Sakamoto: Mendonça diz que fumou, mas que não tragou Vorcaro

André Mendonça toma posse como ministro do TSE ao lado da presidente do tribunal, Cármen Lúcia. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Mendonça garantiu que a reunião ocorreu por iniciativa do empresário e que se limitou a ouvi-lo. É uma declaração esculpida na escola Bill Clinton de desculpas. Quando o então candidato à Presidência dos Estados Unidos foi acusado de ter fumado maconha, veio, em 1992, com uma pérola que se tornou antológica: fumei, mas não traguei.

A fumaça do encontro entre Mendonça e Vorcaro, no entanto, é bastante densa. A reunião secreta ocorreu no dia 14 de março de 2025, longe dos holofotes do Supremo Tribunal Federal. O palco foi a alameda Santos, na região da avenida Paulista, em São Paulo, mais especificamente no Instituto ITER, uma instituição de ensino fundada pelo próprio Mendonça.

As conversas vazadas revelam que a aproximação foi exaustivamente costurada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).

Ciro, em uma demonstração de intimidade que beira o compadrio, enviou áudios a Vorcaro afirmando estar “trabalhando” por ele, relatando ter levado Mendonça a uma alfaiataria em São Paulo. “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”, disse o advogado em áudio enviado em 8 de fevereiro de 2025.

O advogado gabou-se de que Mendonça queria receber o banqueiro e já estava ciente de “toda” a situação envolvendo o Banco Central.

A reportagem é de Paulo Motoryn e foi publicada no ICL Notícias. Ele foi um dos responsáveis pela investigação que mostrou relações promíscuas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro publicada no Intercept Brasil.

Pego no contrapé pelo vazamento de mensagens, Mendonça precisou admitir a reunião ao jornal O Estado de S. Paulo e em nota oficial enviada ao UOL. Tentando dissipar a névoa, o magistrado argumentou que o tema da conversa foi o pagamento de precatórios.

Afirmar que apenas emprestou seus ouvidos e não tomou atitudes ativas soa como um malabarismo retórico para tentar normalizar o cheiro ruim.

André Mendonça mandou produzir um relatório-dossiê sobre seu colega Alexandre de Moraes, com base nas mensagens em que o banqueiro Daniel Vorcaro o tratava como seu lobista e advogado particular. Há suspeitas de que crimes possam ter sido cometidos. Contudo, a PGR diz que Mendonça atropelou as regras, comparando-o praticamente ao então juiz Sergio Moro, e apontando nulidade do documento.

Daniel Vorcaro. Foto: Reprodução

O caos, contudo, já está instalado e pode beneficiar eleitoralmente alguém. Desconfio que, contra a vontade dos envolvidos, será Augusto Cury (Avante).

Se até o ministro que acusou o colega aparecer na Vorcarosfera, a eleição ganha o cenário perfeito para o escritor de auto-ajuda, com muita gente na mesma alfaiataria do poder.

Vale ressaltar que todos são inocentes até que se prove o contrário dentro do devido processo legal. Mas Mendonça, que se beneficiou de vazamentos, agora sente o impacto deles.

No Brasil, parte da elite financeira e das togas andam juntas, frequentam os mesmos institutos privados e dividem os mesmos alfaiates de luxo. Resta saber quem, de fato, está pagando a conta dos ternos.

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