A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocou no ar, nesta terça-feira (8), o Mercado da Mentira, plataforma criada para rebater as afirmações falaciosas de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o preço dos alimentos e a situação econômica do país. O site reúne dados oficiais para confrontar as declarações do senador e mostrar, com números, que a alta dos alimentos foi muito maior durante o governo de Jair Bolsonaro do que na atual gestão.
A ofensiva da campanha ocorre em meio à tentativa de Flávio de transformar o preço da comida em argumento contra Lula. Em vídeos publicados nas redes sociais, o senador compara valores encontrados atualmente nos supermercados com preços registrados durante o governo do pai e apresenta a diferença como prova de que o brasileiro pagava menos naquela época.
Quando a conta é feita por inteiro, a versão de Flávio desaba
Flávio Bolsonaro (PL) escolheu uma maneira simples, conveniente e irreal para defender que a comida era mais barata no governo de Jair Bolsonaro: comparar o preço de um produto hoje com o valor que ele custava durante a gestão do pai. A conta parece óbvia, mas esconde uma diferença importante. O preço usado como referência pode ser de qualquer momento do governo Bolsonaro, enquanto o valor atual é resultado de toda a trajetória de preços desde aquele ponto, com altas e quedas pelo caminho. Um produto pode, portanto, estar hoje mais caro do que estava em uma determinada data do governo Bolsonaro e, ainda assim, ter acumulado uma alta muito maior durante a gestão do ex-presidente.
Ao apresentar um preço isolado como retrato de todo o governo Bolsonaro, Flávio distorce a comparação e leva o leitor a uma conclusão que os dados não sustentam. Para comparar os dois governos, não basta saber quanto custava o arroz em uma determinada data. É preciso saber quanto o arroz variou durante cada gestão. E é justamente quando essa conta é feita que a afirmação de Flávio não se sustenta.
O levantamento apresentado pelo Mercado da Mentira usa o IPCA, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para comparar a evolução dos preços dos alimentos nos dois governos. Na alimentação no domicílio, a variação média anual dos preços foi de 13,2% nos três anos considerados do governo Bolsonaro, enquanto no período equivalente do governo Lula ficou em 3%. Na prática, isso significa que os alimentos registraram, ano a ano, uma alta mais de quatro vezes maior durante o governo Bolsonaro do que no período correspondente da gestão Lula.

A diferença fica ainda mais evidente quando a comparação considera a variação acumulada dos produtos. Entre janeiro de 2019 e julho de 2022, o arroz subiu 50,5%. No período correspondente do governo Lula, de janeiro de 2023 a julho de 2026, caiu 1,9%. O óleo de soja teve alta de 174,3% no primeiro período e queda de 14,2% no segundo. A farinha de trigo subiu 72,2% durante o governo Bolsonaro e recuou 16% durante o governo Lula.
O mesmo ocorre com outros itens básicos. O feijão preto acumulou alta de 45,9% entre janeiro de 2019 e julho de 2022 e queda de 4,5% no período equivalente do governo Lula. O açúcar cristal avançou 86,2% na gestão Bolsonaro e recuou 12,1% na atual. A cebola teve alta de 72,1% no primeiro período e queda de 17,7% no segundo.
Os números anuais ajudam a entender essa diferença. A alimentação no domicílio acumulou alta de 18,1% em 2020, 8,2% em 2021 e 13,2% em 2022. No governo Lula, o índice ficou em -0,5% em 2023, 8,2% em 2024 e 1,4% em 2025.
Emprego, renda e PIB também desmontam a comparação de Flávio
O confronto se estende a outros indicadores da economia. Emprego, renda, pobreza, salário mínimo e crescimento econômico aparecem no levantamento para questionar a ideia de que a situação econômica seria pior sob Lula. Entre os dados apresentados estão a taxa de desemprego de 5,4%, a criação de 10,1 milhões de empregos formais e a saída de 8,6 milhões de pessoas da pobreza. A renda média também aparece em nível recorde.
Na comparação do PIB, o levantamento aponta crescimento de 2,6% entre 2019 e 2021, contra 9,2% entre 2023 e 2025. No salário mínimo real, a alta foi de 1,2% entre 2019 e 2022 e chegou a 11,8% entre 2023 e 2026.
A comparação internacional reforça o contraste apresentado pela campanha. Entre 2019 e 2021, a inflação brasileira acumulou 20%, acima dos 13,8% registrados no mundo. De 2023 a 2025, o índice brasileiro ficou em 14,3%, abaixo dos 15,9% da inflação global, segundo os dados reunidos no site com base em IBGE, Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial.
A plataforma também retoma um vídeo que circulou nas redes sociais no qual uma mulher afirma ter gastado R$ 626 no supermercado sem conseguir comprar carne. O cupom fiscal exibido na própria gravação, no entanto, mostra cerca de 6 quilos de carnes e derivados, que somavam aproximadamente R$ 130. O site reproduz os itens registrados no comprovante para contestar a afirmação.
A plataforma contrapõe críticas com medidas do governo Lula
Além dos indicadores econômicos, o site reúne medidas que a campanha apresenta como respostas diretas às dificuldades enfrentadas pelas famílias. Entre elas estão a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês, a redução da conta de luz para famílias de baixa renda por meio da Luz do Povo, o Desenrola e o apoio ao fim da escala 6×1.
No caso do Desenrola, a plataforma afirma que o programa já ajudou mais de 9 milhões de pessoas e renegociou R$ 21 bilhões em dívidas. Na área social, destaca ainda a saída de 8,6 milhões de pessoas da pobreza, levando o indicador ao menor nível da série histórica.
O site amplia, assim, o contraponto à campanha de Flávio para além do preço de produtos isolados. Ao lado da evolução dos alimentos, reúne indicadores de emprego, renda, crescimento, pobreza e salário mínimo e relaciona esses números a políticas públicas do governo Lula.
A disputa lançada pelo Mercado da Mentira parte, portanto, de duas formas distintas de apresentar a situação econômica: a comparação pontual de preços usada por Flávio e a análise da evolução dos indicadores ao longo de cada governo. Nos dados reunidos pela plataforma, o contraste aparece não apenas no supermercado, mas também na inflação dos alimentos, no emprego, na renda e no crescimento econômico.