
A inteligência espanhola avisou o governo sobre uma convocação para entrar em Ceuta pela cerca e pelo mar um dia antes da maior crise migratória já registrada no território espanhol no norte da África. Documentos desclassificados nesta quarta-feira (9) mostram que o Centro Nacional de Inteligência (CNI) enviou o alerta à Delegação do Governo em Ceuta em 29 de julho, horas antes de dezenas de milhares de pessoas começarem a atravessar a fronteira a partir do Marrocos. A revelação foi publicada pela Associated Press.
Às 13h52 daquele dia, uma mensagem do CNI informou que circulava nas redes sociais uma convocação para uma entrada pela cerca e pelo mar às 20h do dia seguinte, aproveitando as comemorações do Dia do Trono no Marrocos. A inteligência acrescentou que dois grupos envolvidos na difusão reuniam, juntos, cerca de 180 mil seguidores. A conversa, agora publicada pelo próprio governo da Espanha, terminou com uma ligação de 11 minutos entre a inteligência e a representação do Executivo em Ceuta.
No mesmo dia, o CNI comunicou à Guarda Civil que havia grupos no Facebook e no WhatsApp estimulando entradas a nado e pela cerca. Às 18h26, uma nota urgente de inteligência também foi remetida aos serviços marroquinos DGST e DGED. O documento tinha como assunto um “alerta precoce” sobre possíveis tentativas de entrada em Ceuta durante a semana do Dia do Trono e identificava um grupo de WhatsApp chamado “Assalto à cerca de Ceuta”, além de páginas no Facebook com dezenas de milhares de integrantes.
Os papéis ainda mostram que a preocupação antecedia a véspera da crise. Em 27 de julho, três dias antes da entrada em massa, representantes do governo central, da administração de Ceuta e das forças policiais já haviam realizado uma reunião urgente para tratar do aumento das travessias a nado. Um relatório da Guarda Civil de 29 de julho registrava 279 entradas por mar em Ceuta e Melilla entre os dias 20 e 26, sendo 195 a mais que na semana anterior, e nove desaparecidos durante tentativas de alcançar Ceuta.

No dia seguinte, mais de 70 mil pessoas cruzaram as fronteiras para Ceuta nos dias 30 e 31 de julho, sobrecarregando as forças de segurança e abrindo uma crise migratória que rapidamente ganhou dimensão internacional. Um relatório da inteligência militar elaborado já durante a entrada em massa descreveu as forças espanholas como saturadas e afirmou que, em Ceuta, as forças marroquinas apresentavam uma postura de “passividade” diante do fluxo. O documento acrescentou que não se podia descartar que o Marrocos tentasse explorar a situação em benefício de seus interesses estratégicos. Isso não equivale, porém, a uma conclusão de que Rabat tenha organizado a operação.
Em 3 de setembro, o primeiro-ministro Pedro Sánchez disse ao Parlamento que os relatórios anteriores não haviam passado de descrições da situação e “avisos rotineiros” e que nenhum permitia prever a escala ou a probabilidade do que ocorreu. Após a divulgação dos arquivos, Sánchez reconheceu nesta quarta que a mobilização nas redes era conhecida e estava sendo monitorada, mas insistiu que as informações disponíveis não permitiam antecipar uma entrada de mais de 70 mil pessoas. O ponto central da defesa do governo, portanto, não é mais a inexistência de alerta, mas a impossibilidade de prever sua dimensão.
A crise se transformou também em problema político para Sánchez, depois de uma pesquisa divulgada nesta semana mostrar que o PP e o partido de ultradireita Vox pontuavam acima de 50% das intenções de voto somadas, enquanto 63% dos entrevistados avaliaram negativamente a resposta do governo a Ceuta. Sánchez afirmou nesta quarta que 141 pessoas morreram durante a crise e defendeu a atuação de seu governo.