Da Redação
Às vésperas da eleição presidencial brasileira, presidente dos Estados Unidos afirma ter ajudado aliados políticos a vencer disputas eleitorais na região, cita Colômbia e Argentina e associa aproximação dos governos latino-americanos ao “respeito” por Washington; declaração ganha peso diante da disputa geopolítica pelo futuro do continente.
Donald Trump voltou a colocar a América Latina no centro de sua política hemisférica ao afirmar, nesta quarta-feira (2), que os Estados Unidos mantêm atualmente uma “boa relação” com o Brasil e com praticamente todos os países da região, ao mesmo tempo em que celebrou aquilo que considera uma guinada política do continente para a direita e reivindicou influência pessoal na eleição de aliados latino-americanos. A declaração, feita a jornalistas na Casa Branca, ganha dimensão especial porque ocorre a poucas semanas da eleição presidencial brasileira e num momento em que Washington intensificou sua presença política, econômica e estratégica no hemisfério.
Trump não mencionou nominalmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao falar sobre a relação com o Brasil. O contexto de sua resposta, entretanto, foi explicitamente político. Questionado sobre a estratégia dos Estados Unidos para a América do Sul — inclusive sobre a possibilidade de instalação de bases militares norte-americanas no continente —, o presidente preferiu falar sobre eleições, governos aliados e a expansão da direita na região. Ele não respondeu diretamente à pergunta sobre novas bases militares.
“Eles eram de esquerda e estão indo para a direita. Todos estão indo para a direita agora”, afirmou Trump. Logo depois, acrescentou: “Temos uma boa relação com o Brasil, uma boa relação com todos lá agora”. Segundo ele, os governos latino-americanos atualmente demonstram um nível de “respeito” pelos Estados Unidos que não existiria dois anos atrás, durante a administração de Joe Biden.
A frase sobre o Brasil, isoladamente, poderia ser interpretada como mais uma manifestação diplomática destinada a sinalizar uma redução das tensões entre Brasília e Washington. Inserida no restante da declaração, porém, ela ganha significado político mais complexo. Trump não estava apenas descrevendo relações entre Estados. Estava comemorando uma mudança ideológica na América Latina e associando explicitamente a expansão de governos de direita ao fortalecimento da posição dos Estados Unidos no hemisfério.
Mais importante ainda, o presidente norte-americano reivindicou participação pessoal nesse processo.
Trump citou o atual presidente colombiano Abelardo de La Espriella, conhecido como “El Tigre”, e afirmou que declarou apoio ao candidato quando ele disputava a Presidência da Colômbia contra vários adversários. Também mencionou a Argentina e disse haver “muitas pessoas” que ajudou a eleger na região. A ANSA registrou a declaração de Trump de que existem “muitas pessoas que ajudei a eleger”, enquanto a cobertura da CNN destacou especificamente os casos colombiano e argentino.
A afirmação é politicamente relevante porque parte do próprio presidente dos Estados Unidos. Não se trata, portanto, de uma acusação formulada por seus adversários sobre uma suposta tentativa de influência norte-americana na política regional. É Trump apresentando sua capacidade de ajudar aliados eleitorais como demonstração do fortalecimento dos Estados Unidos na América Latina.
Isso não significa, por si só, comprovar interferência ilegal em processos eleitorais. Apoiar publicamente candidatos estrangeiros, estabelecer alianças políticas ou declarar preferência por determinado campo ideológico não é equivalente a manipular clandestinamente uma eleição. Essa distinção precisa ser preservada. O que a declaração demonstra objetivamente é que Trump considera legítimo utilizar o peso político da Presidência norte-americana para favorecer lideranças estrangeiras alinhadas ao seu projeto e posteriormente contabilizar suas vitórias como parte do avanço estratégico dos Estados Unidos no continente.
É justamente essa combinação que torna a fala especialmente importante para o Brasil.
A eleição presidencial brasileira acontece num contexto regional profundamente diferente daquele existente no início do terceiro mandato de Lula, em janeiro de 2023. Trump voltou à Casa Branca, governos conservadores e de direita ampliaram espaço em diferentes países latino-americanos e Washington passou a formular de maneira cada vez mais explícita uma política hemisférica baseada na ideia de recuperação da primazia dos Estados Unidos sobre seu entorno estratégico. O próprio governo Trump já utilizou oficialmente uma linguagem segundo a qual este é “nosso hemisfério”, formulação empregada pela Casa Branca ao divulgar declarações do secretário de Estado Marco Rubio no início deste ano.
É nesse ambiente que a frase sobre a “boa relação” com o Brasil precisa ser interpretada.
Ela pode representar um movimento pragmático de Trump em relação ao governo Lula depois de um período de fortes tensões. Mas não significa necessariamente aproximação política entre os dois presidentes. A ausência do nome de Lula foi observada por diferentes veículos que acompanharam a declaração. Trump falou positivamente do Brasil enquanto, na mesma resposta, exaltava aliados ideológicos e descrevia o deslocamento da América Latina para a direita como uma conquista.
Há, portanto, duas camadas funcionando simultaneamente. No plano diplomático, Washington sinaliza que consegue manter relações com Brasília. No plano político, Trump deixa claro que prefere uma América Latina governada por aliados ideológicos e considera suas vitórias eleitorais positivas para os interesses norte-americanos.
Essa separação entre relações de Estado e preferências políticas será fundamental nos próximos meses.
Brasil e Estados Unidos são economias profundamente conectadas e mantêm relações diplomáticas, comerciais, militares, científicas e empresariais que não podem ser reduzidas à afinidade entre dois presidentes. Lula e Trump podem administrar pragmaticamente divergências porque ambos governam Estados com interesses permanentes. Ao mesmo tempo, nada impede que Trump considere eleitoralmente desejável uma mudança de governo no Brasil.
A experiência recente demonstra que o presidente norte-americano está disposto a relacionar política comercial e questões internas brasileiras. Em julho de 2025, a Casa Branca publicou uma ordem executiva intitulada “Addressing Threats to the United States by the Government of Brazil”, na qual justificou medidas comerciais extraordinárias com argumentos que ultrapassavam amplamente o comércio e alcançavam disputas políticas e institucionais brasileiras.
Esse precedente torna especialmente sensível qualquer declaração de Trump sobre eleições latino-americanas.
Não porque sua fala desta quarta-feira prove que exista uma operação norte-americana destinada a determinar o resultado da eleição brasileira — as informações disponíveis não permitem fazer essa afirmação —, mas porque o próprio presidente dos Estados Unidos estabelece publicamente uma relação entre alinhamento ideológico dos governos regionais, influência eleitoral e fortalecimento da posição norte-americana no hemisfério.
A questão central, portanto, ultrapassa Trump.
Historicamente, a América Latina ocupa posição estratégica na política externa dos Estados Unidos desde o século XIX. A Doutrina Monroe, proclamada em 1823, nasceu formalmente como oposição à intervenção das potências europeias nas Américas, mas progressivamente serviu de fundamento para uma concepção segundo a qual Washington possuiria interesses especiais de segurança e influência política no hemisfério. Durante o século XX, essa visão esteve associada a intervenções militares, operações clandestinas, apoio a golpes, pressão econômica e participação norte-americana direta ou indireta em conflitos políticos latino-americanos.
O século XXI não reproduz mecanicamente aquele cenário. China tornou-se uma potência econômica central na América Latina; Rússia mantém relações estratégicas com alguns governos; os BRICS ampliaram seu peso internacional; países latino-americanos possuem sociedades civis mais complexas, instituições democráticas consolidadas em diferentes graus e uma estrutura de relações internacionais muito mais diversificada. É justamente por isso que a disputa pelo hemisfério adquiriu novas formas.
Hoje, influência não depende necessariamente de tropas desembarcando ou governos sendo derrubados.
Pode passar por tarifas, crédito, tecnologia, infraestrutura digital, cadeias de suprimentos, sanções, inteligência, cooperação militar, plataformas de comunicação, investimentos, apoio político e capacidade de influenciar o ambiente informacional no qual eleições são disputadas.
Nesse contexto, o Brasil ocupa posição singular. É a maior economia da América Latina, possui mais de 200 milhões de habitantes, controla enorme parcela territorial da América do Sul, abriga a maior parte da Amazônia, possui petróleo, alimentos, água, minerais críticos e uma base industrial relevante. Ao mesmo tempo, participa dos BRICS, mantém parceria econômica central com a China e defende historicamente uma política externa baseada em autonomia, multilateralismo e diversificação de relações.
O Brasil não é apenas mais uma peça do tabuleiro latino-americano.
É um dos países capazes de influenciar a própria configuração do tabuleiro.
Por isso, uma mudança de orientação estratégica em Brasília possui consequências que ultrapassam as fronteiras nacionais. Um governo brasileiro alinhado automaticamente a Washington modificaria a correlação de forças regional; um Brasil que preserve autonomia diante dos Estados Unidos e simultaneamente aprofunde relações com China, BRICS e Sul Global produz outro equilíbrio.
Essa realidade ajuda a explicar por que a eleição brasileira possui importância internacional.
Trump não precisou citar Lula nem qualquer candidato brasileiro para que sua declaração adquirisse significado eleitoral. Ao afirmar que ajudou a eleger lideranças em outros países, celebrar a passagem da América Latina “da esquerda para a direita” e imediatamente mencionar a boa relação com o Brasil, o presidente norte-americano colocou os três elementos dentro da mesma narrativa política.
Isso não autoriza afirmar que Trump anunciou apoio a um candidato brasileiro.
Mas autoriza perguntar qual papel Washington pretende desempenhar diante da eleição da maior potência latino-americana, sobretudo depois de o próprio presidente norte-americano reivindicar influência em eleições de países vizinhos.
A pergunta feita a Trump na Casa Branca acrescenta ainda outro elemento que merece atenção: bases militares. O presidente foi questionado sobre a possibilidade de criação de bases norte-americanas na América do Sul, mas não respondeu diretamente a esse ponto, preferindo deslocar sua resposta para o avanço político da direita e para as boas relações dos Estados Unidos com os governos regionais.
O silêncio não permite concluir que exista um plano específico de novas bases. Seria especulativo afirmar isso sem documentação adicional. Mas o simples fato de a questão surgir no contexto da atual política hemisférica norte-americana demonstra como segurança, política e disputa geopolítica voltaram a convergir no debate sobre a América Latina.
A declaração de Trump, portanto, não deve ser reduzida nem a uma frase cordial sobre o Brasil nem transformada artificialmente numa prova de intervenção eleitoral.
Seu significado está precisamente no conjunto.
O presidente da maior potência militar do planeta declarou que a América Latina está mudando de orientação ideológica, afirmou ter contribuído para a eleição de aliados, comemorou a expansão da direita, associou essa mudança ao aumento do “respeito” pelos Estados Unidos e incluiu o Brasil na descrição de um hemisfério com o qual Washington agora afirma possuir boas relações.
Para o Brasil, a resposta estratégica não deveria ser escolher entre hostilidade automática aos Estados Unidos ou subordinação a Washington. Uma política externa soberana precisa ser capaz de manter relações produtivas com os norte-americanos e simultaneamente impedir que qualquer potência estrangeira — Estados Unidos, China, Rússia ou qualquer outra — adquira capacidade de condicionar as decisões políticas fundamentais do país.
É justamente essa autonomia que estará em disputa num mundo cada vez mais multipolar.
A fala de Trump deixa claro que Washington enxerga a orientação política da América Latina como variável estratégica. Para ele, governos ideologicamente próximos significam uma região mais favorável aos Estados Unidos. Ao reivindicar participação na vitória de aliados, o presidente norte-americano praticamente elimina qualquer dúvida sobre sua disposição de utilizar seu próprio peso político nas disputas regionais.
Às vésperas da eleição brasileira, portanto, a frase mais importante talvez não seja “temos uma boa relação com o Brasil”.
É a frase que veio junto dela.
Trump está dizendo que a América Latina está mudando de lado — e que os Estados Unidos ajudaram essa mudança a acontecer.
Para um país do tamanho e da importância do Brasil, isso não é apenas uma declaração sobre política latino-americana.
É um sinal de que a disputa eleitoral brasileira também será observada em Washington como parte da disputa pelo futuro geopolítico do hemisfério.