
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
O doleiro de Daniel Vorcaro, Antonio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, confirmou à Procuradoria-Geral da República ter transferido R$ 69 milhões ao fundo Havengate, nos EUA, tocado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro. A informação foi revelada por Malu Gaspar e Rafael Moraes Moura, no jornal O Globo hoje. Mineiro também relatou ter entregue malas de dinheiro para terceiros a pedido de Vorcaro, ressaltando que não saberia a finalidade desse apetitoso delivery.
Flávio Bolsonaro jura de pés juntos que o cascalho foi totalmente usado para rodar Dark Horse, sobre a vida de Jair. O senador alega que houve perícia sobre as remessas, mas o especialista contratado pela produtora do filme não conseguiu dizer quem foram os beneficiários finais dos milhões nos EUA. A Polícia Federal investiga se parte foi desviada para bancar as conspirações de Eduardo contra o Brasil. Como o dinheiro foi parar na conta do representante de Eduardo, a coisa complica.
Em comício eleitoral na avenida Paulista ontem, Flávio Bolsonaro e aliados lembraram dos mais de R$ 130 milhões do contrato entre a esposa do ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, mas descaradamente esqueceram dos mais de R$ 130 milhões que Flávio Bolsonaro pediu (e cobrou, depois cobrou, depois cobrou de novo) do banqueiro. Grana que não era privada, mas fruto da roubalheira do Master em fundos de previdência e no Banco de Brasília.
Há 130 milhões de razões para criticar o relacionamento promíscuo entre Moraes e Vorcaro, tal como há 130 milhões de razões para criticar o relacionamento promíscuo de Flávio e Vorcaro. Faça o que digo, não faça o que eu faço, como diria a minha avó, é totalmente aplicável aqui.
Há algo de quase pedagógico nessa história, pois quando o dinheiro ronda o adversário, vira escândalo e quando ronda os amigos, vira contexto, coincidência, contrato, produção audiovisual e, se necessário, silêncio.

Flávio Bolsonaro pode e deve cobrar explicações sobre qualquer relação obscura envolvendo Daniel Vorcaro. Só fica menos convincente quando faz isso sentado em cima de uma montanha de relações igualmente constrangedoras com o mesmo banqueiro. A régua moral, pelo visto, é retrátil.
Se os R$ 130 milhões servem para levantar suspeitas de um lado, também servem do outro. Se transferências milionárias para o exterior exigem transparência quando envolvem adversários, exigem exatamente a mesma transparência quando passam pelo entorno da família Bolsonaro. Não é uma questão ideológica.
E então aparece o doleiro falando em malas de dinheiro. Talvez seja injusto chamar isso de cereja do bolo, pois cereja é decoração. E mala de dinheiro é método.
No Brasil, a corrupção sempre conta com uma tropa dedicada a explicar por que, desta vez, o dinheiro suspeito não é tão suspeito assim. O problema é que mala não vota e não faz discurso na Paulista. Mala só carrega dinheiro.
Em tempo: Como no Brasil, os vazamentos costumam ser seletivos, vamos sabendo o que acontece com o dinheiro que fluiu para o clã Bolsonaro a conta-gotas graças ao trabalho investigativo da imprensa. E aqui, vale o destaque para veículos como Intercept Brasil, revista piauí e ICL Notícias. Vazamentos em massa, só os que ajudam Flávio.