Até meados de agosto, o bolsonarismo resistia em convocar uma manifestação para o feriado de 7 de Setembro. A grande mídia colaborava em alguma medida com o grupo, ao requentar ilações sobre o empresário Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula (PT). O caso Dark Horse, calcanhar-de-Aquiles do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), parecia adormecer.
O problema era a frustração com a campanha eleitoral, iniciada oficialmente em 16 de agosto. Desde o lançamento da candidatura de Flávio, no Rio de Janeiro, a adesão dos apoiadores era preocupantemente baixa. Imagens de atividades esvaziadas da extrema direita contrastavam com as cenas de festa e empolgação nos comícios de Lula. Para piorar, o desempenho medíocre de Flávio na sabatina do Jornal Nacional, da TV Globo, em nada alterou a crise da campanha.
Foi nesse clima de impasse do bolsonarismo que emergiu a figura de André Mendonça, o ministro “terrivelmente evangélico” indicado ao STF (Supremo Tribunal Federal) em 2021 pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Com a sucessão de fatos que envolvem sua atuação na Corte, é impossível ignorar que o magistrado intervém seletivamente em inquéritos e tenta influenciar as eleições 2026. Diante da crise, Mendonça virou o maior cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro.
Por uma coincidência que favorece suas manobras, o ministro é relator de três casos de enorme repercussão política: o inquérito sobre irregularidades no INSS, a investigação da megafraude do Banco Master e o caso Dark Horse. Os dois últimos estão diretamente ligados a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master. Preso desde março, o banqueiro é acusado de comandar uma das maiores fraudes financeiras já investigadas no País, com um rombo estimado em R$ 52 bilhões.
Os tentáculos de Vorcaro
O escândalo Master se alastrou por anos devido às relações espúrias de Vorcaro com figurões dos Três Poderes. Só no STF, sua rede de contatos alcançou cinco dos dez ministros: André Mendonça, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Nunes Marques e Luiz Fux. Já no Poder Legislativo, o elo Vorcaro-Flávio Bolsonaro é o de maior notoriedade.
Numa mensagem de áudio em setembro de 2025, quando denúncias contra o Master já eram públicas, o senador do PL pediu ao banqueiro R$ 134 milhões para financiar Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Há suspeitas de que parte do dinheiro foi desviada e ajudou a patrocinar o autoexílio do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos.
Por regra, os inquéritos do STF sobre os crimes e as conexões de Vorcaro correm em sigilo de Justiça – o que se justifica quando o objetivo é preservar provas, evitar condenações públicas precipitadas e garantir o êxito das operações. Muito do que sabemos sobre o caso Master e os tentáculos de seu ex-controlador veio à tona por meio de vazamentos divulgados pela imprensa.
Sobrevida a Flávio
Na terça-feira (1), porém, Mendonça retirou o sigilo de parte dos autos que continham conversas entre Vorcaro e Moraes. A decisão, cercada de questionamentos jurídicos, veio horas depois de a revista piauí revelar informações que desmentiam a versão apresentada por Flávio Bolsonaro sobre os repasses de Vorcaro. Abordado por jornalistas, Flávio gaguejou, irritou-se e claudicou, tentando transferir toda e qualquer explicação para a produtora do filme, não para si próprio.
Setembro começava, assim, com o candidato do PL novamente “nas cordas” – e o ato de 7 de Setembro, em risco. A intervenção de Mendonça mudou o jogo. Ao se lançar numa surpreendente ofensiva contra Moraes – nêmesis do bolsonarismo –, o ministro “terrivelmente evangélico” garantiu nova sobrevida a Flávio Bolsonaro, alimentando a narrativa anti-STF. O lema “Fora, Moraes!”, replicado na convocação do 7 de Setembro, ganhou fôlego.
A imprensa esqueceu o filho de Lula e trocou de alvo. Jornalões como a Folha de S.Paulo e o Estadão pediram, em editorial, a renúncia de Moraes. A hashtag #EuApoioAndréMendonça viralizou. Em entrevista à Agência Pública, o pastor batista e teólogo Sérgio Dusilek resumiu a reação dos evangélicos em defesa do ministro: “Mendonça está quase virando um mártir. A extrema direita coloca a situação como se a esquerda estivesse perseguindo um pastor. Não um ministro do Supremo, mas, sim, um ministro evangélico”.
Blindagem
Enquanto Mendonça invoca a “transparência” para expor informações contra Moraes e inflar os ataques bolsonaristas ao STF, as investigações que podem comprometer Flávio Bolsonaro seguem submetidas a outro ritmo. Os últimos episódios tornaram essa assimetria ainda mais explosiva e inadmissível.
Na quarta (2), parlamentares de PT, PCdoB, PSOL e Rede protocolaram uma petição junto ao presidente do STF, Edson Fachin, cobrando tratamento único para as investigações. Os congressistas propõem o encaminhamento do caso à Procuradoria-Geral da República, incluindo a possibilidade de uma arguição de suspeição contra Mendonça.
Durante entrevista coletiva em Brasília, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) criticou a morosidade do caso Dark Horse. Conforme lembrou a parlamentar, Flávio é o único candidato a presidente envolvido nas denúncias relacionadas a Vorcaro, mas as medidas investigativas não avançam com a celeridade exigida pela gravidade dos fatos.
“Por que André Mendonça sentou em cima desse processo?”, indagou Jandira. “Por que o sigilo bancário e fiscal de Flávio Bolsonaro não está quebrado? Por que as investigações sobre Flávio Bolsonaro não andam?” Os indícios contra o presidenciável da extrema direita são mantidos numa zona de proteção ao mesmo tempo em que outros processos são abertos, sigilos são levantados e informações são expostas ao debate público.
Suspeição
Mendonça abriu uma cruzada simultânea não apenas contra Moraes – mas também contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre; o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues; e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. A principal arma do ministro é a concentração de inquéritos-chave sob sua relatoria em pleno período eleitoral. Ele pode até vender suas determinações como atos isolados de natureza processual. Mas, observadas em conjunto, essas decisões têm Flávio Bolsonaro como principal beneficiário político.
Nesta semana, um relatório da PF confirmou que, embora haja provas de “atos ilícitos” de outros ministros do STF, Mendonça direcionou a investigação “única e exclusivamente” contra Moraes. Colegas como Dias Toffoli e Nunes Marques foram poupados. Mendonça decidiu, sozinho, quais contatos merecem vir a público e quais permanecem protegidos pelo sigilo de Justiça. É uma escolha política travestida de procedimento. O próprio Mendonça admitiu ter recebido Vorcaro no início de 2025, num encontro privado, fora de sua agenda pública.
O ministro não estará no palanque do 7 de Setembro, nem precisará repetir palavras de ordem contra Moraes. Mas sua contribuição ao ato foi central: sentado numa cadeira do STF, ele ajudou a produzir o ambiente político que o bolsonarismo precisava para sair da defensiva. Ao transformar seletivamente informações sob sigilo em combustível para o “Fora, Moraes”, Mendonça criou uma assimetria que exige explicações urgentes.
O Supremo tem o dever de redistribuir os processos para um relator sem conflito de interesse declarado, além apresentar o calendário de investigação do caso Dark Horse, com datas e diligências previstas. Com tamanha suspeição pesando contra Mendonça, cabe ao STF garantir que investigações capazes de interferir na eleição presidencial não fiquem subordinadas à vontade – e às preferências – de um único ministro.