A metodologia educacional associada ao escritor e candidato à Presidência da República Augusto Cury movimentou mais de R$ 47 milhões em contratos e instrumentos firmados com o poder público, segundo levantamentos da Revista Fórum. Os negócios identificados envolvem programas baseados na chamada Teoria da Inteligência Multifocal (TIM), desenvolvida por Cury, e foram realizados por diferentes empresas ligadas à comercialização, edição e distribuição dos materiais.
Os levantamentos encontraram 25 contratos e instrumentos relacionados à Escola da Inteligência em dez estados, com valores superiores a R$ 30 milhões. Paralelamente, foram identificados contratos do Gênios Socioemocional, programa que substituiu a Escola da Inteligência em parte da rede municipal de Itajaí (SC), e que somou outros R$ 17,63 milhões entre 2022 e 2024.
O caso de Itajaí concentra uma parte expressiva dos recursos. Entre 2017 e 2021, cinco contratos da Escola da Inteligência localizados pela reportagem somaram R$ 21,84 milhões. Depois da substituição do programa pelo Gênios, outros três contratos elevaram o total movimentado pelos dois projetos no município para aproximadamente R$ 39,47 milhões.
A cadeia comercial identificada nos documentos envolve principalmente três empresas. A Inteligência Educacional, de Goiânia, aparece como fornecedora e distribuidora dos materiais. A Escola de Inteligência Cursos Educacionais, de Ribeirão Preto, era responsável pela edição das obras e estava ligada à família de Cury. Já a Multifocal RP Distribuição de Livros e Cursos, empresa de Camila Cury, filha do escritor, e de seu marido, Bruno Alves Oliveira, passou posteriormente a fornecer diretamente o programa Gênios a prefeituras.
Escola da Inteligência
Documentos de processos de contratação ajudam a reconstruir a forma como os materiais associados a Augusto Cury chegaram às redes públicas de ensino.
Em 2019, por exemplo, a Inteligência Educacional apresentou à Prefeitura de Caçador (SC) uma proposta para implantação da Escola da Inteligência. O documento informava que os livros utilizavam a Teoria da Inteligência Multifocal, atribuída a Cury, e afirmava que a empresa tinha exclusividade para comercializar o material.
Na proposta, a empresa também descrevia os livros como “direito autoral do Dr. Augusto Cury”. Em outro documento anexado ao processo, um certificado do Sindicato Nacional dos Editores de Livros identificava a Escola de Inteligência Cursos Educacionais como responsável pela edição das obras, enquanto a Inteligência Educacional aparecia como responsável exclusiva pela comercialização e distribuição.
O modelo se repetiu em diferentes municípios. O poder público contratava a empresa responsável pela comercialização dos materiais, enquanto os documentos relacionavam os produtos à autoria de Cury e à Teoria da Inteligência Multifocal.
R$ 21 milhões
O maior volume encontrado para a Escola da Inteligência está em Itajaí. O programa chegou à rede municipal em 2017, quando um contrato localizado pela reportagem foi firmado por R$ 1,19 milhão. No ano seguinte, foram outros R$ 2,68 milhões, seguidos por R$ 4,31 milhões em 2019 e R$ 5,98 milhões em 2020.
Em 2021, o maior contrato da sequência chegou a R$ 7,65 milhões, destinado ao fornecimento de kits e serviços do programa. Somados, os cinco instrumentos alcançaram R$ 21,84 milhões entre 2017 e 2021.
O contrato de 2021 chegou a ser analisado pelo Ministério Público de Santa Catarina. O procedimento foi arquivado em 2023, após o órgão considerar regular a contratação por inexigibilidade e apontar ausência de superfaturamento.
Cuiabá
Em Cuiabá (MT), documentos oficiais deixam explícita a associação entre Augusto Cury e o produto adquirido pela prefeitura.
Um contrato de 2017 descreveu os kits da Escola da Inteligência como sendo de autoria do médico psiquiatra e escritor e, no mesmo documento, afirmou que os materiais eram comercializados exclusivamente pela Inteligência Educacional. O negócio foi de aproximadamente R$ 1,04 milhão.
Dois anos depois, a prefeitura adquiriu mais de 15,5 mil kits, em uma contratação de R$ 3,48 milhões. Os dois negócios totalizaram cerca de R$ 4,53 milhões.
Contratos e instrumentos relacionados à Escola da Inteligência também foram localizados em Santa Catarina, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná, Bahia, Pará, Piauí, Rio Grande do Sul, Goiás e Tocantins. Entre os casos identificados estão três contratos em Lagoa Santa (MG), que somaram R$ 2,94 milhões, e uma contratação da Secretaria Estadual de Educação do Tocantins de aproximadamente R$ 1,55 milhão.
Em Paranaguá (PR), um processo de quase R$ 1 milhão relacionou expressamente os materiais adquiridos pela prefeitura à Teoria da Inteligência Multifocal.
Gênios
A relação comercial sofreu uma mudança em 2022. Naquele ano, a Prefeitura de Itajaí anunciou que o programa Gênios Educacional substituiria a Escola da Inteligência em 95% da rede municipal, alcançando 83 unidades. A mudança também foi representada nos materiais pedagógicos: o personagem Corujão, associado ao programa anterior, deu lugar à personagem Mila, uma águia-harpia.
Apesar da troca do programa, a empresa fornecedora inicialmente permaneceu a mesma. Em março de 2022, Itajaí contratou, por inexigibilidade de licitação, a Inteligência Educacional para fornecer kits do Gênios Socioemocional por R$ 6,62 milhões. Dois meses depois, um aditivo reduziu o valor em R$ 373,36 mil, levando o contrato a R$ 6,25 milhões.
Em 2023, a mesma empresa voltou a ser contratada para fornecer o Gênios, dessa vez por R$ 5,6 milhões. Os dois contratos totalizaram R$ 11,85 milhões, já considerando a redução aplicada ao primeiro negócio.
A mudança definitiva de fornecedor ocorreu em 2024. Em abril daquele ano, a prefeitura deixou de contratar a Inteligência Educacional e assinou diretamente com a Multifocal RP Distribuição de Livros e Cursos um contrato de R$ 5,78 milhões para fornecimento de materiais e implantação do programa socioemocional na Educação Infantil e no Ensino Fundamental.
A Multifocal RP tem como sócios Camila Farhate Cury Oliveira e Bruno Alves Oliveira. Camila é filha de Augusto Cury, enquanto Bruno é seu marido. Os dois aparecem ligados à empresa desde sua abertura, em 2015, e são apresentados pelo próprio Gênios como responsáveis pela criação do projeto.
Com os contratos de 2022, 2023 e 2024, os negócios do Gênios localizados em Itajaí chegaram a R$ 17,63 milhões.
Filha
A Multifocal RP não aparece apenas como fornecedora do Gênios. Em um processo de inexigibilidade da Prefeitura de Sangão (SC), a empresa é apresentada como detentora dos direitos autorais exclusivos de edição, publicação, distribuição e comercialização do programa em todo o território nacional.
A informação cria uma questão sobre os contratos anteriores de Itajaí. Em 2022 e 2023, quando a Inteligência Educacional ainda fornecia o Gênios à prefeitura, a Multifocal RP já estava ligada à família de Cury. Os documentos localizados pela reportagem, porém, não detalham qual acordo autorizava a Inteligência Educacional a comercializar o programa.
A própria documentação deixa registrada a sequência: a Escola da Inteligência foi substituída pelo Gênios em grande parte da rede de Itajaí; a Inteligência Educacional forneceu o novo programa nos dois primeiros anos; e, em 2024, a contratação passou diretamente para a empresa de Camila Cury e Bruno Oliveira.
Teoria da Inteligência Multifocal
Apesar da mudança de nome e de fornecedor, os documentos indicam a permanência da ligação intelectual com Augusto Cury. Materiais institucionais do Gênios citam a Teoria da Inteligência Multifocal como uma das bases do programa, enquanto a própria Inteligência Educacional apresentava o projeto como fundamentado na teoria desenvolvida pelo escritor.
A atuação da Multifocal RP também não se limitou a Itajaí. Foram encontrados contratos da empresa em municípios de diferentes estados. Em Sangão, um negócio relacionado ao Gênios chegou a R$ 231 mil; em Mafra (SC), outro contrato alcançou R$ 356,16 mil. Também foram identificadas contratações em Porto União, Conselheiro Lafaiete, Nova Serrana e União dos Palmares.
Venda
Enquanto a Inteligência Educacional aparecia nos contratos públicos como comercializadora dos materiais, a empresa responsável pela edição da Escola da Inteligência tinha outro destino.
A Escola de Inteligência Cursos Educacionais estava nas mãos de integrantes da família de Augusto Cury: sua esposa, Suleima, as filhas Camila, Carolina e Cláudia e o genro Bruno Oliveira. O escritor, contudo, não aparecia como sócio.
Em 2020, a Arco Educação adquiriu inicialmente 60% da empresa por R$ 288 milhões. Em documento apresentado à Securities and Exchange Commission (SEC), nos Estados Unidos, a companhia informou que a operação envolvia apenas o negócio privado da Escola da Inteligência.
A informação ajuda a separar, nos documentos analisados, as empresas envolvidas no mercado privado e aquelas que continuaram aparecendo nas contratações públicas. Enquanto a companhia da família foi adquirida pela Arco, os contratos com prefeituras e governos encontrados pela reportagem estavam principalmente em nome da Inteligência Educacional.
O certificado do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, por sua vez, mostra a ligação comercial entre as empresas: uma aparecia como editora das obras e a outra como responsável pela comercialização e distribuição.
Questionamentos
Os documentos também deixam uma dúvida sobre os direitos relacionados às obras de Augusto Cury.
Quando a Escola da Inteligência foi implantada em Itajaí, em 2017, a prefeitura informou que o escritor havia renunciado aos direitos autorais e patrimoniais do programa. O documento que formalizaria essa renúncia, contudo, não foi localizado pela reportagem.
Dois anos depois, na proposta apresentada à Prefeitura de Caçador, a Inteligência Educacional afirmou que os livros eram “direito autoral do Dr. Augusto Cury”.
A ausência do documento de renúncia impede esclarecer, a partir dos materiais localizados, quais direitos foram efetivamente transferidos, para quem e em que condições.
No caso do Gênios, a questão se repete sob outra forma. Embora a Multifocal RP apareça posteriormente como detentora exclusiva dos direitos do programa, os documentos analisados não esclarecem qual instrumento permitiu que a Inteligência Educacional comercializasse o material em 2022 e 2023.
Outro lado
A Fórum Investiga Augusto Cury, a Inteligência Educacional, Camila Cury, Bruno Oliveira e o Gênios Educacional para esclarecer a relação jurídica e econômica entre as empresas e os programas. No entanto, os citados na matéria não se pronunciaram. O espaço permanece aberto para manifestações.
*Com informações da Revista Fórum.
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