
O cinema brasileiro já iniciou a disputa para escolher o filme que representará o país no Oscar 2027. A Academia Brasileira de Cinema divulgou uma relação com 15 longas habilitados para concorrer à indicação na categoria de melhor filme internacional. A definição ocorre após duas temporadas de forte presença nacional na principal premiação de Hollywood.
A comissão responsável pela escolha, formada por 15 profissionais do audiovisual brasileiro, se reúne no dia 9 para reduzir a lista a seis finalistas. O representante oficial do Brasil será anunciado no dia 16. A cerimônia do Oscar 2027 está marcada para 14 de março.
O país chega à nova disputa depois de resultados históricos. Em 2025, “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, conquistou o primeiro Oscar do Brasil de melhor filme internacional. Em março deste ano, “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, disputou quatro categorias, igualando o recorde brasileiro de indicações alcançado por “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles e Katia Lund, mas terminou a cerimônia sem estatuetas.
O cenário para 2027, porém, apresenta uma diferença em relação às duas campanhas anteriores. “Ainda estou aqui” havia conquistado o prêmio de melhor roteiro para Murilo Hauser e Heitor Lorega no Festival de Veneza. Já “O agente secreto” ganhou em Cannes os prêmios de melhor ator, com Wagner Moura, e melhor direção, com Kleber Mendonça Filho. Em 2026, nenhum longa brasileiro participou das competições principais dos festivais de Berlim, Cannes e Veneza.
Apesar disso, algumas produções brasileiras passaram por importantes festivais internacionais. “Feito pipa”, de Allan Deberton, e “Nosso segredo”, de Grace Passô, foram apresentados em mostras do Festival de Berlim. “Vicentina pede desculpas”, de Gabriel Martins, integra a programação do Festival de Toronto e também participa dos festivais de San Sebastián e do Rio.
Durante passagem pelo Festival de Cinema de Gramado, o produtor Rodrigo Teixeira, ligado a produções vencedoras do Oscar como “Me chame pelo seu nome” e “Ainda estou aqui”, citou esses três títulos ao analisar as chances brasileiras. Ele também chamou atenção para a concorrência internacional na disputa pela próxima edição da premiação.
“São três grandes filmes, de três grandes realizadores, mas é um ano difícil, com grande competição. Temos ‘Fjord’, de Cristian Mungiu, ‘Minotauro’, de Andrey Zvyagintsev, e ‘La bola negra’, de Javier Calvo e Javier Ambrossi”, afirmou Teixeira.
O produtor também destacou a importância da distribuição no mercado americano para uma campanha competitiva. “Quero que o Brasil vá todos os anos para o Oscar. Mas é preciso ter uma boa distribuição nos Estados Unidos. Temos que fazer esse filme ser visto para 11 mil votantes. Sem distribuição nos Estados Unidos, acho difícil investir numa campanha ao Oscar. É muito caro.”
Entre os candidatos está “Vicentina pede desculpas”, dirigido por Gabriel Martins, de “Marte um”. Rejane Faria interpreta uma mãe que enfrenta as consequências da morte do filho Wesley, motorista de um ônibus envolvido em uma tragédia. Durante a investigação, surgem indícios de que a ação dele poderia ter sido proposital. Em meio ao luto, Vicentina procura as famílias das vítimas para pedir desculpas. O longa chega aos cinemas brasileiros em 5 de novembro e à Netflix no dia 20 do mesmo mês.

Outro concorrente é “Feito pipa”, de Allan Deberton, vencedor do Urso de Cristal na Generation Kplus do Festival de Berlim e de quatro Kikitos em Gramado, entre eles o de melhor filme pelo júri popular.
A história acompanha Gugu (Yuri Gomes), menino apaixonado por futebol que vive com a avó Dilma (Teca Pereira). Quando ela apresenta problemas de saúde, ele tenta esconder a situação para evitar morar com o pai, interpretado por Lázaro Ramos. A estreia nos cinemas está marcada para 5 de novembro.
“Nosso segredo”, de Grace Passô, também aparece entre os habilitados. Vencedor do Kikito de melhor filme no Festival de Gramado e exibido em Berlim, o drama acompanha uma família negra que tenta reconstruir a rotina depois de uma perda.
Ju Colombo, Robert Frank, Efraim Santos, Jéssica Gaspar e Flip estão no elenco. A produção contou ainda com consultoria de roteiro de Ana Maria Gonçalves, integrante da Academia Brasileira de Letras e autora de “Um defeito de cor”. O longa está em cartaz nos cinemas brasileiros.
A lista inclui ainda “100 dias”, de Carlos Saldanha. Filipe Bragança interpreta Amyr Klink na adaptação de “Cem dias entre céu e mar”, livro escrito pelo navegador sobre sua travessia solitária pelo Atlântico Sul em um barco a remo. Elena Soarez e Thais Tavares assinam o roteiro. A estreia está prevista para 29 de outubro.
O documentário “A fabulosa máquina do tempo”, de Eliza Capai, também busca a indicação. Apresentado na Generation Kplus do Festival de Berlim e em eventos internacionais como Guadalajara, Shanghai, Karkow e Cartagena, o filme acompanha meninas do sertão do Piauí que imaginam uma máquina do tempo para conhecer as histórias de suas mães e avós.
No CinePE, recebeu prêmios de melhor filme pelo júri da crítica, direção, trilha sonora e atriz. A produção estreou nos cinemas em 30 de julho e permanece em salas selecionadas.
Vencedor do Festival de Gramado de 2025, “Cinco tipos de medo”, de Bruno Bini, conta com Viola Davis como produtora executiva por meio de sua companhia, Ashé. Bella Campos, João Vitor Silva, Xamã, Bárbara Colen, Rui Ricardo Diaz e Rejane Farias integram o elenco.
A trama reúne personagens envolvidos em histórias de luto, relacionamento abusivo, vingança e interesses ocultos. O filme está disponível no Telecine, via Globoplay, Amazon Prime Video e operadoras.

“O rei da internet”, protagonizado por João Guilherme, é baseado na história de Daniel Nascimento, que antes dos 17 anos invadiu servidores no Brasil e no exterior e se tornou alvo da primeira grande operação da Polícia Federal contra crimes virtuais no país.
Marcelo Serrado, Emílio de Mello, Bia Seidl, Débora Ozório, Caio Horowicz, Kaik Pereira, Miguel Nader, Clarissa Müller, Adriano Garib e Eri Johnson completam o elenco. O filme está no Telecine, via Globoplay, Amazon Prime Video e operadoras, e terá distribuição nos Estados Unidos e Canadá pela Magenta Light Studios.
“A natureza das coisas invisíveis”, de Rafaela Camelo, também disputa a vaga. Exibido nos festivais de Berlim e Gramado, o longa acompanha Glória (Laura Brandão), de 10 anos, durante as férias no hospital onde a mãe trabalha como enfermeira. Lá, ela conhece Sofia (Serena), que visita a bisavó internada. Rafaela Camelo recebeu o Grande Otelo de melhor direção de estreia pelo trabalho. O filme está disponível na Netflix.
Selecionado para o Festival de Berlim de 2025, “Ato noturno”, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, acompanha um ator que busca sua primeira grande oportunidade em um grupo teatral de Porto Alegre enquanto enfrenta uma rivalidade com o colega de apartamento. O longa está disponível para aluguel ou compra digital no Google Play, Apple TV, Amazon Prime Video e YouTube.
“Dolores”, dirigido por Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar, traz Carla Ribas como uma mulher de 65 anos que sonha em abrir um cassino e mantém uma relação difícil com a filha, vivida por Naruna Costa. O filme passou pelos festivais de Roterdã, San Sebastián, Tiradentes e Rio. Lançado nos cinemas em 4 de junho, ainda não está disponível em serviços de streaming ou VOD.
“Malês”, segundo longa dirigido por Antônio Pitanga, aborda a Revolta dos Malês, ocorrida em Salvador em 1835. O diretor atua ao lado dos filhos Rocco Pitanga e Camila Pitanga. Samira Carvalho, Rodrigo de Odé, Bukassa Kabengele, Patrícia Pillar e Indira Nascimento completam o elenco principal, e Manuela Dias assina o roteiro. O filme está disponível no Telecine, via Globoplay, Amazon Prime Video e operadoras, além de plataformas de VOD.
“A conspiração Condor”, de André Sturm, aborda as circunstâncias das mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart durante o regime militar. Mel Lisboa interpreta Silvana, jornalista que investiga os dois episódios. Dan Stulbach, Maria Manoella e Pedro Bial, que aparece como Carlos Lacerda, também estão no elenco. O longa pode ser encontrado em plataformas de VOD e continua em cartaz no Cine Belas Artes, em São Paulo.
“Papagaios”, de Douglas Soares, acompanha Tunico, personagem de Gero Camilo que busca notoriedade aparecendo ao fundo de reportagens televisivas como “papagaio de pirata”. Ele passa a orientar Beto, interpretado por Ruan Aguiar, jovem que desenvolve uma obsessão pela própria imagem. Exibido no Festival de Gramado de 2025, o longa chegou aos cinemas em abril e ainda não está disponível em streaming ou VOD.
“Herança de Narcisa”, dirigido e escrito por Clarissa Appelt e Daniel Dias, reúne Paolla Oliveira e Rosamaria Murtinho em um drama sobrenatural sobre ancestralidade feminina e conflitos emocionais entre mãe e filha. Lançado em 9 de julho, o filme permanece em algumas salas brasileiras e ainda não chegou às plataformas de streaming ou VOD.
Completa a lista o documentário “Quando vira a esquina”, de Chris Alcazar sobre personagens que trabalham na Vila Mimosa, no Rio de Janeiro. A produção recebeu o prêmio de melhor trilha sonora no Festival do Rio de 2024 e está disponível no Doc Canal Brasil, via Amazon Prime Video. A escolha entre esses 15 títulos definirá qual produção tentará manter o Brasil em evidência na disputa pelo Oscar de melhor filme internacional.