
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
Na política brasileira, o calendário não é um detalhe, mas a própria mensagem. Quando decidiu, monocraticamente e de forma cautelar, determinar o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues do cargo de diretor-geral da Polícia Federal, ele não estava apenas assinando um despacho, mas interferindo no Poder Executivo. E com isso, subindo no palanque de Flávio Bolsonaro (PL).
A ação reforça o argumento de quem acusa de interferência eleitoral as decisões do ministro, pois a consequência imediata de seu ato é jogar suspeita sobre a PF no governo Lula. E, apesar de algumas críticas aqui e ali, a corporação vem agindo de forma correta nas investigações do Master e do INSS.
A decisão foi confirmada pela Segunda Turma do STF, mais alinhada a Mendonça, mas pela gravidade deveria ter ido ao plenário da corte.
Como falta amor no mundo, mas também falta interpretação de texto, vale ressaltar que este texto não defende Alexandre de Moraes, pego em conversas promíscuas em que era tratado por Daniel Vorcaro como seu advogado particular e consiglieri. Longe disso, o ministro precisa se explicar e se tiver cometido crimes, pagar por eles. A questão aqui é o comportamento de quem está sendo vendido, de forma messiânica, como herói togado no caso.
Mendonça justificou a medida drástica afirmando que há mais de 30 dias tem sido monitorado pela Polícia Federal. O ministro argumentou que a decisão era necessária para que integrantes da Corte, o advogado-geral da União (Jorge Messias) e os próprios servidores da PF possam exercer suas funções “sem constrangimentos ilegais”. A canetada também determinou o afastamento de Leandro Almada do cargo de diretor de inteligência policial.

O ministro poderia ter aguardado o fechamento das urnas. No entanto, preferiu agir agora. O objetivo dessa tempestade perfeitamente cronometrada é ajudar a direita na eleição ao tentar colar no eleitor a percepção de que as instituições colapsaram, de que tudo virou um caos absoluto e de que, portanto, é preciso de “alguém novo” para botar ordem na bagunça. É a velha tática de produzir a desordem para permitir lucrarem vendendo a salvação.
A medida foi tomada durante a análise de um pedido do partido Novo, que solicitou providências após um relatório encontrar menções a Andrei Rodrigues no celular do banqueiro Vorcaro. O partido chegou a pedir a prisão do chefe da PF, mas Mendonça optou pelo afastamento temporário. Toda essa movimentação ocorre no contexto das investigações do caso Banco Master. E é justamente aí que a hipocrisia cobra seu preço.
A seletividade da indignação é o que escancara o caráter político das ações. Enquanto o ministro é rápido no gatilho para afastar a cúpula da Polícia Federal do governo Lula sob o argumento de reagir ao uso de relatórios apócrifos por parte de Alexandre de Moraes, ele surpreendentemente não toma nenhuma ação sobre o senador Flávio Bolsonaro no mesmo caso Master.
E se há 130 milhões de razões para criticar o relacionamento promíscuo entre Moraes e Vorcaro, também há 130 milhões de razões para criticar o relacionamento promíscuo de Flávio e Vorcaro.
Ao escolher o momento exato para jogar essa granada no colo do governo federal, Mendonça deixa claro de que lado do balcão eleitoral decidiu atuar. Usar a cadeira do Supremo para pautar o debate das urnas é mais do que partidarismo institucional. É fazer campanha de toga.