Não conheci Carlos Lacerda. Quando ele morreu, eu começava minha carreira de jornalista. Mas ele sempre foi um personagem presente nas histórias da família.
Nos anos 1940 e 1950, Poços de Caldas se tornou um centro político do país durante as chamadas temporadas de águas. Vendia-se a ideia de que o tratamento termal deveria durar 45 dias. Além disso, desde a primeira visita do tenente Juarez Távora à cidade, Poços se tornara um habitat da classe política, especialmente depois que Getúlio Vargas e sua família passaram a frequentá-la.
Meu avô, Issa Sarraf, tinha ali um restaurante, o Serigy, chamado pela oposição de “Caldeirão do Diabo”, devido aos conchavos políticos que eram articulados no local. Vô Issa foi presidente da UDN. Nessa condição, tornou-se amigo de várias lideranças que passavam temporadas em Poços. Uma delas era Juarez Távora. Lembro-me até hoje de, com menos de dez anos, ser apresentado a Juarez como “futuro udenista”.
Outra amizade foi com Carlos Lacerda. Ao organizar parte dos documentos do meu avô, encontrei vários bilhetes enviados por Lacerda. Minha avó Martina costumava referir-se com muito carinho a dona Letícia, esposa de Lacerda.
Foi por intermédio de vô Issa que Lacerda conheceu o jovem estudante Luiz Fernando Mercadante e o levou para o Rio de Janeiro, como repórter político da Tribuna da Imprensa.

O casamento com minha tia Zélia tornou-se um evento político, com Carlos Lacerda sendo padrinho do noivo e Bilac Pinto da noiva.
Nos arquivos do vô Issa, encontrei um telegrama de Bilac Pinto pedindo que fossem enviados telegramas a Carlos Lacerda, então governador do estado da Guanabara, para que Bilac fosse liberado do convite para ser seu secretário de Saúde.
O evento mais marcante para a família ocorreu durante o atentado da Rua Tonelero. Assim que chegou em casa, o primeiro ato de Lacerda foi pedir uma ligação interurbana para Poços de Caldas, a fim de agradecer à minha avó Martina pelo Salmo 90 com que ela o havia presenteado — e que ele guardava na carteira. Dizia ter sido salvo graças ao salmo. Quando foi publicada uma biografia dele, coordenada por seu sobrinho Cláudio Lacerda, o episódio foi atribuído erroneamente a um tal de monsenhor Mesquita.
Sempre tive curiosidade sobre esse monsenhor Mesquita que tinha em comum, com meu tio Leonardo Mesquita, apenas o sobrenome. Lembro-me de uma vez em que, sentado na varanda da casa do meu tio, vi chegar um carro oficial. Dele saíram três pessoas, pedindo para falar com “monsenhor Mesquita”. Fiquei meio atrapalhado, mas chamei meu tio. Quando ele apareceu, uma das senhoras pegou-lhe a mão, beijou-a e pediu sua bênção. Apresentou-se como filha do governador mineiro Israel Pinheiro. Meu tio explicou que certamente havia um engano: ele era apenas dono de uma fabriqueta de doces.
Segundo tempo
A segunda leva de informações sobre Lacerda surgiu quando enfrentei Saulo Ramos, então consultor-geral da República no governo Sarney. Na ocasião, Luiz Gonzaga Belluzzo me apresentou a seu amigo, o advogado Eros Grau, que me deu uma dica:
— Saulo é um lobista pequeno. Você precisa conhecer os lobistas do Rio de Janeiro para ver a diferença.
E me indicou Bartolomeu Santos, uma figura interessante. Bartolomeu era um pernambucano que começara a carreira como chefe de gabinete de Agamenon Magalhães. Depois, foi para o Rio, aliou-se ao grupo de Negrão de Lima e manteve estreito relacionamento com militares da área de informações.
Quando o superlobista Jorge Serpa foi preso, foi Bartolomeu quem alertou o SNI para os profundos conhecimentos de Serpa sobre o mundo político, empresarial e tecnocrático da República. Acabou selando um pacto entre eles, com Serpa orientando agentes do serviço sobre a dimensão econômica e política de cada alvo. A aproximação foi tão grande que, tempos depois, Serpa se tornou responsável pelos discursos mais marcantes de Emílio Garrastazu Médici.
Sobre Serpa, falarei mais em outro capítulo.
Nas conversas que tivemos, Bartolomeu me contou como o SNI calou Lacerda pouco antes de sua morte.
Lacerda era um Marlon Brando, movido por um furor sexual que não escolhia sexo, além de ser adepto de ménages. O SNI infiltrou um agente bonitão no Sítio do Alecrim, propriedade de Lacerda no Rocio, em Petrópolis. Lacerda se aproximou do falso jardineiro e fez-lhe propostas de cunho sexual.
Na época, o SNI já dispunha de microgravadores e de aliados na imprensa para transformar as gravações em escândalos. Um dos episódios mais terríveis foi a gravação do encontro de um deputado pernambucano, de oposição, com a esposa de um senador, também da oposição em um motel administrado pelo próprio SNI, justamente para colher elementos contra opositores. O caso mereceu matéria de capa na Veja, assinada por Elio Gaspari.
Segundo Bartolomeu, o episódio calou Lacerda nos últimos anos de vida. Depoimentos de amigos, aliás, descrevem esse período como melancólico. Ainda assim, Lacerda concedeu uma série de entrevistas a um grupo de jornalistas até poucos dias antes de morrer.
Pouco antes das entrevistas, Lacerda escrevera um artigo significativamente intitulado “Minha vida que está se acabando”. Nele, dizia ser pré-diabético, mas relatava que os exames recentes indicavam bom estado de saúde e que os médicos lhe haviam dito que estava com o “coração ótimo”. Também mencionava crises de melancolia.
Terceiro tempo
A terceira onda de informações veio durante a elaboração da biografia de Walther Moreira Salles, quando obtive vários depoimentos do banqueiro e de amigos pessoais de Lacerda, como Raphael de Almeida Magalhães.
Segundo Walther, Lacerda não tinha “casos”. Vivia paixões avassaladoras que periodicamente o faziam perder a cabeça e deixar a esposa Letícia. Em muitas dessas ocasiões, recorria ao auxílio financeiro de Walther.
Conto no livro:
“Carlos Lacerda não tinha casos. Vivia paixões avassaladoras que periodicamente o faziam perder a cabeça e deixar a esposa Letícia. Em muitas dessas ocasiões, acabou recorrendo ao auxílio financeiro do amigo Walther.
Certa vez, Horácio de Carvalho solicitou a Walther que patrocinasse uma viagem de Lacerda aos Estados Unidos para cobrir as eleições americanas, um feito na biografia de qualquer jornalista. Deveria permanecer por lá durante três meses. Lacerda entrou no avião e não deu mais notícias. Quando se pensava que poderia estar urdindo a queda de Eisenhower, descobriu-se que havia ficado em Belém com a prima Marina, por quem estava perdidamente apaixonado.
Em outra ocasião, durante a campanha de JK, apaixonou-se, como sempre perdidamente, pela atriz Maria Fernanda, filha de Cecília Meireles, e sumiu por várias semanas. Nos hábitos sexuais, Lacerda exprimia a mesma abertura para novas ideias que manifestava no campo político.
Durante a guerra movida contra a Última Hora, Maurício Lacerda, pai de Carlos, preparou-se para dar uma entrevista contra o filho. Lacerda era redator do Diário Carioca e protegido do proprietário Horácio de Carvalho, que conhecia a família desde suas raízes de Vassouras. Horácio foi à casa de Walther e ambos procuraram Maurício, tentando demovê-lo da entrevista. Maurício alertou:
— Horacinho, você ainda vai se arrepender dessa ligação com Carlos. Voltando-se para Walther, acrescentou: — E o senhor também.
Foi só após 1964 que Walther se deu conta de que praga de pai pega.”
Para suas aventuras a três, contou-me Walther, o parceiro era um grande cronista que atuava na imprensa carioca.
O rompimento de Lacerda com Jânio, que precipitou a renúncia, foi-me contada por Raphael de Almeida Magalhães, e corroborada por Walther.
A Nova Fronteira, editora de Lacerda, tocada pelo filho Sérgio, recebeu algum dinheiro do jogo de bicho. O escândalo iria estourar. Lacerda foi a Brasilia para falar com Jânio. Mas foi barrado na porta do Palácio, provavelmente por algum porteiro mal informado, que não deixou entrar com sua mala. Lacerda interpretou com um desaforo, e voltou furibundo para o Rio. Invadiu um jantar dos Moreira Salles fora de si, criando um mal-estar generalizado. A partir dali, mirou sua metralhadora em Jânio.
Este, por sua vez, na véspera do impeachment passou a noite com uma das grandes atrizes brasileiras, em um apartamento cedido por Júlio Barbero.=
Mas a história definitiva para entender a personalidade de Lacerda foi-me contada pelo livreiro Pedro Paulo de Sena Madureira.
A ligação de Pedro Paulo com Carlos Lacerda é especialmente interessante: em 1976, ele entrou para a Nova Fronteira, fundada por Lacerda em 1965. Depois da morte de Carlos, em 1977, continuou trabalhando com os filhos Sérgio e Sebastião Lacerda e teve papel central na transformação da Nova Fronteira em uma das grandes editoras literárias brasileiras.
Na juventude, Lacerda teve uma grande paixão. Décadas depois, apaixonou-se pela filha daquela paixão frustrada. Cerca de 20 anos mais tarde, apaixonou-se pelo neto da primeira paixão, filho da segunda.