
O crescimento de Augusto Cury (Avante) nas intenções de voto para presidente da República (10% na Quest, 8% no Datafolha), indica que o ectoplasma “terceira-via fora do sistema” ainda assombra. Lastima-se que a opção dessa parcela do eleitorado, a despeito de mal fazer cócegas nos dois primeiros colocados, seja por um coach vendedor de receitas de felicidade que não possui a mais pálida ideia das responsabilidades do ocupante do Palácio do Planalto. A última sondagem, contudo, traz um recado alvissareiro: a direita sertaneja, encarnada por Ronaldo Caiado (PSD), e a direita Excel, personificada por Romeu Zema (Novo), esboroam-se cinematograficamente.
O percentual de intenções de voto conferido a Caiado (4% no Datafolha, 1% na Quest) e Zema (2% no Datafolha, 1% na Quest) traduz o que significam para o eleitor seus atos e falas como políticos, bem como seus feitos como governadores. A despeito da relevância que a migração de seus votos possa vir a ter no segundo turno, o povo assevera que não os quer na direção do país.
Ronaldo Caiado nunca deixou de ser o troglodita líder da UDR – a União Democrática Ruralista – que obteve menos de 1% dos votos na eleição presidencial de 1989, e que, no Palácio das Esmeraldas, imaginou equacionar as contas públicas no médio prazo e investiu em segurança, tendo avançado nesse campo de enorme apelo eleitoral, ao menos numericamente – indicadores de roubos e homicídios caíram no Estado. A pose de justiceiro não emplacou, todavia.
O tempo mostra que Caiado, como em 1989, ainda representa apenas parte da direita ruralista, que nunca incomodou eleitoralmente os verdadeiros competidores nacionais, mas emprestou uma voz estridente ao pior movimento reacionário em determinado momento, quando pautava sua existência por criminalizar as ações dos trabalhadores rurais sem-terra e impedir a reforma agrária.

O discurso que ultrapassa o plano jurídico e entra no terreno da força direta não colou na primeira eleição presidencial depois da ditadura, e não cola agora, como se vê. No auge da sua UDR, Caiado personificava, ainda mais que Paulo Maluf, uma reação conservadora à redemocratização calcada na lógica da Guerra Fria, pois vendia o risco de convulsão social em caso de vitória da esquerda. Hoje ele representa, no máximo, meia dúzia de cantores sertanejos que abocanha dinheiro público e atormenta nossos ouvidos.
O Ronaldo Caiado que hoje posa de conservador ponderado, respeitador das instituições democráticas, não hesita em montar o cavalo encilhado do golpismo e anunciar que, se eleito, indultará Jair Bolsonaro e seus comparsas. Como os bolsonaristas empedernidos votarão em Flávio, ninguém votará em Caiado, como mostram as pesquisas.
Romeu Zema é um pouco diferente.
Como já escrevemos neste espaço, Romeu Zema integra o campo político dos reacionários travestidos de moderninhos, que administram a coisa pública pela ótica das redes sociais. Seus atos são forjados por marqueteiros para conquistarem seguidores, gerarem likes e aumentarem o engajamento. São enganadores profissionais.
Desde logo, o Zema candidato a presidente percebeu que atirar contra o Supremo Tribunal Federal lhe renderia votos. A intenção de voto em Romeu Zema deu um pequeno salto depois do bate-boca que travou com Gilmar Mendes, mas agora cai ao nível da sua real força eleitoral. Além disso, sua errática administração em Minas Gerais desautoriza o discurso fiscalista, que parece calcado em planilhas matemáticas – “candidato Excel” é mesmo um apelido perfeito.
O neoliberal Romeu Zema nunca abdicou da ajuda estatal, como prova o avanço da dívida mineira, hoje na casa de R$ 208 bilhões, cerca de 90% dos quais com a União. O governador Zema obteve um novo acordo com a União, no âmbito do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag),que estabelece parcelamento em até 30 anos, possibilidade de juros reais próximos de zero (IPCA + 0%) e exigência de contrapartidas (ajustes fiscais e eventualmente venda/federalização de ativos). Uma renegociação de pai para filho.

Só que o papagaio continua sendo tema de disputa no Supremo Tribunal Federal. O ministro Nunes Marques chegou a cobrar comprovantes de pagamento da dívida em 2026. Minas já conseguiu, no passado recente, suspender pagamentos por quase dois anos via decisões judiciais. Ou seja: o conflito federativo não desapareceu — só foi reorganizado. Registre-se que a dívida de Minas Gerais cresceu mais de 60% desde 2019, início da era Zema.
Apesar do acordo do Propag, relatórios da Secretaria de Fazenda de Minas Gerais indicam que o Estado iniciou 2026 com uma disponibilidade de caixa líquida negativa em mais de R$ 11 bilhões. Isso ocorre porque, embora a dívida tenha sido alongada, o fluxo de pagamentos e a renúncia fiscal aprovada em 2025 ainda pressionam o orçamento mineiro no curto prazo.
Os poucos votos que os brasileiros darão para Ronaldo Caiado e para Romeu Zema, na verdade, são até demais para suas dimensões como homens públicos.