A terceira via se devora 

Wagner Gomes 

A política brasileira produziu uma ironia difícil de ignorar: enquanto os candidatos que há meses disputam o título de terceira via brigam entre si por espaço, Augusto Cury (foto: Divulgação) ) passou por fora e, quase sem estrutura, tornou-se maior do que todos eles juntos. A nova pesquisa Quaest mostra Cury com 10% das intenções de voto. Renan Santos aparece com 3%, enquanto Ronaldo Caiado e Romeu Zema têm 1% cada. Somados, alcançam apenas 5% — metade do escritor. O dado muda a natureza de sua candidatura. Cury já não pode ser tratado como curiosidade eleitoral. Médico psiquiatra, escritor de enorme alcance popular e novato na política partidária, parece ter encontrado um espaço que os candidatos tradicionais da terceira via não conseguiram ocupar: o cansaço do eleitor com a repetição. O Brasil caminha novamente para uma disputa dominada por lulismo e bolsonarismo. De um lado, Lula; do outro, Flávio Bolsonaro. Entre eles, milhões de brasileiros assistem ao mesmo roteiro de antagonismo, medo e rejeição. A terceira via deveria ser a saída desse labirinto. Mas prefere disputar quem será o dono da cancela. Caiado apresenta experiência administrativa. Zema vende eficiência liberal. Renan Santos aposta na renovação política. Todos têm discurso, organização e alguma trajetória, goste-se deles ou não. Cury, porém, chegou com algo diferente: não reivindica apenas um espaço ideológico. Tenta ocupar um espaço psicológico. Talvez aí esteja sua força. O eleitor, enfastiado com a polarização, pode não estar procurando simplesmente alguém “de centro”. Centro é posição geométrica, não projeto de país. Ele pode estar buscando uma linguagem diferente, menos intoxicada pelo ódio e pela guerra permanente. Isso não significa que Cury esteja pronto para governar. Ministério não é biblioteca. Congresso não é consultório. Estruturar programas duradouros exige mais talento e conhecimento do que registrar ideias de autoajuda. Vender milhões de livros não ensina a montar maioria parlamentar, controlar gastos ou enfrentar interesses entranhados na máquina pública. Agora que chegou aos 10%, começa sua verdadeira prova. Cury terá de transformar conceitos em projetos, frases em números e boas intenções em políticas executáveis. Precisará explicar como pretende administrar o Orçamento, montar equipe, negociar com o Congresso e enfrentar as estruturas que historicamente trituram presidentes bem-intencionados. Mas existe uma mudança importante: antes, era Cury quem precisava explicar por que deveria ser levado a sério. Agora são seus adversários da terceira via que precisam explicar por que, somados, valem eleitoralmente apenas metade dele. É um constrangimento e um aviso. Enquanto políticos profissionais disputam entre si quem representa a alternativa, parte do eleitorado talvez esteja justamente procurando alternativa aos políticos profissionais. A terceira via sofre, assim, de um estranho canibalismo. Seus candidatos disputam o mesmo eleitor, fragmentam o mesmo espaço e acabam enfraquecendo-se uns aos outros. Cury observa de fora — e cresce. Ainda está distante de Lula e de Flávio Bolsonaro. Dez por cento não elegem presidente nem garantem segundo turno. Mas já representam algo que nenhuma campanha deveria desprezar: uma inquietação eleitoral em busca de endereço. Talvez Cury não seja ainda a terceira via. Mas os números começam a sugerir algo mais incômodo para seus concorrentes: enquanto eles discutem quem deve liderá-la, o eleitor pode estar escolhendo por si próprio, deixando seus pretensos candidatos falando sozinhos. 

Wagner Gomes – Articulista 

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