Os alunos brasileiros melhoraram seu desempenho escolar nos últimos 20 anos, ao mesmo tempo em que houve uma piora na aprendizagem de países considerados ricos. Estes são alguns dos apontamentos feitos pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2025, feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e divulgado nesta terça-feira (8).
“O Brasil mostrou que maior equidade e maior qualidade podem avançar de mãos dadas, expandindo drasticamente as oportunidades educacionais enquanto melhora os resultados do Pisa”, salienta, na apresentação do relatório, o diretor de Educação e Habilidades da OCDE, Andreas Schleicher.
O estudo é feito a cada três anos e avalia os conhecimentos de estudantes na faixa de 15 anos em Matemática, Leitura e Ciências. Levando em conta esses critérios, o relatório apontou que, em relação ao ano de 2022, a qualidade da aprendizagem no Brasil manteve-se estável. O País atingiu 408 pontos em Leitura, 377 em Matemática e 409 em Ciências, ficando abaixo das médias dos países que compõem a OCDE, que foram de, respectivamente, em 466 (Leitura), 469 (Matemática) e 486 (Ciências).
No entanto, essa diferença já foi bem maior quando analisados os dados de 2006 a 2025. A diferença de desempenho em relação à média dos países da OCDE diminuiu de 102 para 58 em leitura (redução de 44 pontos), de 131 para 92 em Matemática (39 pontos) e de 113 para 77 em Ciências (36 pontos).
Outro dado relevante é que o Brasil teve uma recuperação melhor após a pandemia de covid-19 do que a média da OCDE. Entre 2018 e 2025, o País recuperou e superou o desempenho pré-pandemia em Ciências e registrou perdas menores que a média da OCDE em Leitura e Matemática.
O levantamento teve a participação de 760 mil estudantes de 91 países, dos quais 30.140 do Brasil. O perfil dos brasileiros avaliados é composto por 72% de estudantes de escolas da rede estadual, sendo a quase totalidade (97%) delas localizada em áreas urbanas. Cerca de 85% estavam matriculados na 1ª ou 2ª série do Ensino Médio na época das provas, aplicadas entre abril e maio de 2025.
Nesta edição, o foco foi o letramento dos alunos em ciências, com o maior número de itens aplicados. Foi em ciências, aliás, que a nota do Brasil mais evoluiu na comparação com o ciclo anterior de avaliação (2022), saindo de 403 para 409 pontos.
Países ricos x notas baixas
Quando analisado o conjunto dos países da OCDE, o Pisa alerta que nunca as notas foram tão baixas quanto agora, em especial nos países ricos, desde a criação da avaliação em 2000.
Entre os motivos apontados para essa piora está o uso excessivo de telas — o que pode estar contribuindo diretamente para outros aspectos relatados, como a queda na concentração e a consequente distração em sala de aula, bem como a perda do hábito e do prazer pela leitura mais aprofundada, sobretudo de livros.
Neste aspecto, o Brasil deu um passo importante ao sancionar, em 2025, a lei que proíbe o uso, por estudantes, de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais durante a aula, o recreio ou intervalos entre as aulas, para todas as etapas da educação básica.
Com a mudança, o relatório mostra, com base em questionário aplicado na prova, que 81% dos estudantes brasileiros frequentavam escolas com restrições ao uso desses dispositivos, ante 37% em 2022. A atual proporção brasileira supera amplamente a média da OCDE, que é de 49%.
“Em escolas com políticas claras sobre o uso de telefones celulares – seja por meio de proibições ou diretrizes bem definidas – menos alunos se distraem com dispositivos digitais”, informa o relatório.
Ao mesmo tempo, o documento chama atenção para o uso inadequado da inteligência artificial para a resolução de exercícios e para o fenômeno da “leitura apressada” — quando os estudantes buscam respostas imediatas e dão retornos rápidos, porém incorretos, falhando em interpretar dados complexos e fazer julgamentos críticos.
“Para os formuladores de políticas que buscam fortalecer a alfabetização digital, a lição é clara: a prontidão digital não começa com dispositivos, começa ajudando os jovens a cultivar a capacidade de se concentrar, interpretar, sintetizar e raciocinar – capacidades que estão profundamente ligadas aos hábitos de leitura profunda. Este não é um apelo para retroceder no relógio digital, mas para encontrar o equilíbrio”, explica Schleicher.
Ele prossegue lembrando que a tecnologia “pode ser um poderoso amplificador da aprendizagem, mas apenas se os alunos estiverem equipados com as ferramentas cognitivas e metacognitivas para usá-la com sabedoria. Isso significa proteger o tempo para leitura no dia a dia escolar. Significa projetar plataformas de aprendizagem digital que recompensem a reflexão, não apenas a reação”.
O Pisa também destaca elementos como a falha das escolas, sobretudo dos países ricos, em se adaptar às transformações sociais mais recentes, de maneira que o modelo tradicional de ensino tem gerado desinteresse e falta de engajamento nos adolescentes.
Cabe salientar que, paradoxalmente, o relatório indica que foram os estudantes mais ricos que lideraram as quedas nas avaliações — possivelmente devido ao acesso mais fácil e amplo a dispositivos modernos e ferramentas pagas de IA, ficando mais exposto ao ciclo de distrações, desinteresse e imediatismo digital.
“Entre 2018 e 2025, o desempenho em leitura caiu em 3/4 dos sistemas educacionais com dados comparáveis, uma queda na OCDE de 25 pontos – o que corresponde a mais de um ano de aprendizado. A maior surpresa é quem ficou mais para trás. Não foram os alunos mais desfavorecidos, mas sim aqueles de famílias ricas. Essa constatação aponta para um desafio muito mais amplo do que apenas a desigualdade”, diz Schleicher.
Na avaliação do diretor da OCDE, “o PISA nos diz que o mundo não está mais dividido em países ricos com ótimas escolas e países pobres com escolas fracas. Alguns dos progressos educacionais mais notáveis estão acontecendo agora em lugares com muito menos recursos. O Camboja, por exemplo, está iniciando o tipo de transformação educacional que outrora impulsionou economias como a Coreia e, mais recentemente, a China e o Vietnã para um caminho de crescimento econômico sustentado e prosperidade crescente”.
Ele reforça que “boas políticas e escolhas sábias de gastos são preditores muito mais fortes para o desempenho no Pisa do que apenas o quanto os países gastam por aluno: com US$ 288.521 por aluno, Luxemburgo é de longe o que mais gasta em educação, mas apresentou pontuações médias em ciências mais baixas do que Irlanda, França e Itália – todos os quais investiram menos da metade desse valor por aluno”.