Haddad vê “decomposição” da educação pública e cobra virada em SP

Em sua passagem pelo Roda Viva, da TV Cultura, na noite desta segunda-feira (31), o candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (coligação Desperta São Paulo), dedicou-se a detalhar suas propostas para áreas críticas como educação e saúde. Na educação, Haddad concentrou sua crítica na perda de desempenho do ensino médio paulista. Para o candidato, o resultado não pode ser explicado apenas por uma variação estatística: seria consequência de problemas na política educacional adotada atualmente pelo Estado.

Questionado sobre a queda de São Paulo no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), ele classificou o resultado como “um absurdo”. Segundo os dados mencionados no programa, o Estado passou da terceira posição em 2021 para a décima em 2025, enquanto a nota recuou de 4,4 para 4,3. Haddad afirmou que São Paulo já ocupou a primeira posição nacional e que estados como Espírito Santo, Goiás, Pernambuco, Piauí e Ceará passaram a apresentar desempenho superior.

Valorização dos professores

Entre as principais propostas apresentadas está a retomada dos concursos públicos para professores. Haddad criticou a elevada (47%) participação de docentes contratados temporariamente.

Ele também defendeu a valorização das licenciaturas e a criação de mecanismos de formação inicial e continuada dos professores. A proposta é tratar o professor como parte central da transformação da escola, e não como obstáculo às mudanças.

Crítica à “plataformização” do ensino

Segundo ele, houve uma substituição inadequada do material didático e dos programas estruturados por ferramentas digitais acompanhadas de uma carga excessiva de tarefas burocráticas para os professores. O problema não seria a tecnologia em si, mas a forma como ela estaria sendo utilizada, sem produzir melhoria correspondente na relação entre ensino e aprendizagem.

Ele citou ainda problemas de infraestrutura: segundo sua afirmação durante o programa, cerca de um terço das escolas estaduais não teria banda larga suficiente para atender às próprias exigências da Secretaria da Educação.

Meta: recolocar São Paulo entre os melhores

Outra prioridade apresentada foi a ampliação do ensino médio em tempo integral. A educação profissional também foi alvo de críticas. Para o candidato, ela não deve funcionar isoladamente, mas estar articulada à preparação do estudante para o ensino superior, priorizando conteúdos teóricos e científicos em detrimento de uma formação estritamente técnica.

Ele defendeu, portanto, uma revisão mais ampla do sistema estadual de ensino. Haddad afirmou que sua meta seria fazer São Paulo voltar, no mínimo, ao grupo dos cinco melhores sistemas de ensino do país.

Para alcançar esse resultado, enumerou medidas como concursos públicos, valorização dos professores, formação continuada, melhoria do material didático, expansão do ensino integral e reorganização da educação profissional.

A ideia central apresentada no programa foi a de que uma mudança estrutural na educação paulista precisaria ser construída com os professores, e não contra eles. “Você não faz contra o professor uma reforma, você faz com o professor uma reforma”, afirmou.

Saúde: gestão das filas é prioridade

Ao ser questionado sobre as longas filas para consultas, exames e cirurgias no Sistema Único de Saúde (SUS), Haddad afirmou que São Paulo enfrenta, além dos efeitos do represamento provocado pela pandemia, um problema de gestão.

No recorte dedicado à saúde e à educação, Haddad apresentou, assim, duas propostas baseadas sobretudo em gestão e reorganização dos serviços públicos: na saúde, integração de informações, gestão inteligente das filas e ampliação da capacidade de atendimento; na educação, valorização docente, recuperação da estrutura pedagógica e retomada do desempenho paulista nos indicadores nacionais.

O candidato citou como exemplo o sistema estadual de regulação, o Cross (Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde), que, segundo ele, está desatualizado e não permite uma administração inteligente das filas. Haddad criticou o modelo em que o paciente precisa passar sucessivamente por diferentes filas — primeiro para consulta, depois para exame e, finalmente, para cirurgia —, processo que, segundo ele, pode levar até dois anos.

A proposta apresentada é substituir esse modelo fragmentado por uma lógica de cuidado integral, na qual o tratamento do paciente seja contratado como um conjunto de procedimentos, evitando que cada etapa gere uma nova espera.

Haddad também defendeu a ampliação dos chamados hospitais-dia, destinados a procedimentos que não exigem internação prolongada. A medida, segundo ele, permitiria liberar leitos hospitalares para casos de maior gravidade.

Outra proposta é criar um painel de controle dos leitos disponíveis em todo o Estado, permitindo identificar em tempo real onde existem vagas e para onde pacientes devem ser encaminhados. Haddad afirmou que atualmente faltaria essa integração, inclusive entre o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e a rede hospitalar.

O candidato citou a experiência do Piauí, onde, segundo ele, um sistema de inteligência voltado à gestão da rede conseguiu reduzir em 26% as mortes por infarto.

Farmácia Popular com atendimento móvel

Haddad também propôs levar para São Paulo uma modalidade móvel do Farmácia Popular.

A ideia é fazer com que medicamentos cheguem diretamente a pessoas que têm dificuldades para se deslocar até os pontos de distribuição. Ele mencionou especialmente pacientes que enfrentam dificuldades para receber medicamentos de alto custo.

A proposta, segundo o candidato, seria combinar a distribuição de medicamentos com ferramentas de saúde digital e mecanismos de acompanhamento dos pacientes.

Mais leitos e novas estruturas

Para Haddad, a reorganização da gestão das filas precisa ser acompanhada de investimentos físicos na rede.

Ele defendeu a construção de novas unidades e a ampliação de estruturas existentes, incluindo hospitais-dia, unidades básicas de saúde e unidades de pronto atendimento.

O candidato também mencionou a situação das Santas Casas, que considera fundamentais para a assistência à saúde no Estado. Uma de suas propostas é criar uma central de compras para essas instituições, reunindo poder de negociação e reduzindo os preços dos insumos.

Segundo Haddad, uma experiência semelhante realizada com hospitais universitários federais permitiu reduções de 40% a 60% nos preços de determinados produtos.

Outra frente seria a renegociação das dívidas das Santas Casas, com condições financeiras mais favoráveis.

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