Brasil e Canadá têm muitas semelhanças. Ambos têm extensão continental, uma agricultura vigorosa e uma dependência similar dos Estados Unidos. Além disso, ambos foram alvos de tarifas retaliatórias por parte da administração Trump.
As semelhanças terminam aí.
Quando surge uma pressão externa (seja econômica, tecnológica ou diplomática), o Canadá tende a reagir como Estado, mesmo que o governo e a oposição discordem quanto ao método. O tema da soberania torna-se, assim, um debate público legítimo e transversal.
No Brasil, a soberania frequentemente é tratada como “narrativa”, rebaixada a ruído ideológico, e parte relevante das elites (políticas e midiáticas) atua como vetor de acomodação — sobretudo quando a pressão vem dos Estados Unidos.
O resultado prático é um país no qual a ameaça externa tende a produzir um pacto de defesa institucional (Canadá) e outro onde essa mesma ameaça pode ser capturada pela polarização interna e por interesses econômicos dependentes, reduzindo a sua capacidade de resposta (Brasil).
Vamos a uma análise comparativa dos principais atores políticos em cada país:
1) Opinião pública: patriotismo institucional x polarização vulnerável
Canadá
- A opinião pública costuma entender pressões americanas como tema nacional, não como “defesa do governo do dia”. Mesmo em um país culturalmente integrado aos EUA, há uma fronteira psicológica clara: o Canadá não se governa de Washington.
- Em crises, o debate é canalizado para perguntas objetivas: autonomia regulatória, cadeias produtivas, minerais críticos, energia, dados e segurança.
Brasil
- A opinião pública é frequentemente capturada por dois filtros:
- polarização interna (a reação converte-se em “torcida”);
- dependência econômica, financeira e tecnológica (a reação transforma-se em “medo de retaliação”).
- Isso expõe uma vulnerabilidade típica da guerra híbrida: diante de uma ameaça externa, uma parte do país interpreta qualquer reação como propaganda governamental, enquanto outra parte encara o tema com desconfiança conspiratória, diluindo a percepção do risco real.
2) Partidos e sistema político: consenso mínimo x veto informal e “dupla lealdade”
Canadá
- Em geral, há consenso mínimo sobre setores estratégicos e soberania regulatória. As disputas são sobre instrumentos (negociar, retaliar, modular regras, judicializar), não sobre o princípio.
- A oposição critica o governo, mas raramente abdica do enunciado básico: o interesse nacional é legítimo.
Brasil
- Muitas vezes, opera uma espécie de “dupla lealdade” política:
- uma vertente atua para sustentar coalizões internas (Congresso, corporações e redes);
- outra vertente busca garantir aceitação externa (Faria Lima, Washington, organismos internacionais e a busca por “credibilidade”).
- Em questões de soberania, isso gera um veto informal: o debate fica paralisado pela antecipação de custos (tarifas, sanções, fuga de capital e “ruído no mercado”), levando o sistema político a evitar a confrontação mesmo quando ela é estrutural.
3) Mídia: imprensa como barreira institucional x imprensa como correia de transmissão
O ponto decisivo é qual função a imprensa cumpre quando soberania vira questão concreta.
Canadá (tendência dominante)
- A imprensa tende a operar como uma instituição cívica de Estado: fiscaliza o governo, mas deixa evidente para o público quando há coerção econômica, tecnológica ou diplomática.
- Ainda que critique a gestão de turno, ela preserva a premissa central: soberania não é um “ponto de vista ideológico”, mas sim um interesse público material.
Brasil (tendência dominante)
- A grande imprensa frequentemente substitui o conceito de “interesse nacional” pelos eixos de “confiança externa” e “credibilidade de mercado”, tratando a soberania como se fosse um custo reputacional.
- Em ano eleitoral, esse padrão se intensifica: a soberania some do centro do debate, enquanto escândalos seletivos e enquadramentos morais consomem a energia pública.
Uma formulação sintética seria:
- No Canadá, diante de uma pressão americana, a mídia questiona: “O que o Canadá perde?”
- No Brasil, sob a mesma pressão, a mídia tende a perguntar: “O que o Brasil precisa fazer para não desagradar?”
4) Por que essa diferença? Raízes históricas e formações institucionais distintas
Não há uma causa única, mas sim um conjunto de raízes históricas que explicam por que dois países continentais, federativos e abundantes em recursos naturais adotam reações tão distintas quando a soberania entra em jogo.
Formação do Estado e instituições
Canadá
A formação nacional (Confederação, 1867) consolidou cedo um Estado com forte capacidade institucional e um padrão de legalidade e de administração pública que, com todos os limites, produziu confiança em regras.
A proximidade com os EUA não eliminou a necessidade de uma identidade distinta; ao contrário, reforçou a construção de mecanismos de proteção e negociação.
Brasil
O Estado brasileiro carrega a marca de uma longa herança colonial e escravista, além de uma história republicana em que as elites frequentemente se orientavam pela subordinação financeira externa.
O país alternou ciclos de fortalecimento estatal (1930–1980) com ciclos de desmontes e reacomodações externas. Essa oscilação enfraquece a capacidade de criar pactos duradouros sobre soberania.
Capitalismo, finanças e capacidade de “organizar capital”
Um contraste elucidativo: o Canadá começou cedo a exportar empresas e capital, enquanto o Brasil, apesar de ter construído um expressivo parque industrial, manteve-se longamente dependente de multinacionais em setores estratégicos.
- Light (1899): a São Paulo Tramway, Light and Power Company foi fundada em Toronto e passou a atuar no Brasil ainda no século XIX. Isso não significa que o Canadá já fosse próspero; o país ainda dependia de capital britânico e americano. A diferença crucial residia no fato de que o Canadá já dominava uma competência essencial: organizar o capital estrangeiro em empresas próprias, capazes de gerir concessões e realizar investimentos no exterior.
- O Brasil, no mesmo período, muitas vezes recebia capital e infraestrutura com organização empresarial feita fora, o que limitava a formação de centros nacionais de decisão econômica.
Em termos simples: o Canadá aprendeu cedo não apenas a ter capital, mas a montar máquinas institucionais para direcioná-lo.
Industrialização e relação com capital estrangeiro
- O Canadá teve alta presença de propriedade estrangeira, mas avançou para um padrão onde também se tornou exportador de capital.
- O Brasil passou por uma industrialização tardia e vigorosa (Vargas, BNDE, empresas estatais, Plano de Metas), contudo conviveu por décadas com uma estrutura “trípode” (Estado, capital privado nacional e multinacionais), na qual parte do comando tecnológico e decisório permaneceu fora do país.
Quando soberania exige conflito (tecnológico, financeiro, regulatório), o Canadá possui tradição de pacto institucional; o Brasil tem tradição de arranjos de acomodação, especialmente em momentos de dependência tecnológica e financeira.
Conclusão: a soberania como “tema partidário” é a vulnerabilidade
A guerra híbrida prospera em sociedades onde a soberania é reduzida a tema partidário: em vez de um pacto de Estado, geram-se divisões ideológicas e desmobilização.
A tarefa brasileira, portanto, não é “imitar o Canadá”. É construir um consenso mínimo nacional para que pressões externas — sobretudo tecnológicas, financeiras e informacionais — sejam tratadas como problema do país, e não como episódio de disputa eleitoral.
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