cima de tudo o que está acontecendo e utilizar isso política e juridicamente”, afirmou.
Segundo ela, o objetivo será não apenas impedir uma vitória do Presidente Lula, mas assegurar maioria parlamentar à direita e à extrema direita. Por isso, Rosângela criticou a ideia de que o eleitor possa escolher um candidato presidencial de um campo político e, sem considerar as consequências, votar para o Legislativo em nomes comprometidos com projetos adversários.
A jornalista classificou essa combinação como um “voto Frankenstein”. A expressão foi utilizada para advertir que a sustentação de um governo depende da correlação de forças no Congresso, onde são votados projetos, orçamentos e medidas que podem viabilizar ou bloquear políticas públicas.
Rosângela também apontou uma redução da vantagem eleitoral anteriormente registrada pelo campo governista. Na visão dela, os demais candidatos de direita poderão se reunir em torno de uma candidatura comum caso a eleição chegue ao segundo turno.
Informações fragmentadas moldam a percepção da crise
Um dos principais eixos da entrevista foi a maneira como os eleitores têm acesso às notícias. Rosângela citou uma pesquisa do DataSenado de março de 2026 segundo a qual 54% dos brasileiros utilizam meios digitais para se informar. A televisão foi mencionada por 37%.
Ela ponderou que a mudança não se resume à troca de um meio por outro. O conteúdo recebido por redes sociais e aplicativos de mensagens tende a chegar em recortes cada vez menores, muitas vezes retirados de entrevistas, debates e reportagens mais extensas.
“A pessoa não está assistindo aos programas inteiros de entrevista. Está assistindo a um recorte, a um flash, a um TikTok. É o recorte do recorte do recorte”, explicou.
De acordo com a jornalista, esse modelo facilita a circulação de informações incompletas, conteúdos maquiados e mentiras produzidas com aparência de notícia. Os próprios candidatos adaptam suas falas a essa lógica e preparam frases curtas para que sejam recortadas e distribuídas nas plataformas.
Rosângela observou que vídeos do TikTok e do Instagram são frequentemente compartilhados em grupos de WhatsApp, formando um circuito no qual o eleitor recebe conteúdos selecionados sem necessariamente conhecer a fonte ou o contexto original.
A crise institucional, portanto, não chega ao público apenas por meio de decisões, documentos ou reportagens completas. Ela é reinterpretada em vídeos curtos, publicações de influenciadores e mensagens encaminhadas por pessoas próximas, o que aumenta a força das versões emocionalmente mais mobilizadoras.
Redes favorecem conteúdos agressivos e superficiais
Luís Delcides questionou Rosângela sobre a circulação desigual de diferentes temas nas plataformas. Ele relatou que publicações relacionadas ao STF ou ao governo Lula alcançam mais visualizações e atraem ataques, enquanto conteúdos sobre literatura e assuntos menos polarizados recebem uma audiência menor.
Rosângela afirmou que as plataformas favorecem materiais curtos, estranhos, odiosos ou apresentados como impactantes. Segundo ela, a distribuição não segue apenas o interesse espontâneo do público, pois é influenciada por sistemas que definem quais publicações serão exibidas e para quem serão recomendadas.
“Quanto mais curto, quanto mais estranho, odioso ou impactante, mais essas redes turbinam a informação e mostram para mais contatos”, disse.
A jornalista relatou que o Portal Desacato identifica redução de alcance quando aborda o genocídio na Palestina ou conflitos políticos e fundiários de Santa Catarina. Segundo ela, há situações em que o conteúdo não chega nem aos seguidores da página.
Rosângela citou ainda experiências de canais que desapareceram sem explicações consideradas suficientes por seus responsáveis. O próprio Desacato, segundo ela, já teve um canal retirado do ar. Esses episódios mostram a insegurança de veículos independentes que dependem de plataformas privadas para distribuir seu trabalho.
“A gente está tentando fazer o nosso trabalho na casa do inimigo. Está tentando falar das nossas pautas e fazer jornalismo com seriedade e honestidade numa plataforma que não nasceu para isso”, declarou.
Ela acrescentou que os veículos podem reunir milhares de seguidores e perder todo o acervo caso uma empresa decida suspender uma página. O Portal Desacato, por exemplo, possui cerca de 85 mil seguidores em sua página mais antiga no Facebook, mas não tem controle sobre a permanência do conteúdo naquele espaço.
Falta de regulamentação amplia o poder das empresas
A entrevistada atribuiu parte do problema à ausência de regras capazes de assegurar transparência e proteção aos produtores de conteúdo. Sem uma regulamentação adequada, as empresas estabelecem unilateralmente as condições de circulação, remuneração e remoção das publicações.
“As plataformas funcionam como querem, de acordo com as próprias regras, regras que inclusive a gente desconhece”, afirmou.
Rosângela defendeu que as mídias independentes ocupem redes livres e desenvolvidas com código aberto. O Desacato já mantém presença em ambientes como Mastodon, Orgânica e outras iniciativas que permitem maior autonomia aos usuários.
Ela reconheceu que a audiência dessas redes ainda é pequena quando comparada à das grandes plataformas. Mesmo assim, considera necessário iniciar uma migração e desenvolver ações de formação para que mais pessoas compreendam o funcionamento desses ambientes.
“A gente não pode nutrir ilusões em relação a essas redes. Precisamos tentar construir aquele outro mundo possível em termos de plataforma de trabalho. Outro mundo existe. São essas redes livres e abertas”, defendeu.
Rosângela informou que a cooperativa realiza atividades de formação sobre redes livres, com aulas e oficinas práticas. A proposta é ajudar os participantes a criar perfis, compreender as ferramentas e começar a produzir conteúdo em ambientes menos dependentes das grandes empresas de tecnologia.
Jornalismo disputou espaço com a precarização
Outro tema abordado foi a redução da presença de conteúdos jornalísticos em plataformas como o TikTok. Luís Delcides observou que a rede concentra vídeos de entretenimento e amenidades, enquanto informações de interesse público aparecem com menor frequência.
Rosângela relacionou essa ausência à precarização do trabalho. Jornalistas e comunicadores produzem gratuitamente para empresas que lucram com o conteúdo, mas não garantem remuneração, estabilidade ou distribuição adequada.
“A gente está falando essencialmente de trabalho não remunerado. Toda vez que postamos conteúdos nas redes, estamos entregando conteúdo gratuitamente”, explicou.
Segundo ela, receitas, vídeos de animais e publicações sobre o cotidiano têm lugar legítimo nas redes. O problema surge quando o jornalismo é colocado no mesmo fluxo, sem diferenciação, visibilidade ou mecanismos de valorização profissional.
A entrevistada também associou a precarização à decisão do STF que derrubou, em 2009, a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Para Rosângela, a mudança coincidiu com a expansão da internet e enfraqueceu a formação profissional num período em que a sociedade precisava de maior capacidade crítica para avaliar informações.
Ela defendeu políticas de educação midiática que ajudem crianças, jovens e adultos a questionar fontes, reconhecer manipulações e compreender os interesses envolvidos na produção das mensagens.
“A gente precisa educar as pessoas para os meios de comunicação. É preciso que elas aprendam a ter uma visão crítica dos conteúdos que recebem”, afirmou.
Comunicação independente permanece sem financiamento público
Durante o programa, os participantes discutiram as dificuldades econômicas enfrentadas por veículos independentes. Rosângela afirmou que o Portal Desacato não recebe recursos públicos para manter suas atividades, embora produza diariamente conteúdos jornalísticos, entrevistas e programas voltados ao interesse social.
“A gente não recebe um centavo de incentivo ou verba pública para manter esse trabalho que presta à sociedade”, disse.
Ela criticou a concentração do patrocínio oficial nas grandes empresas de comunicação e cobrou uma política pública voltada aos veículos comunitários, populares e independentes. Sem financiamento, essas iniciativas dependem de contribuições, trabalho voluntário e esforço permanente para pagar equipamentos e serviços digitais.
A jornalista também fez uma crítica aos governos do campo progressista. Para ela, o Presidente Lula não tratou a comunicação com a prioridade estratégica exigida, enquanto o Ministério das Comunicações permaneceu frequentemente submetido às negociações com partidos de direita.
“O Presidente Lula não olhou para o tema da comunicação com a seriedade que ela exigia”, avaliou.
Rosângela acrescentou que a EBC não alcançou plenamente sua função social nem se consolidou como contraponto suficiente ao domínio dos grandes conglomerados privados. Na avaliação dela, a transformação desse cenário exige vontade política, pressão social e maior consciência dentro das próprias organizações progressistas.
“Como é que vamos pensar em conscientização de direitos se não temos acesso a um direito básico, que é poder se informar dignamente?”, questionou.
Cooperativa levou sete anos para obter registro
Ao falar sobre as dificuldades institucionais enfrentadas por organizações independentes, Rosângela relatou que o processo de legalização da Cooperativa Comunicacional Sul demorou sete anos na Junta Comercial de Santa Catarina.
“Eu não estou falando de sete meses. Estou falando de sete anos”, ressaltou.
A cooperativa começou a ser organizada em 2011. Após a aprovação da legislação sobre cooperativas de trabalho durante o governo Dilma Rousseff, o grupo precisou refazer o estatuto e reiniciar parte do processo.
Segundo Rosângela, a mudança do nome também foi necessária. O portal continuou a se chamar Desacato, mas a entidade jurídica adotou o nome Cooperativa Comunicacional Sul para evitar dificuldades adicionais no processo de registro.
A assembleia de fundação foi finalmente aprovada em 3 de março de 2017. Rosângela explicou que a organização procura assegurar direitos aos profissionais e rejeita modelos que utilizam o cooperativismo apenas para esconder relações precárias de trabalho.
“Somos uma cooperativa de trabalho de verdade, não uma cooperativa de fachada. Todas as pessoas que estão no Desacato são cooperadas ou estão em processo de cooperação”, afirmou.
Movimentos sociais impedem que direitos permaneçam no papel
Uma participante do programa perguntou como os movimentos sociais podem enfrentar os preconceitos e as discriminações presentes nas instituições. Rosângela respondeu que mobilização e controle social são indispensáveis para transformar garantias constitucionais em direitos efetivos.
“Toda vez que os movimentos sociais atuam, mobilizam e vão para as ruas, estão fazendo valer os direitos que ainda temos na Constituição. Sem isso, o direito fica como letra morta”, afirmou.
Como exemplo, ela citou a luta do Quilombo Vidal Martins, em Florianópolis, pelo reconhecimento de seu território. Segundo Rosângela, a comunidade enfrenta há mais de uma década dificuldades para obter a titulação definitiva, apesar de possuir a documentação necessária.
A jornalista defendeu a realização de atos unificados e a retomada da presença organizada nas ruas durante a campanha. Para ela, a mobilização não enfraquece o governo ou o Presidente Lula. Ao contrário, fortalece reivindicações sociais e mostra que existe uma base disposta a disputar os rumos do país.
Santa Catarina reúne tradição autoritária e lutas populares
Ricardo Silveira perguntou por que Santa Catarina se tornou um dos estados com maior presença do bolsonarismo. Rosângela relacionou o fenômeno à existência histórica de movimentos integralistas, à presença de células neonazistas e à expansão de clubes de tiro.
Ela ponderou, entretanto, que o estado também possui uma tradição importante de resistência social. Citou a Guerra do Contestado, a Novembrada, a Revolta da Catraca e a trajetória de Antonieta de Barros, primeira deputada estadual negra do Brasil.
Para Rosângela, a coexistência dessas tradições torna a disputa política catarinense particularmente intensa. Fora da capital, sobretudo no oeste do estado, comunicadores e militantes progressistas enfrentam um ambiente mais hostil.
A jornalista mencionou a força eleitoral de Jorginho Mello e João Rodrigues, identificados por ela com a extrema direita. As candidaturas ocupam posições de destaque nas pesquisas estaduais, o que amplia a importância da disputa por vagas na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional.
Jornalismo independente terá trabalho redobrado
Rosângela concluiu que os comunicadores independentes enfrentarão uma campanha marcada por desigualdade de recursos e capacidade de distribuição. Enquanto candidaturas e grupos econômicos contam com influenciadores, robôs, assessorias especializadas e estruturas profissionais, os veículos populares ainda lutam para manter suas transmissões e alcançar seus próprios seguidores.
“A gente vai ter muito trabalho pela frente porque não tem do nosso lado robôs, fortunas em dinheiro ou assessorias internacionais”, declarou.
A jornalista defendeu a cooperação entre canais independentes e convidou o público a acompanhar o Portal Desacato, que completou 19 anos em 2026. Além do Jornal dos Trabalhadores e Trabalhadoras, a iniciativa mantém programas noturnos, entrevistas, colunistas e eventos de formação.
A entrevista terminou com um chamado à valorização da informação jornalística, ao fortalecimento das redes de comunicação independente e à participação política para além das plataformas digitais.
“Somos mídias independentes. Estamos na mesma batalha para manter e fazer crescer esse trabalho. Em comunicação, a gente precisa se renovar, se atualizar e também buscar recursos para se manter”, concluiu Rosângela.
Referências
Transparente Demais, livro de poesias de Rosângela Bion de Assis, publicado pela Editora Letra em 2008
Número zero, romance de Umberto Eco mencionado durante o programa
Revista Pobres e Nojentas, da qual Rosângela Bion de Assis foi uma das editoras entre 2006 e 2011
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