Embora a mídia e a esquerda venham falando sobre os possíveis efeitos de um Super El Niño no Brasil, pouco se tem dito sobre os possíveis impactos políticos. Esse texto é uma tentativa de expor alguns aspectos de como o fenômeno poderá impactar nas eleições.
O que esperar do Super El Niño no Brasil
O Boletim mensal 02 PAINEL EL NIÑO 2026-2027¹, produzido pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN), o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM), relata que há uma grande chance de acontecer um El niño de intensidade muito forte no Brasil com efeitos entre os meses de agosto de 2026 até fevereiro de 2027, atingindo o pico entre outubro e dezembro. Durante o Super El Niño, é esperado calor mais intenso em todo o Brasil, junto a secas intensas no Norte, Nordeste, Centro Oeste e maior parte do Sudeste. O calor e a seca aumentam também as probabilidades de queimadas e incêndios. Do Rio Grande do Sul até o sul dos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, são esperadas chuvas intensas com maiores chances de enchentes.
Impactos na agropecuária, inflação e popularidade do governo
Embora algumas poucas culturas de climas quentes e solos secos possam prosperar e gerar uma segunda safra, boa parte das culturas de alimentos sofrerão com o clima extremo. Hortaliças, frutas e produtos animais podem ser especialmente impactados com a falta de água e calor acima da média em algumas regiões. Enchentes no sul e queimadas no resto do país também podem levar a perdas de produção.
Os impactos na produção de alimentos são ainda piores quando somados ao fato de que nossos estoques públicos estão baixos em relação a outros momentos históricos. Eles não são suficientes para conter grandes baixas de oferta. Para se ter um comparativo, no início do ano de 2015, os estoques da CONAB de feijão estavam em cerca de 64 mil toneladas². Naquele ano, enfrentamos El Niño de intensidade muito forte que impactou diretamente na produção e colheita de grãos. Mesmo com a venda da maior parte dos estoques (cerca de 54 mil toneladas), a inflação de alimentos bateu 12,01%³, sendo o feijão um dos alimentos mais afetados⁴. Hoje contamos com um estoque muito menor, de cerca de 207 toneladas de feijão², e prestes a enfrentar uma situação climática semelhante. Além disso, alimentos perecíveis, que não possuem estoque, também poderão ser afetados. As reservas de outros alimentos, como demais grãos e farinhas, também estão baixas. Esses estoques nunca recuperaram os níveis de antes da crise de inflação do final do governo Dilma². O governo federal tem comprado alimentos estocáveis, mas não houve tempo e investimento para uma recuperação suficiente capaz de responder a grandes quebras de safras.
Os impactos na agropecuária também podem afetar as exportações, o que por sua vez afetam a balança comercial do Brasil e, consequentemente, o preço do Dólar. Somado ao possível aumento dos preços de alimentos, pode haver alta na inflação, podendo resultar em queda na popularidade do governo. Não sabemos afirmar, porém, qual será a extensão desses impactos e se acontecerão antes ou depois do período das eleições.
Campanhas de rua durante crises ambientais
Devemos avaliar também como o El Niño poderá impactar as campanhas de rua. Secas, enchentes, ondas de calor e piora na qualidade de ar por queimadas podem inviabilizar panfletagem em algumas regiões e em alguns horários estratégicos. As campanhas precisam estar atentas às previsões do tempo e aos alertas da segurança civil, para evitar ao máximo a perda de material e a mobilização ineficaz de recursos.
Possíveis dificuldades da população para avaliar corretamente verdadeiros culpados em casos de desastres e crises ambientais
Existem dois grandes erros possíveis que a população pode fazer ao avaliar o resultado de um desastre natural durante uma eleição. O primeiro é não enxergar culpados, como se as consequências de um desastre natural fossem totalmente inevitáveis. Precisamos ressaltar que a possibilidade de um Super El Niño já está sendo alertada por cientistas desde maio deste ano, além dos alertas constantes sobre o aquecimento global e eventos climáticos extremos. Muitos dos impactos como aumento da fome, inflação, enchentes e queimadas poderiam, sim, ser melhor mitigados com preparação prévia. Estamos nos aproximando do período do Super El Niño sem estoques suficientes de alimentos, sem funcionários e verbas suficientes para órgãos como o IBAMA⁵ para prevenção de queimadas, com flexibilização de leis ambientais e sem infraestrutura completa para prevenção de grandes enchentes em áreas mais vulneráveis. Todas essas situações desfavoráveis são consequência de decisões políticas.
O segundo erro é não compreender as responsabilidades de cada ente federativo. Dessa forma, uma tragédia que poderia ser evitada por ações da esfera estadual pode, por exemplo, afetar a popularidade do governo federal. Apesar disso, é inegável que todos os entes da federação estão cometendo erros e que estamos longe do preparo necessário para enfrentar eventos climáticos extremos de forma generalizada.
Problemas no dia da eleição
Em outubro, podemos já estar enfrentando as consequências dos eventos climáticos extremos, o que pode fazer com que pessoas em regiões mais vulneráveis tenham mais dificuldade de ir às urnas. Como a distribuição de votos em diferentes candidatos é muito regionalizada, ter regiões sofrendo com dificuldade de exercer seu direito de voto pode levar a questionamentos na validade do processo eleitoral em uma eleição que já será acirrada, com pouca diferença entre os candidatos especialmente no segundo turno. Além disso, não podemos nos esquecer que o clã Bolsonaro já questiona a legitimidade das eleições independente de desastres naturais. Se houver algum acontecimento atípico no dia das eleições, é muito fácil imaginar um cenário em que a situação seja utilizada para interferir no processo democrático, mesmo que o governo mobilize esforços e consiga garantir que todos possam votar.
Pautas climática podem entrar no centro da discussão política
Momentos de desastres ambientais são períodos favoráveis para o levantamento de pautas ambientais no debate público. Candidatos de esquerda tendem a ter mais domínio da causa, mas ainda assim há muita negligência no assunto. Candidaturas precisam de informação confiável para trazer respostas e propor ações, políticas e programas de proteção ambiental, resiliência climática e transição energética, especialmente em momentos como este, em que a população estará mais comovida com essas pautas.
Precisamos de políticos que defendam reivindicações como:
- Contra o arcabouço fiscal que limita verbas e ações de combate a crises climáticas;
- Pela contratação de mais funcionários no Ibama;
- Revisão do Plano Safra: mais dinheiro para agricultura familiar e menos dinheiro para as grandes monoculturas e pecuária;
- Reforma Agrária;
- Revogação de legislação que flexibilizam de leis ambientais;
- Mais investimentos na CONAB;
- Mais investimento no combate às queimadas;
- Demarcação de terras indígenas;
- Política de transição energética justa e combate ao aquecimento global.
Referências:
¹https://portal.inmet.gov.br/uploads/notastecnicas/Painel-El-Nin%CC%83o-2edicaofinal.pdf
²https://www.gov.br/conab/pt-br/atuacao/logistica/estoques-publicos/estoques-por-produto/estoques-por-produto
³https://www.bcb.gov.br/content/monetarypolicy/openletters/carta2015.pdf
⁴https://www.abras.com.br/clipping/geral/51202/preco-do-feijao-sofre-alta-de-mais-de-33-em-2015
⁵https://oeco.org.br/noticias/deficit-de-servidores-no-ibama-pressiona-governo-por-nomeacoes/