Grupo de judeus lança manifesto por Lula após indicação de Lottenberg por Flávio Bolsonaro

Cláudio Lottenberg em evento
Cláudio Lottenberg em jantar de confraternização do grupo Prerrogativas. Foto: Reprodução

O coletivo Judias e Judeus Pela Democracia lançou no sábado (29) um manifesto em apoio à reeleição do presidente Lula (PT) e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). A iniciativa ganhou 1.120 assinaturas até a manhã desta segunda-feira (31) e foi antecipada após Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciar Cláudio Lottenberg como seu futuro ministro da Saúde, caso vença a eleição presidencial de outubro, segundo a coluna de Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo.

O grupo discutia a carta havia algumas semanas, sem data prevista para divulgá-la. A entrevista de Flávio à TV Globo, na semana anterior, levou o coletivo a tornar pública sua posição e a afirmar que Lottenberg não representa a comunidade judaica ao apoiar o bolsonarismo.

Na convocação para assinaturas, os organizadores escreveram: “depois de Flávio Bolsonaro anunciar Cláudio Lottenberg como ministro da Saúde — e nós já conhecemos bem essa história —, resolvemos adiantar e tornar pública a posição de muitos judeus e judias de esquerda: não estamos associados ao bolsonarismo”.

Lottenberg é oftalmologista, preside o conselho deliberativo da entidade que administra o Hospital Israelita Albert Einstein e também comanda a Confederação Israelita do Brasil (Conib). A assessoria de Flávio Bolsonaro e o médico não se manifestaram quando procurados.

Flávio Bolsonaro em entrevista ao Jornal Nacional na última sexta (28). Foto: Manoella Mello/TV Globo

Texto cita democracia, direitos humanos e SUS

O manifesto declara apoio à chapa Lula-Alckmin nas eleições de 2026 e aponta o que seus signatários classificam como risco à democracia. “Discursos autoritários, inconstitucionais e de ameaça aos direitos humanos voltam a ocupar o espaço público como se fossem propostas políticas legítimas”, diz o texto.

Os autores criticam a normalização de falas como “polícia atira para matar”, além de propostas de regimes de exceção, perseguição a grupos sociais e retirada de direitos. Para o coletivo, a democracia não pode tratar como opinião comum discursos que transformam adversários em inimigos e fazem da violência um projeto político.

A carta relaciona a posição política à memória de perseguições enfrentadas por judeus e defende direitos humanos, lutas sociais, o SUS, igualdade racial e justiça social. Os signatários afirmam que essas conquistas permitem a diferentes grupos reivindicar direitos.

O documento diz que o apoio a Lula e Alckmin não representa a ideia de que a democracia brasileira está pronta ou de que a chapa contempla todas as mudanças desejadas pelo grupo. A carta sustenta que há diferença entre ampliar direitos dentro da democracia e permitir o avanço de projetos que ameaçam as condições dessa disputa.

Entre os nomes que assinam o manifesto estão Carlos Minc Baumfeld, Fabio Tofic Simantob, Iris Kantor, Jaques Morelenbaum, Lia Vainer Schucman, Lilia Katri Moritz Schwarcz, Diego Lajst, Manuela Ligeti Carneiro da Cunha, Natalia Timerman, Raquel Rolni e Tatiana Salem Levy.

Apoiadores de Lottenberg afirmaram que a indicação por Flávio Bolsonaro não tem relação com a religião do médico e atribuem a escolha à sua capacidade técnica à frente do Einstein.

Leia o manifesto na íntegra:

Diante, mais uma vez, da ameaça à frágil democracia que construímos no Brasil, nós, judias e judeus, nos manifestamos publicamente em apoio à chapa Lula e Alckmin nas eleições de 2026. Fazemos essa escolha face a uma sociedade em que discursos autoritários, inconstitucionais e de ameaça aos direitos humanos voltam a ocupar o espaço público como se fossem propostas políticas legítimas.

Não podemos normalizar discursos como “polícia atira para matar”, nem propostas de regimes de exceção, perseguição a grupos sociais e retirada de direitos sendo defendidas em rede pública como parte natural do debate democrático. Uma democracia não pode tratar como apenas mais uma opinião aquilo que ameaça a própria democracia, transforma adversários em inimigos e faz da violência um projeto político.

Assinamos este manifesto também em lembrança de nossas histórias. Sabemos o que significa uma sociedade aceitar pouco a pouco o autoritarismo, a perseguição e a construção de grupos humanos como inimigos. Por isso, nossa memória nos convoca à defesa dos direitos humanos, das lutas sociais, do SUS, da igualdade racial, da justiça social e de todas as conquistas democráticas que permitem que diferentes grupos lutem por seus direitos.

Nosso apoio a Lula e Alckmin não significa acreditar que a democracia brasileira esteja pronta, nem que todas as transformações que desejamos estejam representadas nessa chapa. Significa reconhecer que há uma diferença fundamental entre lutar para ampliar direitos dentro de uma democracia e permitir que avancem projetos que ameaçam as próprias condições dessa luta. Defendemos uma sociedade em que nossas diferenças não sejam transformadas em ódio, perseguição ou inimigos a serem eliminados. Em 2026, estamos com Lula e Alckmin em defesa da democracia e da possibilidade de continuarmos lutando por ela.

Artigo Anterior

Manipulação do cenário nas eleições de 2026, por Ludimila Cindra

Próximo Artigo

Assédio eleitoral dispara em agosto e já soma 223 denúncias em 2026

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!