“Boa parte da infraestrutura de defesa do Brasil ainda está nas mãos de corporações americanas”

Miguel Manso afirma que soberania exige domínio de tecnologias críticas, redução dos juros, formação de engenheiros e uma política industrial sustentada pelo Estado

A dependência brasileira de componentes, sistemas e conhecimentos controlados por empresas estrangeiras compromete a capacidade do país de tomar decisões autônomas. Embora o Brasil produza aviões, opere satélites, extraia petróleo em águas profundas e disponha de uma agricultura altamente tecnificada, parte importante dessas atividades continua vinculada a motores, chips, radares, programas, licenças e plataformas desenvolvidos fora do território nacional.

A avaliação foi apresentada pelo engenheiro eletrônico Miguel Manso durante o quarto episódio do programa Código do Poder, transmitido pelo canal Código Aberto. Diretor de Políticas Públicas da Engenharia pela Democracia e pesquisador da Fundação Maurício Grabois, Manso discutiu a relação entre desenvolvimento industrial, formação profissional e soberania tecnológica em entrevista conduzida pelos jornalistas Rey Aragon, Luiz Mauro Filho e Luiz Delcides.

Segundo o engenheiro, a dependência tecnológica não significa que o Brasil seja incapaz de desenvolver conhecimento. O problema aparece quando o funcionamento de setores essenciais depende de decisões tomadas no exterior. Uma empresa estrangeira pode interromper o fornecimento de uma peça, suspender a atualização de um programa ou cancelar a licença necessária para manter um sistema em operação.

Essa vulnerabilidade atinge áreas como defesa, telecomunicações, produção de alimentos, infraestrutura digital e serviços públicos. Manso citou o caça Gripen, fabricado no Brasil pela Embraer em parceria com a sueca Saab, para mostrar os limites do domínio nacional sobre cadeias tecnológicas complexas.

Embora o país participe da produção e tenha absorvido conhecimentos importantes, o avião utiliza motores e outros componentes desenvolvidos por empresas estrangeiras. A situação revela que fabricar o produto final não representa, por si só, o controle completo das tecnologias necessárias para mantê-lo em funcionamento.

“Precisamos desenvolver a nossa capacidade de defesa e segurança na área de drones, satélites e comunicação”, afirmou. Ao mencionar a dependência de programas e sistemas norte-americanos, Manso acrescentou: “Boa parte da nossa infraestrutura militar, de defesa e de segurança nacional ainda está nas mãos das corporações americanas. Nós precisamos reverter isso, e rápido”.

Fertilizantes expõem dependência do agronegócio

A produção agrícola foi apresentada como um exemplo das contradições brasileiras. O país está entre os maiores produtores e exportadores de alimentos do planeta, conta com o trabalho científico da Embrapa e domina tecnologias de adaptação de sementes e manejo de diferentes solos. Ainda assim, depende da importação de fertilizantes e de insumos indispensáveis ao funcionamento do agronegócio.

Para Manso, essa dependência impede que o Brasil complete internamente o ciclo da produção agrícola. Em momentos de guerra, sanções econômicas ou ruptura das cadeias internacionais de fornecimento, o abastecimento desses produtos pode ser afetado.

“Enquanto você não produz fertilizante, não fecha o ciclo para ter a independência e a soberania alimentar de que o Brasil precisa”, explicou.

O engenheiro defendeu a continuidade dos investimentos retomados pela Petrobras e pelo governo federal na produção nacional de fertilizantes. Também chamou a atenção para a dependência brasileira de sementes desenvolvidas por empresas estrangeiras, principalmente norte-americanas.

Na avaliação de Manso, projetos dessa dimensão não podem ser interrompidos a cada mudança de governo. Eles exigem planejamento de longo prazo, investimento permanente e metas definidas como políticas de Estado.

Desindustrialização reduziu capacidade brasileira

A atual dependência tecnológica resulta, segundo o entrevistado, de um processo de desindustrialização associado à política econômica predominante nas últimas décadas. A redução do papel do Estado e a prioridade concedida aos ganhos financeiros enfraqueceram empresas, cadeias produtivas e centros de engenharia.

“O Brasil sofreu um processo violento de desindustrialização. Em muitas áreas, perdemos capacidade de produção, de competição, de geração de novas indústrias e de ocupação de mercados”, disse.

Manso afirmou que São Paulo perdeu milhares de empresas industriais ao longo das últimas décadas, inclusive nos setores ferroviário, metalmecânico, automobilístico e de máquinas e equipamentos. A perda dessas empresas também reduziu empregos qualificados e dificultou a incorporação do conhecimento produzido pelas universidades.

A recuperação industrial, porém, não poderá reproduzir as fábricas existentes no fim do século passado. A indústria contemporânea utiliza automação, robótica, inteligência artificial e sistemas digitais integrados. Isso exige profissionais com formação mais avançada e investimentos elevados em pesquisa.

“Não tem como pensar o Brasil entre os dez países mais desenvolvidos do mundo, exportando conhecimento, sem um processo de reindustrialização”, afirmou.

País precisa formar mais engenheiros

Um dos principais obstáculos é o número insuficiente de engenheiros em áreas tecnológicas consideradas estratégicas. Manso explicou que empresas como Huawei, Lockheed Martin e Embraer mantêm uma presença elevada desses profissionais em seus quadros.

Na indústria contemporânea, a formação universitária também deixou de ser suficiente para muitas funções. Empresas de alta tecnologia precisam de engenheiros com especializações, mestrado e experiência em pesquisa aplicada.

O Brasil, segundo Manso, forma poucos profissionais nas áreas de eletrônica, tecnologia da informação, fotônica, robótica e automação. Uma parcela expressiva dos engenheiros brasileiros concentra-se na construção civil, importante para a infraestrutura, mas incapaz de atender sozinha às necessidades de uma política de reindustrialização tecnológica.

A deficiência aparece inclusive na Embraer. A empresa domina a concepção e a fabricação de aeronaves modernas, mas o Brasil ainda não produz os motores utilizados nesses aviões. O desenvolvimento de uma turbina pode exigir uma década de pesquisa, testes e investimentos contínuos.

O engenheiro defendeu maior articulação entre escolas técnicas, institutos federais, universidades e empresas. Também mencionou a preocupação do Presidente Lula com a recuperação da formação em engenharia e com a ampliação do acesso da juventude ao ensino técnico e superior.

Juros favorecem aplicações financeiras

A taxa de juros foi apontada como outro entrave. Segundo Manso, quando investidores conseguem alta rentabilidade comprando títulos e realizando aplicações financeiras, diminui o interesse em abrir fábricas, adquirir equipamentos e contratar trabalhadores.

“Se quem tem capital ganha 10%, 12% ou 14% de juros reais ao ano sem correr risco, por que vai investir na produção, competir, montar uma indústria ou se endividar para comprar equipamentos?”, questionou.

O engenheiro manifestou insatisfação com a condução da política monetária pelo Banco Central sob Gabriel Galípolo. Segundo ele, havia expectativa de uma redução mais rápida e intensa da taxa básica de juros.

Manso evitou personalizar a crítica, mas afirmou que o Banco Central não conseguiu imprimir o ritmo esperado pelo governo e pelos setores que defendem a retomada industrial. Para ele, o país precisa direcionar parte maior da poupança nacional ao investimento produtivo, em vez de permitir sua concentração nas mãos de uma parcela restrita do setor financeiro.

“Precisamos retomar uma trajetória firme e rápida de queda da taxa de juros. Não se trata de impedir que o setor financeiro tenha lucro, mas de equilibrar as coisas. A produção e o investimento não podem continuar reféns desse modelo”, declarou.

Programa para um “Brasil Produtivo”

Durante a entrevista, Manso informou que participa das discussões de um caderno temático denominado Brasil Produtivo, elaborado para contribuir com o programa de um eventual quarto governo Lula. O documento aborda política industrial, orçamento, trabalho, desenvolvimento e financiamento da produção.

De acordo com o engenheiro, as propostas são discutidas por pesquisadores, representantes de fundações partidárias e integrantes do atual governo que participam dos debates como militantes e especialistas. Os cadernos devem detalhar diretrizes para os quatro anos seguintes.

Manso afirmou que existe entre os participantes a compreensão de que o país precisa reduzir a centralidade do rentismo. Isso envolve ampliar a capacidade de investimento público e utilizar o poder de compra do Estado para criar demanda para empresas brasileiras.

O apoio estatal seria necessário principalmente em áreas nas quais os custos iniciais são elevados e o retorno financeiro leva anos. Empresas nacionais dificilmente conseguirão desenvolver motores aeronáuticos, semicondutores, satélites ou sistemas de comunicação avançados sem contratos públicos, crédito adequado e continuidade orçamentária.

O engenheiro também destacou o potencial das reservas brasileiras de terras raras. Esses minerais são utilizados em motores elétricos, equipamentos eletrônicos, sistemas aeroespaciais e componentes de defesa. O Brasil dispõe dos recursos naturais, mas ainda não controla todas as etapas industriais necessárias para transformá-los em produtos de alto valor tecnológico.

Congresso será decisivo para os investimentos

A execução de uma política industrial dependerá, segundo Manso, da composição do Congresso Nacional. O orçamento público, as regras fiscais e os recursos destinados à ciência passam pelas decisões de deputados e senadores.

Ele defendeu a eleição de parlamentares vinculados à ciência, à educação e ao desenvolvimento produtivo. Sem uma base congressual disposta a aprovar investimentos de longo prazo, projetos considerados estratégicos podem continuar sujeitos a cortes ou interrupções.

Manso reconheceu a necessidade de equilíbrio fiscal, mas sustentou que as regras orçamentárias não podem impedir o Estado de financiar a expansão econômica. Na sua avaliação, o investimento público pode estimular empresas privadas ao oferecer demanda, crédito e condições para projetos de maior risco.

Inteligência artificial exige pactos internacionais

O avanço da inteligência artificial também entrou no debate. Manso defendeu a criação de normas e acordos internacionais capazes de orientar o desenvolvimento dessas tecnologias, sem reservar seu domínio a um pequeno grupo de países.

Para ele, organismos multilaterais podem estabelecer parâmetros que posteriormente sejam incorporados às legislações nacionais, de maneira semelhante ao funcionamento das convenções da Organização Internacional do Trabalho.

O engenheiro ponderou que a ciência pode ser utilizada para finalidades prejudiciais, mas isso não deve servir como justificativa para impedir países em desenvolvimento de dominar tecnologias avançadas.

“A melhor maneira de equilibrar as coisas é democratizar o conhecimento e criar controles, regras e pactos internacionais”, afirmou. “A inteligência artificial é a tecnologia mais disruptiva que está sendo desenvolvida pela humanidade neste século.”

Ao final, Manso relacionou soberania tecnológica à capacidade política de sustentar um projeto nacional. Segundo ele, recuperar a indústria brasileira será um processo longo e sujeito a disputas, mas o país dispõe de universidades, pesquisadores, empresas e recursos naturais para avançar.

“Construir uma nação é uma obra coletiva. Passa por ciclos de avanço e retrocesso, que também são de aprendizado”, concluiu.

Referências

Marighella, filme dirigido por Wagner Moura, mencionado por Miguel Manso durante a entrevista

Manual do filho da puta, livro de autoria não identificada durante a transmissão

Pierre Lévy, filósofo citado no debate sobre inteligência coletiva e governança digital

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