A extrema direita venceu com ampla margem a eleição estadual da Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, e ficou a poucos passos de assumir pela primeira vez o governo de um estado alemão desde a queda do nazismo.
A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 44,4% dos votos, quase o dobro do resultado de 2021, e elegeu 39 deputados no Parlamento local.
A sigla do chanceler Friedrich Merz, a União Democrata Cristã (CDU), sofreu uma derrota histórica: caiu de 37,1% para 17,2%. O Partido Social-Democrata (SPD) teve 9,1%; os Verdes, 8,6%; e o Die Linke, partido de esquerda, 8,4%. A participação chegou a 76,5%, recorde no estado.
O resultado dá à AfD 39 das 83 cadeiras do Parlamento. Para governar sozinha, seriam necessárias 42. A diferença de três deputados impede, por ora, que Ulrich Siegmund, candidato da extrema direita, seja eleito ministro-presidente — cargo equivalente ao de governador.
Mas a porta para a chegada da AfD ao governo permanece aberta. O BSW, partido criado a partir de uma dissidência do Die Linke, superou a cláusula de barreira e ficou com cinco cadeiras.
A legenda já admitiu cooperação com a AfD em temas como energia. Se o BSW sustentar um governo minoritário da extrema direita, as duas forças reunirão 44 deputados, número suficiente para aprovar projetos e garantir estabilidade parlamentar.
Esse é o ponto mais grave da eleição. A AfD não precisa, necessariamente, integrar uma coalizão formal para chegar ao poder. Pode formar um governo minoritário e depender dos votos do BSW para se manter. Na prática, isso romperia o bloqueio político construído na Alemanha contra forças de extrema direita desde o pós-guerra.
Os demais partidos mantêm o chamado “cordão sanitário” — a recusa de firmar acordos, dividir cargos ou participar de governos com a AfD. A medida busca isolar a extrema direita e impedir que um partido classificado como extremista pelo serviço de inteligência interno alemão assuma poder no país.
A CDU diz que preservará esse bloqueio contra a AfD, mas Merz também rejeita entendimentos com o Die Linke. A postura limita a formação de uma frente parlamentar mais ampla contra a extrema direita. Mesmo com apoio de SPD e Verdes, a CDU teria 31 cadeiras; se o Die Linke tolerasse esse governo, o bloco chegaria a 39 — ainda abaixo da maioria.
A AfD conquistou 38 dos 41 distritos eleitorais do estado. O Die Linke foi a única força a derrotar a extrema direita em três deles, todos nas maiores cidades da Saxônia-Anhalt: Magdeburgo e Halle.
O desempenho da esquerda mostra que ainda pode conter a extrema direita em áreas urbanas.
A vitória da AfD é também uma derrota pessoal para Merz, cuja CDU governa a Saxônia-Anhalt desde 2002. O chanceler enfrenta baixa popularidade e não conseguiu reverter o crescimento nacional da extrema direita, que já supera sua legenda em pesquisas federais.
Siegmund fez campanha defendendo deportações em massa de imigrantes, ataques a direitos LGBTQIA+, proibição de bandeiras arco-íris nas escolas e interrupção da construção de parques eólicos.
Prometeu trocar o lema oficial do estado, “Pense moderno”, por “Pense alemão”, além de restabelecer o canto do hino nacional nas escolas.
A seção da AfD na Saxônia-Anhalt é classificada como extremista pelo serviço de inteligência interno.
Um governo controlado pela legenda teria acesso a estruturas estaduais de segurança, educação e administração pública. Autoridades alemãs já discutiam restringir o compartilhamento de informações sigilosas com uma eventual gestão da AfD.