“Pegar o Lula”: editorial da Globo sobre Lava Jato é desmentido pelo dono e seus jornalistas

Sergio Moro entre Míriam Leitão e seu filho Valdimir Netto no lançamento da biografia do ex-juiz em Curitiba

Em editorial, a Globo tenta se defender do conluio com a Lava Jato e lavar sua reputação no episódio mais corrupto da história do jornalismo brasileiro.

Em tom grandiloquente, curiosamente confessional, o texto diz que “há anos, quando confrontado com escândalos de corrupção, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje novamente candidato à reeleição, cita a Operação Lava-Jato e diz que a imprensa brasileira nunca pediu desculpas a ele. Foi assim na entrevista ao Jornal Nacional na última quinta-feira. É certo que a jornalista Renata Vasconcellos, falando em nome do Grupo Globo, muito apropriadamente rebateu: ‘O jornalismo da Globo cumpriu sua obrigação de noticiar os fatos durante aquela cobertura’”.

“O jornalismo profissional não é adivinho — e a ele é vedado grampear ilegalmente juízes ou promotores, como acabou sendo feito por um hacker”, prossegue o libelo. “Esses grampos ilegais de fato revelaram que juiz e promotores não agiram de forma isenta e que havia conluio entre eles. A imprensa, inclusive a Globo e os demais veículos do Grupo Globo, deu ampla cobertura a essas revelações, como podem demonstrar os arquivos”.

O final é típico do psicopata que finge se orgulhar da própria canalhice: “Não há do que se desculpar.” Poderia ter saído da boca de Donald Trump.

Vamos relembrar alguns fatos. Não muitos.

No terceiro volume do livro “A Globo”, de Ernesto Rodrigues, lê-se o seguinte: a emissora se definiu como “grande parceira” da Lava Jato pela jornalista Silvia Faria, em conversa com um dos procuradores de Curitiba. Quem contou foi ela, à época já na condição de diretora de jornalismo da emissora, substituindo Ali Kamel, então promovido a diretor-geral de jornalismo e esportes.

Transcrevo um trecho que resume o objetivo comum dessa parceria: a caçada a Lula. O espírito de vingança está aqui.

“O Lula, a gente sabia, já tinha escapado do Mensalão, foi ali um acordo político, dada a altíssima popularidade dele na ocasião, e que não se quis avançar para investigar o Lula, e todos nós sabíamos disso. Ele não foi investigado porque nenhum partido quis colocar o Lula na CPI. Várias vezes a gente conversou com a liderança do PSDB, que era o arqui-inimigo do PT, e achavam que a crise institucional ia ser um preço muito alto a pagar para pegar o Lula. E aí passou, não foi pego”. Silvia estava convencida, na época de sua entrevista, dezembro de 2018, de que Lula, depois de ter “escapado da vez anterior” [Mensalão], andava de jatinho de empreiteiras “pra lá e pra cá”, fazia “negócios” com elas ganhando “absurdos” com palestras, e integrava “um sindicato” que tinha “um projeto de poder de vinte anos”, e um sistema de corrupção “muito sofisticado e feito para durar muito tempo e muito entranhado”, montado deliberadamente com a “divisão da Petrobras de forma organizada, racional, por partidos”.

A dificuldade para o que ela chamou de “pegar” o ex-presidente se devia, ela disse, à “máquina de comunicação até assustadora” construída a partir do “discurso petista da perseguição política” que, para Silvia, convencia muita gente de que Lula era “um perseguido pela elite branca e pela mídia conservadora”. Silvia acrescentou: “E a figura do Lula em si sempre escapando, sempre dizendo que não sabia de nada. O Palocci acusado: ‘Ah, o Lula não sabia de nada’. O Dirceu acusado: ‘Ah, o Lula não sabia de nada’. Ele nunca sabia de nada. Isso não é crível”.

Silvia Faria e seu substituto, Ricardo Villela

Também é bom lembrar que João Roberto Marinho, um dos dos donos da Globo, e membros do corpo editorial se encontravam frequentemente com os procuradores, como demonstraram os diálogos da Vaza Jato. Dallagnol aparece ansioso num bate papo de 2015: “Conseguiram pensar na pauta da minha conversa com o Roberto Marinho, na próxima semana? Os pedidos que posso fazer e alternativas que posso colocar na mesa, para apoio da Globo?”

Em 27 de novembro daquele ano, Dallagnol estava radiante. “Caros esqueci de contar algo importante… Na correria, passou. Mas tem que ficar restrito. Almocei na quarta com João Roberto Marinho. É ele quem, segundo muitos, manda de fato na globo. Responsável pela área editorial do grupo. A pessoa que mais manda na área de comunicação no país. Quem marcou foi Joaquim Falcao. Para evitar repercussão negativa, foi na casa do Falcao. Falei do grupo, do trabalho e das medidas. Falei da guerra de comunicação que há no caso. Ele ouviu atentamente e deu seu apoio às 10 medidas. Vai abrir espaço de publicidade na globo gratuitamente”.

No dia 5 de março de 2016, Dallagnol dialogava com o repórter Vladimir Neto, autor de uma hagiografia de Sergio Moro, pedindo assessoria: “Vc acha que temos que fazer nota sobre a condução coercitiva?”

Valdimir responde: “Não… Pra q? Não vejo o q vcs poderiam ganhar com isso”. Dallagnol: “Rsrs entendi o recado”. Vladimir: “O CF foi muito bem na coletiva ao abordar esse ponto”. O “CF” era o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, o “Carequinha”.

Ainda o Dallagnol: “Falei com Vladimir Netto e ele acha que não valeria a pena pq só reaviva, a não ser que seja para soltar agora para não deixar Moro sozinho. Mas ele acha que teria que ser muuuuito serena pq estamos mais expostos do que o Moro na avaliação dele…”

De onde veio isso tem mais. É qualquer coisa, menos “jornalismo profissional”. A Globo tem um enorme talento para tratar o público como idiota. Faz isso há décadas. Foram mais de 50 anos para o mea culpa pequenino, falsiane, do apoio ao golpe de 64. No caso da Lava Jato, não virá nunca porque a Globo é a Lava Jato.

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