“Dark Horse”: prefeitura de SP oculta origem de recursos para camisetas de Mendonça

Camisetas exibidas pelo prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, em apoio ao ministro do STF André Mendonça. Foto: Reprodução

Ricardo Nunes publicou um vídeo mostrando o ministro do STF André Mendonça como o personagem principal do ato de 7 de setembro dos bolsonaristas, na avenida Paulista, em uma camiseta distribuída pela Prefeitura de São Paulo.

O prefeito alega que mandou fazer dez camisetas para distribuir no ato.

Verde e amarelas, as camisetas de Nunes traziam o slogan “Força Mendonça” e “Oramos por você!”. “É isso aí, André Mendonça. Estamos com você”, disse ele em um vídeo em que filma as roupas.

Isso pode configurar crimes de improbidade administrativa e de responsabilidade.

 

O DCM entrou em contato com a Prefeitura de São Paulo às 15h32 do dia 7 de setembro. Enviamos essas perguntas:

  • O contribuinte pagou quanto pelas camisetas com os slogans “Força Mendonça” e “Oramos por você!”?
  • Teve empresa privada envolvida na distribuição dessas camisetas? Como foi isso?
  • A gestão Ricardo Nunes não teme cometer crime eleitoral, tanto indo no ato pró-Flávio Bolsonaro e anti-Mendonça?
  • De quem foi a ideia de fazer essas camisetas? Da gestão Nunes? De Malafaia? Quem foi o responsável?

Não houve resposta. A reportagem ligou para dois assessores e fez contatos com três pessoas diferentes por email e WhatsApp, sem receber qualquer esclarecimento.

O DCM não recebeu esclarecimentos sobre a origem dos recursos para as camisetas pró-Mendonça, o quanto de dinheiro público foi utilizado ou se teve algum tipo de parceria privada.

Irmão de Mendonça ganha cargo na Prefeitura de SP

André Mendonça, ministro do STF, e Ricardo Nunes, prefeito de SP. Foto: Marina Uezima/Brazil Photo

Alexandre de Almeida Mendonça, irmão do ministro do STF, assumiu o cargo de secretário-executivo da SP Regula, a agência reguladora de serviços funerários e cemiteriais da Prefeitura de São Paulo. A nomeação, assinada por Nunes, ocorreu após o magistrado votar no STF a favor de uma tese defendida pela gestão municipal em uma ação que contesta o modelo de concessão desses serviços na capital.

O voto de Mendonça abriu divergência em relação ao relator do processo, o ministro Flávio Dino. Ele defendeu que o STF não deveria aceitar a ação judicial e se posicionou pela derrubada das medidas cautelares que o colega havia imposto à prefeitura e às empresas concessionárias. A disputa jurídica gira em torno do questionamento sobre o aumento nos preços cobrados pelos serviços funerários após o processo de privatização.

Alexandre já fazia parte dos quadros da agência antes da promoção ao cargo mais alto da secretaria. Ele começou como gerente na SP Regula em fevereiro de 2024, foi promovido a superintendente em julho do mesmo ano e alcançou o posto de secretário-executivo em junho, após a intervenção do ministro no caso.

Operação da PF

Alvo de mandados de busca e apreensão da Polícia Federal na manhã desta quinta-feira (10), a empresária Karina Ferreira da Gama é dona da Go Up, produtora responsável pelo filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ela também mantém um contrato milionário com a Prefeitura de São Paulo.

Karina passou a se aproximar da família do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e participou da campanha do deputado federal Mario Frias (PL-SP), que também é produtor executivo de “Dark Horse” e foi alvo da operação da PF nesta quinta-feira.

Antes de se envolver com o projeto do filme, Karina atuava na promoção de literatura cristã e prestava serviços de audiovisual e organização de eventos para igrejas da região onde vivia, na Brasilândia, periferia da Zona Norte de São Paulo.

Karina Gama, produtora de “Dark Horse”. Foto: Reprodução

Aos 46 anos, a empresária é responsável ainda pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG fundada por ela. Em um intervalo de dois anos, a entidade deixou de ser uma organização de pequeno porte, dedicada principalmente a eventos de literatura cristã financiados com auxílio de emendas de vereadores evangélicos de São Paulo, e passou a administrar um contrato milionário para instalação de serviço gratuito de wi-fi na capital.

Karina é oriunda da Brasilândia e, segundo informações divulgadas sobre sua trajetória, vivia em uma casa simples que chegou a ser objeto de um processo de usucapião na própria Prefeitura de São Paulo.

Do gospel ao contrato milionário

Criado em 1990, o Instituto Conhecer Brasil começou a firmar contratos com a Prefeitura de São Paulo em 2018. Um dos primeiros projetos foi o “Encontro Literário IDE”, voltado a escritores gospel e realizado entre 27 e 30 de setembro daquele ano.

Para o evento, a entidade assinou um contrato de R$ 2,5 milhões com a Secretaria Municipal da Cultura.

A trajetória do instituto posteriormente mudou de escala, culminando no contrato milionário relacionado à instalação de wi-fi gratuito na cidade. O acordo passou a ser alvo de questionamentos após a identificação de irregularidades na documentação apresentada pela organização.

Em maio deste ano, reportagem apontou que o ICB havia apresentado R$ 4 milhões em notas canceladas ou emitidas para a própria entidade no âmbito do contrato de wi-fi com a Prefeitura de São Paulo.

A atuação de Karina também entrou no radar da Polícia Federal por sua ligação com a produção de “Dark Horse”. A empresária é responsável pela produtora do filme e foi alvo dos mandados cumpridos nesta quinta-feira no âmbito da investigação.

Mario Frias também foi incluído entre os alvos da operação. Procurados, o deputado e a defesa de Karina ainda não haviam respondido aos contatos da TV Globo até a publicação das informações.

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