André Mendonça tenta jogar o país no caos. Mas irá perder e será desmoralizado. Por Miguel do Rosário

André Mendonça
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Foto: Adriano Machado/Reuters

“Eu creio que foi uma decisão sem sentido material e jurídico. O delegado Andrei foi citado em conversas de Vorcaro com seu advogado e coisas do gênero, mas em nenhum momento participou desses diálogos nem manifestou o cometimento de qualquer ilícito, pois tratam-se apenas de conversas de terceiros. O ministro Mendonça também foi citado em conversas de terceiros, assim como o ministro Alexandre e o próprio PGR. Então vão afastar todos? Se houvesse um tratamento isonômico, qualquer autoridade citada por terceiros deveria ser afastada de seu cargo, o que obviamente não faz sentido ocorrer com o Andrei. Trata-se, infelizmente, de uma interferência indevida do Judiciário no Executivo, e a impressão que tenho é de que há uma clara intenção de interferir nas disputas de poder atuais.”

O comentário de Pedro Serrano, professor de direito constitucional da PUC-SP e um dos maiores nomes do direito público brasileiro, feito com exclusividade ao Cafezinho, resume a perplexidade de muitos juristas diante do afastamento do diretor-geral da Polícia Federal.

A insensatez que toma conta da suprema corte tem um método claro. O ministro André Mendonça percebeu que a extrema-direita prospera quando pesca em águas turvas.

Nesta terça-feira, 8 de setembro, ele afastou preventivamente o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e também o diretor de Inteligência, Leandro Almada da Costa. Cada nova rodada de caos institucional se transforma em combustível eleitoral para a candidatura de Flávio Bolsonaro.

A decapitação da Polícia Federal afeta diretamente os responsáveis por investigar figuras intocáveis, como o banqueiro Daniel Vorcaro e o governador Cláudio Castro. Essa medida extrema é apenas o fósforo mais novo jogado na fogueira de um grande incêndio político.

Na Petição 16.662, Mendonça se declara vítima de um monitoramento sistemático e ilegal por parte da inteligência da corporação. Ele baseia sua queixa em seis relatórios apócrifos produzidos entre 3 e 31 de agosto deste ano.

O despacho classifica a suposta vigilância como arapongagem institucional e ataca a menção à matriz religiosa evangélica que ele partilha com o advogado-geral da União. O nome do ministro Alexandre de Moraes, curiosamente, aparece nove vezes no texto do documento.

André Mendonça Alexandre de Moraes
Os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Foto: Adriano Machado/Reuters

O gatilho para a crise foi uma provocação do partido Novo, que pediu a prisão preventiva de Andrei com base em mensagens cifradas de Vorcaro. Em vez de acatar as prisões, no entanto, Mendonça encontrou no pretexto a chance de afastar a cúpula da Polícia Federal.

Leandro Almada, um dos alvos da canetada, foi fundamental para expor a rede de proteção no caso Marielle Franco. O seu trabalho desvendou como a Polícia Civil do Rio agiu para garantir a impunidade dos irmãos Brazão e do ex-chefe Rivaldo Barbosa.

Como superintendente no Rio de Janeiro, Almada também comandou operações que deixaram o governador Cláudio Castro na defensiva. Segundo delegados ouvidos pela imprensa, o político aliado do bolsonarismo já tentava derrubar o investigador de seu cargo desde o ano passado.

Castro responde a inquéritos sensíveis, incluindo aportes polêmicos do RioPrevidência ao Banco Master. O mesmo relatório de inteligência questionado por Mendonça aponta que o ministro levou 75 dias para autorizar medidas contra o governador fluminense, enquanto precisou de apenas nove para despachar contra um senador petista.

O diretor-executivo William Marcel Murad assumiu o comando interino da corporação e chamou a decisão de “ataque”, segundo a revista Veja. Em um claro sinal do impacto devastador na Polícia Federal, onze dos quinze diretores assinaram nota de apoio aos afastados e colocaram seus cargos à disposição.

A nota repudia acusações de atuação não republicana e afirma que narrativas influenciadas por interesses político-eleitorais não apagarão a história de quem quer que seja. A crise também mobilizou treze ministros aposentados do Supremo, que endereçaram carta a Fachin alertando para a gravidade do cenário e pedindo apuração imediata.

O presidente Lula, por sua vez, recebeu Jorge Messias no Palácio da Alvorada para tratar do assunto. A Advocacia-Geral da União vai recorrer, argumentando que a medida monocrática viola a competência privativa da Presidência para nomear e exonerar a chefia da PF, estudando até mesmo acionar Fachin diretamente.

O criminalista Kakay também apontou graves contradições na ofensiva contra a cúpula da corporação. Ele destacou que não é possível juridicamente declarar uma prova imprestável, como o próprio ministro admitiu sobre o documento apócrifo, e ainda assim decidir com base nela.

Kakay avalia que a atitude não deixa dúvidas de que foi uma decisão política, com sérias consequências para as eleições presidenciais. Ele lembra ainda que a Polícia Federal lidera o topo do ranking de credibilidade e que Andrei Rodrigues é um funcionário amplamente respeitado.

O ex-juiz Walter Maierovitch criticou duramente a ofensiva, classificando a decisão como inconstitucional, arbitrária e perigosa. Ele lembra que um juiz não pode decidir baseado em suposições e que Mendonça estaria impedido de atuar num caso em que se declara vítima.

Ver esse post no Instagram

 

Um post compartilhado por PT Piauí (@ptpiaui)

A crise atinge o coração das investigações, pois Andrei liderava as apurações sobre as negociatas sombrias de Vorcaro. Mensagens encontradas no celular do ex-dono do Banco Master mostram pedidos de favores ilegais que resvalam na alta cúpula da direita.

O Cafezinho revelou a face mineral desses negócios na exclusiva “O amigo de Nikolas e as minas do rei Vorcaro”, com áudios de Nikolas Ferreira, empresas de fachada e títulos de mineração no entorno do banqueiro. Afastar a cadeia de comando neste momento revela o desespero e o medo crescente daqueles que estão na mira da justiça.

O decano Gilmar Mendes, contudo, enviou um duro recado ao paralisar a votação com seu pedido de vista, cuja íntegra o Cafezinho disponibiliza para download. Ele sinalizou que o Supremo reagirá com chumbo grosso e deve levar o caso para o plenário, onde Mendonça inevitavelmente será derrotado pela maioria de seus pares.

No fim das contas, a aventura de André Mendonça caminha para uma derrota acachapante. A imprensa aponta que o presidente do STF, Edson Fachin, já avalia avocar para si a relatoria dos inquéritos sobre o Banco Master para conter a crise na corte.

Se Fachin assumir o controle dessas apurações, o ato será sinônimo de uma desautorização completa de Mendonça. Essa intervenção cirúrgica retiraria de suas mãos justamente o poder de influenciar a investigação que atinge os aliados bolsonaristas.

No campo institucional, o governo também prepara seu contra-ataque. Embora coordenadores jurídicos do presidente Lula tenham sugerido a convocação do Conselho da República, a aposta mais pragmática do Planalto é recorrer ao próprio Supremo Tribunal Federal.

Com a palavra final transferida ao plenário, a expectativa unânime é que a decisão monocrática seja atropelada e revogada. Assim, a normalidade democrática será restabelecida e o diretor-geral Andrei Rodrigues retornará ao seu posto para dar prosseguimento ao trabalho.

Artigo Anterior

Irã afirma ter capturado um dos submarinos mais modernos dos EUA

Próximo Artigo

Grupo Prerrogativas critica afastamento de diretores da PF e pede análise do plenário do STF

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!