Da Redação
Artigo publicado pelo PT sustenta que agendamento midiático, silenciamento de temas e repetição de pesquisas podem moldar a percepção dos eleitores. Parte do diagnóstico encontra respaldo em estudos clássicos sobre comunicação e em problemas reais de desinformação; outras conclusões, porém, são interpretações políticas que não podem ser tratadas como fatos demonstrados.
A menos de um mês do primeiro turno das eleições de 2026, uma discussão antiga voltou ao centro do debate político brasileiro: até que ponto pesquisas, manchetes, recortes jornalísticos e conteúdos falsos ou enganosos conseguem alterar não apenas a informação disponível ao eleitor, mas o próprio ambiente no qual ele interpreta a realidade? Em artigo publicado nesta quarta-feira, 9 de setembro, no site do Partido dos Trabalhadores, a jornalista e pesquisadora Eliara Santana sustenta que três mecanismos — agendamento, silenciamento e criação de tendências — estariam atuando simultaneamente na campanha e contribuindo para uma percepção mais negativa do governo Lula.
O texto é uma análise política publicada por um partido diretamente envolvido na eleição e, portanto, precisa ser lido levando em consideração essa origem. Ainda assim, os conceitos mobilizados pela autora pertencem a campos consolidados da pesquisa em comunicação. O primeiro deles, a teoria do agenda-setting, desenvolvida por Maxwell McCombs e Donald Shaw a partir dos anos 1970, procura explicar como a intensidade e a hierarquia dadas pelos meios de comunicação a determinados assuntos influenciam aquilo que o público considera importante. Isso não significa que a imprensa simplesmente determine em quem alguém votará, mas que a seleção persistente de determinados temas pode contribuir para organizar as prioridades do debate público. O próprio artigo do PT apresenta essa distinção ao descrever a “agenda da mídia” como resultado da seleção, composição e proeminência das notícias.
A segunda ideia apresentada é a do silenciamento: aquilo que não recebe atenção também participa da formação do debate. A autora recorre à linguista Eni Orlandi para argumentar que o silêncio não é apenas ausência de palavras, mas a exclusão de determinados sentidos e discursos do espaço de visibilidade. O terceiro elemento é a “criação de tendências”, entendida no artigo como o uso coordenado de temas, enquadramentos e linguagem de fácil circulação para produzir determinadas interpretações políticas.
É quando passa da teoria para a eleição concreta que o artigo assume sua tese mais controversa. Santana afirma que, desde o fim de 2025, teria ocorrido um “bombardeamento” de notícias econômicas negativas, inicialmente concentrado em expressões como inflação descontrolada e posteriormente deslocado para dívida pública e “gastança”. Segundo sua interpretação, esse ambiente teria preparado o terreno para conteúdos falsos ou enganosos sobre a economia e ampliado a sensação de deterioração do país.
Há um componente verificável nesse argumento: conteúdos falsos sobre economia circulam efetivamente em redes sociais. O artigo cita checagem segundo a qual publicações afirmaram falsamente que fábricas de Nestlé, Brastemp, Consul e Volkswagen estariam fechando no Brasil em razão da política econômica, quando as unidades citadas ficavam fora do país e as operações brasileiras permaneciam ativas. O salto entre a existência comprovada dessa desinformação e a tese de que haveria um processo coordenado de construção midiática contra o governo, porém, exige evidências adicionais. A presença de notícias econômicas negativas não demonstra por si só intenção editorial comum, tampouco coordenação entre veículos, plataformas, institutos de pesquisa ou agentes políticos.
Essa separação é essencial porque economia real e percepção econômica não são a mesma coisa. Eleitores podem avaliar negativamente um governo mesmo quando determinados indicadores melhoram, seja porque enfrentam endividamento, preços ainda elevados em itens específicos, perda de renda disponível ou insegurança econômica. Da mesma forma, uma cobertura jornalística crítica pode refletir problemas existentes sem necessariamente integrar uma estratégia eleitoral. O ponto analiticamente relevante é investigar se determinados enquadramentos recebem peso desproporcional e, sobretudo, se há diferenças sistemáticas entre os indicadores objetivos e sua representação pública.
O segundo eixo do artigo trata das pesquisas eleitorais. É aqui que aparece a expressão mais provocativa do texto: “doping das pesquisas”. Santana utiliza a metáfora do “esteroide anabolizante” para argumentar que a sucessão de levantamentos, combinada com manchetes sobre viradas, empate e perda de vantagem, poderia produzir uma percepção de movimento eleitoral maior do que aquela efetivamente demonstrada pelos dados. A autora cita cientistas políticos não identificados que afirmam que expressões como “virada da direita” e “Lula perder” estariam sendo transformadas em narrativas dominantes.
Os números recentes permitem examinar essa afirmação com mais precisão. A Quaest divulgada em 7 de setembro mostrou Lula e Flávio Bolsonaro numericamente empatados em uma simulação de segundo turno, com 41% para cada um. O levantamento ouviu 2.004 pessoas entre 3 e 6 de setembro e tem margem de erro de dois pontos percentuais. Na pesquisa imediatamente anterior, Lula tinha 42% e Flávio, 41%. Portanto, houve alteração numérica, mas de apenas um ponto para Lula e nenhuma para Flávio — variação insuficiente, isoladamente, para caracterizar uma mudança estatisticamente consolidada.
Ao mesmo tempo, o empate de 41% é um dado real, e não uma construção artificial. Outros institutos também apontam uma disputa competitiva, embora com números diferentes. Levantamentos recentes de Quaest, Datafolha e BTG/Nexus apresentam cenários próximos ou tecnicamente empatados em determinadas simulações de segundo turno. Isso significa que é legítimo jornalisticamente registrar o aumento da competitividade da eleição. O problema surge quando diferenças dentro da margem de erro são convertidas em verbos como “virou”, “desabou”, “disparou” ou “perdeu”, sem a devida qualificação estatística.
A própria avaliação do governo ilustra esse cuidado. A Quaest apontou 50% de desaprovação e 43% de aprovação. Na rodada anterior, eram 48% e 45%, respectivamente. Como ambas as variações foram de dois pontos e a margem de erro também é de dois pontos, o resultado sugere piora numérica, mas não permite afirmar, por uma única rodada, que uma nova tendência esteja definitivamente estabelecida. Esse é exatamente o tipo de distinção que frequentemente se perde quando pesquisas são traduzidas em manchetes.
Isso, entretanto, não autoriza afirmar que as próprias pesquisas estejam “dopadas” ou manipuladas. Pesquisa eleitoral é uma estimativa produzida a partir de metodologia, amostragem, questionário e momento da coleta. Institutos diferentes podem chegar a resultados diferentes sem que nenhum deles tenha necessariamente cometido fraude. No Brasil, levantamentos eleitorais precisam ser registrados na Justiça Eleitoral, com informações sobre contratante, metodologia, período de realização, amostra e outros elementos técnicos. O TSE mantém um sistema público específico para esse registro.
A discussão mais séria está na transparência metodológica. Os cientistas políticos Dalson Figueiredo e Dawisson Belém Lopes já defenderam que o TSE passe a exigir microdados das pesquisas eleitorais para ampliar a possibilidade de replicação e auditoria dos resultados. A proposta não equivale a afirmar que os levantamentos atuais sejam fraudulentos; trata-se de defender um grau maior de verificabilidade científica sobre informações que possuem enorme capacidade de influenciar cobertura jornalística, mercados, campanhas e expectativas eleitorais.
Existe ainda um fenômeno conhecido na literatura como priming: quando determinados assuntos recebem grande visibilidade, eles podem se tornar critérios mais importantes na forma como as pessoas avaliam candidatos e governos. Se, durante semanas, corrupção passa a dominar o noticiário, por exemplo, parte do eleitorado pode passar a julgar os candidatos principalmente por esse eixo. Se segurança pública ocupa o centro da agenda, esse tema pode ganhar peso maior no julgamento político. Isso é diferente de dizer que o eleitor seja passivamente manipulado; significa reconhecer que decisões são tomadas dentro de ambientes informacionais nos quais alguns critérios estão muito mais disponíveis do que outros.
O artigo de Santana usa esse conceito para sustentar que pesquisas, notícias econômicas negativas, denúncias envolvendo o Banco Master e investigações relacionadas a pessoas próximas de Lula estariam se reforçando mutuamente e produzindo um clima político desfavorável ao presidente. Essa interpretação é possível, mas a causalidade não está demonstrada. O fato de temas negativos aparecerem simultaneamente não prova que tenham sido articulados para produzir determinado resultado eleitoral. Para demonstrar coordenação seria necessário identificar agentes, fluxos de decisão, financiamento, estratégias comuns ou evidências documentais de atuação combinada.
Também não se pode ignorar o inverso: campanhas e partidos possuem seus próprios mecanismos de agendamento. Governos escolhem indicadores positivos para divulgar; oposições selecionam indicadores negativos; candidatos tentam transformar temas favoráveis em centro do debate e retirar atenção daqueles que os prejudicam. A disputa pela agenda é parte constitutiva da política democrática. O problema começa quando essa disputa utiliza informação falsa, dados estatísticos apresentados de maneira enganosa, redes coordenadas não identificadas ou ocultação deliberada da origem e do financiamento de mensagens.
É nesse ponto que a desinformação se diferencia do enquadramento político convencional. Um veículo pode destacar uma piora fiscal e outro enfatizar geração de empregos; ambos podem trabalhar com fatos verdadeiros. Já afirmar que uma fábrica brasileira fechou quando a unidade mencionada está localizada em outro país constitui uma alegação verificavelmente falsa. Misturar esses dois fenômenos — cobertura crítica e desinformação — pode obscurecer justamente aquilo que precisa ser combatido com maior rigor.
A arquitetura informacional da eleição de 2026 acrescenta uma camada adicional. O eleitor já não recebe informação apenas de jornais, rádio e televisão. Notícias circulam por TikTok, Instagram, YouTube, WhatsApp, Telegram, X, influenciadores, canais partidários, anúncios segmentados e sistemas de recomendação algorítmica. Um conteúdo pode nascer em uma rede pequena, ser amplificado por perfis de grande alcance, entrar no debate político e depois retornar às plataformas como notícia sobre a própria repercussão que produziu. Nesse ambiente, a diferença entre “o que aconteceu” e “o que todo mundo está falando” torna-se cada vez mais difícil de perceber.
É por isso que o problema levantado pelo artigo do PT merece atenção mesmo quando se retiram dele as conclusões partidárias. O debate mais importante não é determinar antecipadamente se existe uma conspiração contra Lula ou se toda cobertura negativa simplesmente reflete a realidade. A questão estrutural é outra: quem seleciona os temas que se tornam visíveis, quem financia sua circulação, como pesquisas são transformadas em narrativas e de que forma plataformas amplificam determinados enquadramentos em escala industrial.
As pesquisas eleitorais são particularmente poderosas nesse circuito porque possuem aparência de objetividade numérica. Um movimento de dois pontos pode produzir centenas de manchetes, vídeos e comentários antes mesmo que o público perceba que aquela variação está dentro da margem de erro. Um empate pode ser apresentado como “virada”; uma oscilação como “queda”; uma fotografia momentânea como previsão do resultado. Nada disso torna a pesquisa inválida. Mostra apenas que o significado político atribuído ao dado pode ser muito maior do que aquilo que o dado estatisticamente permite concluir.
Da mesma maneira, os levantamentos não devem ser tratados como profecias. A Quaest que hoje mostra Lula e Flávio Bolsonaro com 41% a 41% registra o estado das respostas de uma amostra num intervalo específico de setembro. Ela não determina o resultado de outubro. Desde a coleta até a votação ainda podem ocorrer debates, crises, revelações, mudanças econômicas, decisões judiciais e acontecimentos imprevisíveis.
A eleição brasileira de 2026, portanto, não está sendo disputada somente no terreno dos programas, partidos e candidaturas. Há uma disputa simultânea pela interpretação da realidade. Pesquisas, manchetes, vídeos, recortes estatísticos e conteúdos enganosos competem pela atenção dos eleitores. O artigo de Eliara Santana chama esse processo de combinação entre notícias negativas, “doping” das pesquisas e desinformação. Como diagnóstico político, a tese é controversa e necessita de demonstração empírica para algumas de suas conclusões. Como alerta sobre o poder da agenda, dos enquadramentos e da circulação massiva de informação durante uma campanha, toca numa questão central das democracias contemporâneas.
Em outubro, os votos serão depositados individualmente nas urnas. Mas a percepção a partir da qual cada eleitor chega à urna é construída muito antes — em contato com experiências econômicas concretas, relações sociais, campanhas, imprensa, pesquisas, redes digitais e sistemas algorítmicos de distribuição de informação. Compreender esse ambiente não exige aceitar a narrativa de um partido ou de outro. Exige algo mais elementar: distinguir números de interpretações, notícia de desinformação, oscilação de tendência e correlação de prova de causalidade. Numa campanha acirrada, essas diferenças deixam de ser detalhes técnicos. Tornam-se parte da qualidade do próprio processo democrático.