Da Redação
Yahaya Abubakar Abdullahi afirma que a derrubada de Muammar Gaddafi em 2011 abriu um vazio de segurança que espalhou armas e combatentes pelo continente. A tese encontra respaldo parcial em estudos sobre o Sahel, mas a atual crise possui causas mais amplas: fragilidade estatal, pobreza, conflitos locais, mudanças climáticas, jihadismo, golpes militares e sucessivas intervenções estrangeiras — agora também com presença russa.
A crise de segurança que atravessa o Sahel e começa a se conectar de maneira cada vez mais preocupante ao noroeste da Nigéria voltou a colocar uma pergunta incômoda no centro do debate africano: quanto da instabilidade atual pode ser rastreado até a destruição do Estado líbio depois da intervenção militar da OTAN em 2011? Em entrevista publicada nesta quarta-feira, 9 de setembro, o senador nigeriano Yahaya Abubakar Abdullahi, presidente do Comitê do Senado para Inteligência Nacional e Segurança Nacional, afirmou que a intervenção ocidental na Líbia agravou profundamente os problemas de segurança da África Ocidental. Segundo ele, a derrubada de Muammar Gaddafi ocorreu sem que existisse uma estrutura capaz de preservar a segurança e a unidade do Estado líbio, criando um vazio cujas consequências atravessaram fronteiras.
A declaração foi dada à RT durante visita de Abdullahi a Moscou, num momento em que Nigéria e Rússia discutem ampliação de relações econômicas e cooperação, inclusive projetos ferroviários. Essa circunstância precisa ser considerada: a entrevista aparece em um veículo estatal russo e num contexto de aproximação com Moscou. Isso, entretanto, não torna automaticamente falsa a tese apresentada pelo senador. Parte central do argumento — a conexão entre o colapso líbio, a circulação regional de armamentos e combatentes e a deterioração do Sahel — aparece há anos em análises que não dependem da narrativa russa.
O que exige cuidado é transformar essa relação histórica numa explicação única. A guerra de 2011 foi um acelerador decisivo de uma crise que já possuía raízes próprias, mas não explica sozinha o que aconteceu posteriormente no Mali, Burkina Faso, Níger, Nigéria e demais países da região.
A dimensão atual do problema é enorme. Dados publicados pelo Africa Center for Strategic Studies apontam que o Sahel registrou aproximadamente 9,9 mil mortes associadas a grupos islamistas militantes no último período analisado, mais do que qualquer outra região africana. Desde 2022, quase 49 mil mortes foram relacionadas ao extremismo violento no Sahel. A principal coalizão jihadista da região, Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin, conhecida pela sigla JNIM e vinculada à Al-Qaeda, responde pela maior parcela dessa violência.
O mais preocupante para Abuja é que essa geografia está mudando.
Da Líbia para o Sahel
Quando a revolta contra Gaddafi começou em fevereiro de 2011, a Líbia possuía um dos maiores arsenais militares da África. A intervenção internacional, autorizada inicialmente pelo Conselho de Segurança da ONU para proteger civis e posteriormente conduzida militarmente pela OTAN, contribuiu para a derrota do regime. Gaddafi foi capturado e morto em outubro daquele ano.
O problema estratégico veio depois.
A queda do governo não produziu imediatamente um Estado estável capaz de controlar território, fronteiras, arsenais e forças armadas. A Líbia fragmentou-se entre grupos armados, autoridades concorrentes e redes políticas e econômicas distintas. Combatentes que haviam trabalhado ou lutado para o regime retornaram para outros países, enquanto armas provenientes do enorme estoque líbio circularam pelas rotas transaarianas.
Mali seria um dos primeiros lugares a sentir diretamente essa onda de choque.
Combatentes tuaregues que haviam servido na Líbia regressaram ao norte malinês fortemente armados. A rebelião iniciada em 2012 rapidamente se combinou com grupos jihadistas que possuíam suas próprias agendas. O Estado perdeu o controle de grandes extensões territoriais, desencadeando uma crise que provocaria intervenção francesa e, posteriormente, anos de operações militares internacionais.
Foi nesse contexto que surgiram operações como Serval e depois Barkhane, enquanto Estados Unidos, União Europeia, Nações Unidas e países regionais desenvolveram diferentes mecanismos de segurança e contraterrorismo.
O resultado, mais de uma década depois, está longe do esperado.
Um relatório do United States Institute of Peace já reconhecia que a estratégia ocidental de contraterrorismo havia produzido resultados limitados. O documento avaliou que a abordagem excessivamente concentrada em instrumentos militares, particularmente sob liderança francesa, teve impacto duradouro reduzido sobre a atividade jihadista e não enfrentou adequadamente os fatores locais que alimentavam os conflitos.
É uma constatação importante porque mostra que a crítica ao modelo de intervenção não está restrita a Moscou, às juntas militares sahelianas ou aos governos que romperam com Paris.
O problema não começou em 2011
A tese do senador Abdullahi, porém, precisa de uma segunda metade.
O Sahel não entrou em crise exclusivamente porque a Líbia desmoronou. A região acumulava Estados frágeis, vastas fronteiras praticamente impossíveis de controlar, pobreza, desigualdade, corrupção, disputas comunitárias, conflitos entre agricultores e pastores, baixa presença estatal e populações jovens com poucas perspectivas econômicas.
A deterioração ambiental acrescentou outra camada. Desertificação, redução de áreas de pastagem e competição por água e terra intensificaram tensões entre comunidades sedentárias e populações pastoris. Onde o Estado aparece pouco — ou aparece principalmente através de forças de segurança percebidas como repressivas — organizações armadas encontram espaço para recrutar.
Estudo publicado em 2026 pelo Stimson Center descreve exatamente essa combinação: mudanças climáticas, pressões demográficas, ausência de oportunidades, enfraquecimento das instituições públicas e multiplicação de grupos armados produziram aquilo que o pesquisador chama de um “oligopólio da violência”, no qual diferentes atores disputam aquilo que deveria constituir uma função fundamental do Estado.
Portanto, existe uma diferença fundamental entre dizer que a destruição do Estado líbio agravou e acelerou a crise do Sahel e afirmar que o Ocidente criou sozinho a crise africana.
A primeira proposição possui sustentação histórica considerável. A segunda simplifica um fenômeno muito mais complexo.
A intervenção militar também fracassou em conter o incêndio
Há, contudo, outro aspecto que fortalece parcialmente a crítica de Abdullahi.
Depois de 2011, o Sahel não sofreu por ausência de intervenção externa. Ocorreu justamente o contrário. Durante anos, a região recebeu tropas francesas, missões internacionais, treinamento europeu, inteligência norte-americana, drones, operações especiais e bilhões de dólares destinados a segurança.
Apesar disso, organizações jihadistas ampliaram sua área de atuação.
Mali, Burkina Faso e Níger acabaram mergulhando em golpes militares. Os novos governos romperam progressivamente com a França, aproximaram-se de Moscou e, em janeiro de 2025, deixaram formalmente a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental, a ECOWAS, consolidando a Aliança dos Estados do Sahel — AES.
A arquitetura regional de segurança fragmentou-se.
Essa fragmentação é hoje um dos problemas centrais. Nigéria e outros países continuam ligados à ECOWAS, enquanto Mali, Níger e Burkina Faso constroem uma estrutura política e militar própria. Uma ameaça que atravessa fronteiras passou, portanto, a ser enfrentada por governos que possuem relações diplomáticas deterioradas entre si.
A situação produziu episódios reveladores. Em dezembro de 2025, Burkina Faso deteve 11 militares nigerianos depois que um C-130 da Força Aérea da Nigéria realizou pouso de emergência em Bobo-Dioulasso. Abuja afirmou que o avião seguia para manutenção em Portugal e enfrentara problema técnico; as autoridades burquinenses disseram que a aeronave havia entrado no espaço aéreo sem a autorização necessária. O episódio tornou visível a deterioração da confiança entre vizinhos que, objetivamente, enfrentam adversários transnacionais semelhantes.
Agora a violência aproxima-se ainda mais da Nigéria
Para Abuja, esse é o ponto mais sensível.
A Nigéria possui uma longa história própria de insurgência jihadista, principalmente no nordeste, onde Boko Haram e o Estado Islâmico na África Ocidental operam há anos. O que está acontecendo agora é diferente: organizações e redes ligadas ao conflito saheliano começam a avançar pelo noroeste nigeriano e a interagir com grupos criminosos e insurgentes locais.
O Africa Center registrou crescimento expressivo de mortes associadas a grupos militantes sahelianos no noroeste da Nigéria: de praticamente nenhuma em 2024 para 136 em 2025 e 504 em 2026, segundo sua atualização mais recente. JNIM e Estado Islâmico no Grande Saara aparecem estabelecendo relações com organizações locais como Ansaru, facções de Boko Haram, Lakurawa e redes de banditismo.
Essa convergência muda qualitativamente o problema.
O noroeste nigeriano já sofria com grupos criminosos envolvidos em sequestros, extorsões, roubo de gado e controle territorial. Quando redes jihadistas passam a se sobrepor a essas estruturas, fronteiras entre terrorismo, insurgência e criminalidade organizada tornam-se progressivamente difusas.
O país passa então a enfrentar dois grandes vetores: Boko Haram e ISWAP no nordeste e a penetração da crise saheliana pelo noroeste.
Não é coincidência que um senador responsável justamente pelo comitê de inteligência e segurança nacional esteja tratando o assunto como questão estratégica.
A troca do Ocidente pela Rússia não resolveu o problema
Existe, porém, uma contradição que não pode desaparecer da análise.
Os governos militares do Mali, Burkina Faso e Níger expulsaram ou reduziram drasticamente a presença militar francesa e norte-americana alegando, entre outras razões, o fracasso do modelo ocidental de segurança. Ao mesmo tempo, ampliaram relações militares com Moscou.
A Rússia tornou-se uma das principais parceiras de segurança desses governos, primeiro por meio do Grupo Wagner e posteriormente através do Africa Corps, estrutura vinculada ao Estado russo.
Mas a substituição do parceiro estrangeiro não eliminou a insurgência.
O próprio Níger oferece uma demonstração recente. Em 29 de agosto, militares amotinados atacaram instalações estratégicas em Niamey, incluindo o aeroporto e áreas próximas à Presidência. A crise ocorreu num país que havia rompido com parceiros ocidentais e aprofundado relações com Moscou.
No dia seguinte, forças governamentais retomaram o controle da base aérea com participação do Africa Corps russo. Fontes ouvidas pela Reuters disseram que forças russas participaram diretamente dos combates e utilizaram drones kamikaze contra os amotinados. Moscou confirmou que o Exército nigerino recebeu assistência do Africa Corps.
O episódio sintetiza uma transformação geopolítica profunda.
A presença militar estrangeira no Sahel não terminou. Mudou de bandeira.
França e Estados Unidos reduziram dramaticamente sua presença em vários países; Rússia ampliou a sua. A competição internacional continua, enquanto as causas internas da violência permanecem.
E os números indicam que a situação de segurança continua extremamente grave.
O fracasso é mais amplo do que uma potência
Esse talvez seja o elemento mais importante para compreender a declaração de Abdullahi.
A intervenção na Líbia pode ser considerada um marco fundamental na deterioração da segurança regional. As estratégias militares ocidentais posteriores também não conseguiram impedir a expansão jihadista. Mas seria um erro concluir daí que a simples retirada do Ocidente resolveria o problema.
Ela não resolveu.
Segundo o Africa Center, aproximadamente 23.968 mortes estiveram associadas a grupos islamistas militantes na África em 2025, aumento de 24% sobre o ano anterior. O Sahel permaneceu pelo quinto ano consecutivo como a região africana com maior número de mortes relacionadas a essas organizações.
Há ainda outra questão particularmente grave: operações militares conduzidas por governos locais e forças auxiliares também têm produzido mortes de civis. O Africa Center afirma que, no Mali e em Burkina Faso, mortes de civis associadas às forças armadas e milícias aliadas ultrapassaram, em determinados períodos recentes, aquelas atribuídas aos próprios grupos jihadistas. O centro argumenta que abusos desse tipo contribuem para alimentar recrutamento insurgente.
Forma-se então um ciclo.
Ataques jihadistas produzem operações militares. Operações indiscriminadas podem atingir comunidades. A violência contra civis produz ressentimento. Organizações insurgentes exploram esse ressentimento para recrutar. Novos ataques justificam novas operações.
Nenhuma potência estrangeira consegue romper esse circuito apenas com drones, forças especiais e treinamento militar.
O Sahel tornou-se uma disputa pela própria soberania africana
Por trás da discussão sobre segurança existe ainda uma transformação política maior.
Mali, Burkina Faso e Níger passaram a apresentar sua ruptura com a França e sua aproximação com novos parceiros como parte de um projeto de soberania. Recursos minerais, particularmente o urânio do Níger, tornaram-se parte dessa disputa.
Niamey vem aumentando o controle estatal sobre o setor e assumiu ativos anteriormente vinculados à francesa Orano. O país possui urânio, petróleo e ouro e ocupa posição estratégica tanto para a segurança energética europeia quanto para a competição internacional por recursos minerais.
A crise do Sahel, portanto, não pode ser reduzida à guerra contra organizações jihadistas.
Ela envolve simultaneamente controle territorial, recursos naturais, legitimidade dos Estados, presença militar estrangeira, soberania, rotas comerciais, migração, mudanças climáticas e a disputa geopolítica entre diferentes centros de poder.
A França perdeu grande parte da posição que construiu durante décadas em sua antiga esfera colonial. Os Estados Unidos abandonaram instalações importantes, entre elas a base de drones construída em Agadez, no Níger. Moscou ocupou parte do espaço militar aberto. China expande influência principalmente por infraestrutura, comércio, mineração e financiamento. Governos africanos tentam aumentar sua margem de autonomia entre essas potências.
O perigo é substituir uma dependência por outra.
O alerta nigeriano
É nesse contexto que a declaração do senador Yahaya Abubakar Abdullahi deve ser compreendida.
Ela não é simplesmente uma crítica retrospectiva à intervenção de 2011. Vinda do presidente de uma comissão parlamentar dedicada a inteligência e segurança, reflete uma preocupação atual da maior potência demográfica da África: a fronteira entre a crise do Sahel e os problemas internos da Nigéria está ficando cada vez menos nítida.
A insegurança já ocupa posição central na política nigeriana. Em agosto, a Reuters registrou que violência, sequestros e ataques permanecem entre as principais preocupações da população, ao lado da crise do custo de vida.
A deterioração do Sahel acrescenta outra dimensão: organizações armadas não reconhecem a arquitetura política que separa ECOWAS e AES. Para uma rede jihadista, a fronteira entre Níger e Nigéria pode ser muito menos relevante do que é para os governos de Abuja e Niamey.
A segurança regional depende, portanto, de algo que atualmente está em falta: cooperação entre Estados politicamente afastados.
O diagnóstico histórico apresentado por Abdullahi contém uma advertência válida. A destruição de um Estado pode produzir efeitos que atravessam décadas e milhares de quilômetros. A queda de Gaddafi não ficou confinada à Líbia. Armas, combatentes e instabilidade atravessaram o Saara e encontraram sociedades que já acumulavam profundas fragilidades.
Mas 15 anos depois, o problema ultrapassou sua origem.
O Sahel tornou-se um sistema próprio de conflitos.
Reduzi-lo a uma consequência exclusiva da OTAN absolveria governos locais, elites políticas, forças de segurança e todos os demais atores externos de suas responsabilidades posteriores. Da mesma maneira, ignorar o impacto da intervenção de 2011 significaria apagar uma das grandes rupturas estratégicas que ajudaram a transformar a região.
A conclusão que emerge dos dados é mais incômoda: houve um fracasso acumulado de diferentes modelos de segurança. A destruição do Estado líbio espalhou instabilidade; anos de contraterrorismo ocidental não conseguiram contê-la; governos militares prometeram restaurar a segurança e continuam enfrentando insurgências crescentes; e a entrada russa tampouco produziu uma solução definitiva.
Enquanto isso, o mapa da violência continua avançando.
E quando organizações sahelianas começam a estabelecer conexões no noroeste da Nigéria, a crise deixa de ser apenas um problema de três países governados por juntas militares. Passa a ameaçar uma área muito maior da África Ocidental.
É por isso que a fala de Abdullahi merece atenção para além da disputa narrativa entre Rússia e Ocidente. O ponto decisivo não é determinar qual potência estrangeira consegue apresentar a interpretação mais conveniente sobre o passado. É compreender a lição produzida por quinze anos de intervenção, colapso estatal e guerra: segurança sem instituições, desenvolvimento e legitimidade política pode conter uma crise temporariamente, mas dificilmente consegue encerrá-la.
O Sahel está mostrando o preço dessa ausência.