Sakamoto: do ‘lindão’ de Nikolas ao ‘irmão’ de Flávio, os apelidos do SAC de Vorcaro

Nikolas Ferreira (PL), a influenciadora Jey Reis, Mariel Batista e seu marido, o pastor Guilherme Batista, da Lagoinha, diante de avião pertencente a Prime Aviation, empresa de Daniel Vorcaro. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL

“Comandante, capitão, tio, brother, camarada”, cantava o glorioso Skank. “Irmão, lindão, Dani, meu amigo”, proferiam os políticos da esfera de influência de Daniel Vorcaro. No primeiro caso, o chamamento era para pedir ao garçom mais uma rodada de cerveja. No segundo, para solicitar favores ao banqueiro, que podiam ser R$ 130 milhões ou ajuda para destravar negócios de mineração. O que mostra que o Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) de Vorcaro tinha vários nomes, mas o mesmo fim.

Reportagem de Juliana Dal Piva, no ICL Notícias, traz hoje mensagens do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) pedindo a Vorcaro que ajudasse seu advogado e ex-assessor de seu gabinete, Thiago de Faria, a liberar “um ativo de minério”. Em áudio de 30 de março de 2025, Nikolas chama o banqueiro de “Dani” e de “lindão” e diz que “quer ter mais proximidade” com ele. E, em conversa com o empresário Flávio Carneiro, o banqueiro reclamou de declarações do deputado, dizendo que havia bancado todos os voos de Nikolas.

“Lindão” e “Dani” se somam, dessa forma, às formas de deferência ao banqueiro. Uma das mais conhecidas foi a do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em 16 de novembro de 2025 — um dia antes de o dono do Banco Master ser preso pela Polícia Federal pela primeira vez. A informação, que inclui diálogos e áudio, foi revelada por uma reportagem do Intercept Brasil. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.” Flávio Bolsonaro pediu a Vorcaro R$ 134 milhões para viabilizar um filme sobre a vida de seu pai, que está preso por tentativa de golpe. Reportagem de Breno Pires, da revista piauí, publicada ontem, mostra que o senador vem mentindo sobre quanto de fato recebeu desse montante. E, o principal: qual foi o destino do dinheiro, o filme ou o financiamento de atividades ilícitas de sua família nos EUA. O que um político que diz “estou e estarei contigo sempre” está disposto a dar para alguém que lhe entrega R$ 134 milhões?

De todos os políticos, o que mais demonstrou proximidade com Vorcaro é Ciro Nogueira (PP-PI). De fotos dos dois nos Alpes, no melhor estilo bromance, até as mensagens em que o senador o chama de “meu amigo” e é chamado por ele de “irmãozão”. Segundo investigações da Polícia Federal, ele teria recebido R$ 18 milhões em propina para defender os interesses do Master no Senado, que seriam repassados em depósitos mensais e por meio de uma negociação de compra e venda de uma empresa.

Daniel Vorcaro e Ciro Nogueira. Foto: Reprodução

Não é possível saber do que Alexandre de Moraes chamava Daniel Vorcaro porque as mensagens do lado dele nos diálogos com o banqueiro não puderam ser recuperadas pela Polícia Federal.

Mas, dada a liberdade com que Vorcaro pedia as maiores atrocidades ao ministro, é bem provável que não fosse “senhor investigado”. Ele pediu a Moraes que intercedesse junto ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, a favor dele, que bloqueasse a quebra de sigilo e, dois dias antes de ser preso, perguntou a ele: “Conseguimos fazer algo? Acha que segunda já tenho que estar fora?” E manteve com a esposa do ministro um contrato de advocacia para o Master que previa mais de R$ 130 milhões, sem contar sociedade em jatinhos.

A doçura dos apelidos apenas disfarça a acidez da promiscuidade entre o capital privado e as mais altas esferas do poder. Vorcaro não inventou o SAC, apenas o operou com eficiência. No Brasil, para o cidadão comum há fila, protocolo e música de espera. Para o capital grosso, linha direta com “irmãos”, “amigos” e “lindões”.

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