Luiz Fux e Kassio Nunes Marques levaram apenas nove minutos para acompanhar André Mendonça e formar maioria pelo afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal. A decisão atingia o comando da corporação responsável pelas investigações dos desvios no Banco Master e no INSS.
Sob o comando de Andrei, a PF prendeu o banqueiro Daniel Vorcaro, avançou sobre a rede de relações políticas e financeiras do Master e desvendou o esquema de descontos não autorizados em aposentadorias e pensões.
O diretor-geral acompanhou diretamente a operação que encontrou Vorcaro no Aeroporto de Guarulhos, quando o banqueiro se preparava para embarcar em um jatinho.
A decisão individual de Mendonça também afastou Leandro Almada da Diretoria de Inteligência Policial. Logo depois, o ministro encaminhou sua própria ordem para análise da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), formada por ele, Fux, Nunes Marques, Gilmar Mendes e Dias Toffoli.
A sessão extraordinária foi aberta às 10h desta terça-feira (8). Às 10h09, Fux e Nunes Marques já haviam registrado os votos para confirmar integralmente a decisão de Mendonça. Com as três manifestações, estava formada a maioria necessária no colegiado.
Os ministros analisaram em nove minutos uma medida que retirava de seus cargos os dois principais dirigentes da Polícia Federal, alterava o comando de investigações em andamento e provocava um confronto institucional entre a corporação e o STF.
Filhos dos ministros aparecem no entorno do Master
Familiares dos dois ministros aparecem em informações públicas sobre relações com o entorno de Daniel Vorcaro.
Kevin de Carvalho Marques, filho de Nunes Marques, recebeu por meio de seu escritório R$281,6 mil da Consult Inteligência Tributária. Foram 11 transferências realizadas entre 2024 e 2025, segundo dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) divulgados pela imprensa.
No mesmo período, a Consult recebeu R$6,6 milhões do Banco Master em 14 operações. Outros R$11,3 milhões foram transferidos pela JBS. As duas empresas responderam por toda a receita registrada pela consultoria naquele intervalo.
O Coaf identificou incompatibilidade entre os valores movimentados e a capacidade econômica declarada pela Consult. O órgão também apontou a possibilidade de a empresa ter funcionado como conta de passagem.
Filho de Fux esteve em eventos pagos por Vorcaro
Rodrigo Fux, filho de Luiz Fux, esteve em pelo menos dois eventos com Daniel Vorcaro antes da prisão do banqueiro.
Durante o Desfile das Campeãs do Carnaval de 2025, o advogado participou da área VIP do camarote Alma Rio, na Marquês de Sapucaí. Vorcaro era parceiro de Álvaro Garnero no espaço e ajudava a financiar sua operação.
Mensagens encontradas no celular do banqueiro mostram Vorcaro acompanhando a lista de convidados e determinando que “Fux” fosse acomodado na área VIP.
Rodrigo também participou de uma degustação exclusiva de uísque em Nova York custeada por Vorcaro. O evento reuniu cerca de 40 convidados. Luiz Fux chegou a ser convidado, mas não compareceu.
O filho do ministro confirmou que esteve nos dois locais, mas negou amizade ou relação profissional com Vorcaro. “Nunca tivemos relação comercial, nunca advoguei para ele”, declarou. Segundo Rodrigo, houve uma tentativa de aproximação por parte do banqueiro, mas ela não avançou.
Gilmar questiona rito e aponta risco eleitoral
Ao contrário de Fux e Nunes Marques, Gilmar Mendes pediu mais tempo para examinar a decisão. O ministro apresentou três fundamentos para interromper o julgamento.
O primeiro foi a convocação repentina da sessão. Segundo Gilmar, o processo entrou na pauta menos de uma hora antes do início da votação virtual.
“Essa circunstância impediu o exame da integralidade dos autos e da decisão submetida a referendo, o que é grave em se tratando de uma medida cautelar que afasta das suas funções o dirigente máximo da Polícia Federal”, afirmou.
O segundo ponto envolve a competência para julgar o caso. Gilmar indicou que, devido à gravidade e ao alcance institucional da medida, a decisão deveria ser examinada pelo plenário do STF, e não apenas pela Segunda Turma.
O ministro questionou ainda a origem do processo. O pedido acolhido por Mendonça foi apresentado pelo partido Novo, apesar de as regras processuais limitarem quem pode requerer uma medida dessa natureza.
Como terceiro fundamento, Gilmar apontou o risco de interferência judicial na eleição presidencial. Ele citou um precedente no qual o plenário do STF estabeleceu “o dever de neutralidade do Estado em relação aos partidos políticos e candidatos” e considerou inconstitucionais decisões capazes de provocar “o desequilíbrio da disputa político-eleitoral”.
O afastamento de Andrei atingiu o comando da instituição que conduz investigações com efeitos diretos sobre o cenário político e eleitoral. As apurações do Master alcançaram integrantes da família Bolsonaro e pessoas ligadas ao candidato da extrema direita à Presidência, Flávio Bolsonaro.