
Há duas semanas, o senador pelo Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro (PL) lançou oficialmente sua candidatura à Presidência da República, em ato eleitoral realizado na praia de Copacabana, na capital fluminense.
Na ocasião, o político recebeu caloroso abraço de um velho amigo e parceiro de sua família, o ex-policial militar e atualmente subsecretário de Segurança do município de Saquarema (RJ), Fabrício Queiroz. A fidelidade que um dedica ao outro é antiga e inquebrantável, Flávio nunca teve a intenção de escondê-la.
Só o que restava oculto até hoje era uma tragédia pessoal vivida pelo subtenente amigo do candidato, ocorrida enquanto Fabrício era funcionário do gabinete de Flávio, então deputado estadual do Rio de Janeiro, em 11 de março de 2012.
Fabrício Queiroz foi a primeira pessoa a encontrar o corpo estéril de seu enteado Fernando Aguiar do Nascimento, que se suicidara dentro da residência de Fabrício, deflagrando um disparo de espingarda calibre 12 contra a própria cara, para tanto fazendo uso de uma arma pertencente a Fabrício, que era guardada totalmente municiada no guarda-roupa do ex-poilicial.
Mas é preciso começar do começo.
No dia 11 de março de 2012, às 11h da manhã, Fabrício José Carlos de Queiroz, então assessor parlamentar do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PL-RJ), telefonou para o 18º Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro, onde servira como sargento e subtenente da PMERJ por mais de seis anos, na zona oeste da capital fluminense.
Ele ligou para chamar os policiais e reportar um “episódio de morte violenta”, que havia acontecido há pouco menos de duas horas, em sua própria casa, no bairro de Taquara.
Na ocasião, o então assessor de Flávio relatou que seu enteado, o vigia Fernando Aguiar do Nascimento, de 23 anos, havia chegado em sua casa (na de Queiroz, o jovem não morava ali) naquela manhã de domingo e cometido suicídio 15 minutos depois, disparando um tiro contra a própria face, com uma escopeta calibre 12.
Disse também que não havia presenciado o fato, que ocorrera em um dos quartos da casa, no segundo pavimento do imóvel, enquanto Queiroz estava no primeiro pavimento.
O sargento Wellington Ricardo Rocha dos Santos, então amigo há dez anos de Queiroz, do 18º Batalhão da PMERJ, foi o primeiro policial a chegar ao local. No Registro de Ocorrência e em oitiva à Polícia Civil, ambos produzidos entre 11h e 12h21 daquele dia, o militar depôs que fora acionado pela “Sala de Operação” do 18º Batalhão da PMERJ às 11h da manhã. A missão: dirigir-se a uma residência em Taquara, para preservar o local onde havia ocorrido um suicídio.
Chegando lá, Wellington notou ser a casa de seu companheiro de 18º Batalhão, o então sargento Fabrício Queiroz, que estava licenciado da PMERJ por estar ocupando o cargo de assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro, então deputado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Era também a casa da esposa de Queiroz, Márcia Oliveira Aguiar, também funcionária do gabinete de Flávio Bolsonaro. Era contratada pelo deputado estadual havia cinco anos, desde 2007, e com ele viria ficar por mais cinco, até 2017. Em todo este tempo, nunca foi à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, nunca sequer foi buscar seu crachá.
Em julho de 2020, na esteira da investigação do Ministério Público sobre o esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio, Márcia chegou a ser presa, assim como seu marido, e depois passou para a prisão domiciliar, daí usou tornozeleira, até o ministro do STF Gilmar Mendes soltá-los de vez, em março de 2021.

Mas, de volta aos acontecimentos de 11 de março de 2012, o primeiro policial a chegar ao local, sargento Wellington, do 18º Batalhão da PMERJ, anotou nos registros oficiais que, ao adentrar a residência, encontrou somente Fabrício Queiroz e o cadáver de Fernando Nascimento.
Em conversa informal (sem valor de depoimento oficial) com o amigo de farda, ouviu que o então assessor de Flávio não havia presenciado o ato do disparo, que teria ocorrido sem a presença de testemunhas, em um quarto no andar de cima da casa, para o qual o padrasto só teria se dirigido após ouvir o barulho do tiro, apenas para chegar ao dormitório e encontrar seu enteado já sem vida.
Queiroz afirmou ainda que manteve a “cena de morte” preservada e intacta, a fim de viabilizar o trabalho da Polícia Científica, que logo chegaria para periciar o corpo e o local.
Naquele momento, o sargento Wellington não perguntou ao sargento Queiroz se ele sabia de quem era a arma utilizada para o suicídio. Tampouco quis saber o horário em que teria ocorrido o disparo, nem se havia mais alguém na casa além do padrasto e do enteado.
As informações acima e todas as demais que constam nesta reportagem foram extraídas do Inquérito 032-02757/2012, da PCERJ, a que o DCM teve o acesso. Veja, abaixo, os primeiros registros oficiais da PCERJ sobre o episódio, narrados pelo sargento Wellington.


Sempre conforme o Inquérito 032-02757/2012, da PCERJ, às 13h06 daquele mesmo 11 de março de 2012, um cabo da PMERJ providenciou a remoção do corpo, levando-o para o Instituto Médio Legal Afrânio Peixoto, no centro do Rio.
É a partir deste momento que os documentos juntados e os fatos narrados no Inquérito Policial 032-02757/2012 passam a ser contraditórios entre si e a apresentar uma série de aparentes inconsistências lógicas, que tornam difícil o entendimento das circunstâncias dos episódios conforme descritos na investigação da PCERJ.
1 – Um exame de cadáver sem cadáver
Quase duas horas após o corpo de Fernando ter sido removido da casa de Queiroz, precisamente às 14h45 daquele domingo, 11 de março de 2012, chegou ao local o perito criminal Helio Martins Junior, do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, da PCERJ.
Em que pese o fato de o corpo ter sido removido da residência uma hora antes de sua chegada, o perito afirmou em laudo oficial que, ao chegar à casa de Queiroz, encontrou “o local de morte violenta intacto e preservado para os exames periciais”, assim mantido pela guarnição do 18º Batalhão da PMERJ presente na cena, comandada pelo sargento Wellington. Veja abaixo.

Quer dizer: mesmo com o corpo tendo sido removido quase duas horas antes de sua chegada, Martins Junior foi capaz de analisar o cadáver no local preservado onde veio a falecer, de onde ele já havia sido retirado, realizando com sucesso todos os exames que julgou necessários.
Assim, o perito executou, entre outros, o chamado “Exame de Cronotanatognose”, procedimento que permite que se calcule o horário em que o indivíduo periciado veio a óbito. Então, baseado no grau de rigidez cadavérica em que estava o corpo de Fernando, a Polícia Científica concluiu que o enteado de Queiroz morreu entre 2h45 e 5h45 do dia 11 de março de 2012, como se vê abaixo.

2 – Polícia demora cinco meses para instaurar inquérito, ouvir testemunhas e descobrir que a arma usada era de Queiroz
Após a remoção do corpo e a apreensão da arma utilizada, a realização de exames periciais e o lavramento do boletim de ocorrência contendo apenas a versão de Fabrício Queiroz sobre o ocorrido, a PCERJ deixou de investigar o caso por mais de cinco meses, contentando-se unicamente com a versão apresentada por Queiroz, a de que seu enteado havia se suicidado minutos após adentrar a casa do ex-assessor de Flávio em um domingo de manhã, utilizando-se para tanto de uma espingarda calibre 12, com a qual disparou contra o próprio rosto.
Foi apenas no final de julho de 2012 que as investigações foram retomadas, e as primeiras testemunhas passaram a ser ouvidas. E foi só no dia 16 do mês seguinte (agosto de 2012) que o delegado Maurício Mendonça de Carvalho, da 32ª DP, do bairro de Taquara, instaurou formalmente um inquérito policial para averiguar os fatos e as circuntâncias da morte do vigia. Veja abaixo.

Então, no decorrer dos trabalhos investigativos, a PCERJ descobriu que a arma de onde partiu o projétil que matou Fernando Aguiar do Nascimento era uma espingarda calibre 12 da marca Boito, modelo Pump Action, de número de série E4071904, cuja extensão da boca do cano até a coronha e o gatilho é de um metro e dez centímetros.
Os investigadores descobriram também que a escopeta pertencia e pertence a Fabrício Queiroz. No inquérito a que o DCM teve acesso, consta uma foto do certificado de registro da arma, em nome do ex-assessor de Flávio Bolsonaro. Veja abaixo.

A reportagem do DCM solicitou ao professor de Direito Processual Penal, advogado criminalista e presidente da Comissão do Tribunal do Júri da OAB-SP, André Lozano Andrade, que lesse todo o inquérito da morte de Fernando Aguiar do Nascimento e comentasse o que julgasse pertinente.
A respeito da arma escolhida por Fernando para cometer o suicídio, ele disse: “Em 15 anos advogando no Direito Penal, nunca me deparei com um suicídio realizado com uma espingarda calibre 12.”
Isso se dá em virtude da distância entre a empunhadura e o final do cano da arma, que é de mais de um metro. “É muito difícil que o indivíduo escolha este armamento para tirar a vida, pois seria necessário que ele esticasse o braço ao máximo para conseguir apertar o gatilho e ainda colocar a extremidade final do cano sob o rosto, havendo risco de a empreitada ser mal sucedida em decorrência da dificuldade de manuseio nessa posição”, explica o especialista.
3 – Tia diz que Fernando saiu da casa da mãe e de Queiroz após brigas entre ele o casal
Então, mais de quatro meses após a morte de Fernando, os policiais civis passaram a colher a oitiva de algumas testemunhas. Primeiro, foi ouvida Jussara Alves do Nascimento, tia de Fernando Aguiar do Nascimento, irmã de seu pai, Cláudio Fernando Alves do Nascimento, no dia 26 de julho de 2012.
Ela contou que seu sobrinho sempre morou com a mãe, até cinco meses antes de morrer, quando se mudou para a casa do pai. O motivo: as constantes brigas que tinha com seu padrasto e com a própria progenitora.
Com a saída de Fernando, sobrou morando com o casal somente a filha Nathália Queiroz, personal trainer dos famosos na zona Sul do Rio de Janeiro, que também era funcionária do gabinete de Flávio Bolsonaro, onde “trabalhou” de 2011 a 2016, e que também nunca pisou na Alerj, nem sequer para buscar seu crachá. Já Fernando Aguiar do Nascimento não gostava nem tomava parte nos negócios da família, era vigia de condomínio e estava estudando para prestar concurso.
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Em seu curto depoimento, Jussara disse ainda que recebeu uma ligação de Marcia Oliveira Aguiar, mãe de Fernando e então esposa de Queiroz, na manhã daquele domingo, 11 de março de 2012 (o registro não traz o horário do telefonema). De acordo com a depoente, sua ex-cunhada disse que havia recebido uma ligação do patrão de Fernando no início da manhã, questionando por que ele não teria ido trabalhar naquele dia.
A mãe teria contado a Jussara que, após receber a ligação do trabalho, saiu pelo bairro à procura do filho, e veio a encontrá-lo próximo à rua de sua casa, dentro do carro de um vizinho, em estado de embriaguez, “muito alterado e agindo estranhamente”, tendo-o convencido a sair do automóvel e seguir para a sua casa e de Queiroz, onde ele poderia descansar no quarto de sua irmã, que se encontrava vazio naquele dia, posto que Nathália estaria viajando.
Em certo momento da ligação telefônica, contou Jussara, ela passou a ouvir gritos de Márcia Oliveira Aguiar e de outras pessoas, que discutiam aos berros entre si naquela casa. A ligação foi cortada neste momento, e ela não conseguiu mais falar com Márcia. Jussara veio a saber do óbito do sobrinho somente horas depois.
A oitiva se encerra com Jussara dizendo não saber qual poderia ter sido o motivo para Fernando se suicidar, posto que era “uma pessoa saudável e sem problemas aparentes”.
A partir daí, alguns fatos precisavam ser esclarecidos, em virtude das divergências nas versões apresentadas. Uma delas é sobre quem estava na casa de Queiroz quando aconteceu o suicídio. O sargento Wellington havia escrito em seu boletim de ocorrência que havia encontrado a casa, às 11h da manhã, apenas com duas pessoas presentes: Queiroz e o enteado, este já morto. Escreveu também que o então assessor de Flávio tinha sido o único a testemunhar o barulho do tiro. E nada havia dito sobre uma discussão com gritos entre os três familiares, precedendo o momento da morte.
4 – Depois de se suicidar, enteado entrou na casa de Queiroz e foi dormir
Outra grave inconsistência era sobre a hora do disparo da espingarda e do óbito de Fernando: de acordo com o laudo pericial, o enteado de Queiroz morreu entre 2h45 e 5h45 da manhã. Já Jussara Alves do Nascimento relatou uma série de eventos que teriam ocorrido após este horário, inclusive uma discussão com gritos envolvendo mãe, padrasto e enteado.
Assim, a Polícia Civil finalmente achou por bem tomar os depoimentos de Fabrício Queiroz e de sua esposa, Márcia Oliveira Aguiar. No dia 8 de agosto de 2012, a mãe de Fernando compareceu à 32ª Delegacia de Polícia. Lá, ela nada falou sobre as brigas que teriam levado o filho a sair de casa, cinco meses antes de morrer. Afirmou que sua saída se deu porque Fernando “queria ter mais liberdade para ficar com a namorada”.
Também nada disse sobre a discussão aos gritos que teria precedido o suicídio. Pelo contrário, contou aos policiais que a relação entre os três era harmoniosa, tendo o filho inclusive participado de um churrasco na casa dela e de Queiroz um dia antes de sua morte.
Sobre a hora do óbito, seu depoimento só tornou as coisas mais confusas: ela alegou ter despertado do sono naquele domingo às 7h30 da manhã, ao receber um telefonema de patrão de Fernando, perguntando por que ele não tinha ido ao trabalho. Asseverou também que, a partir deste momento, após tentar sem sucesso contatar o filho por meio de seu celular, começou a ligar para amigos e familiares em busca dele, inclusive para sua ex-cunhada, Jussara.
Ainda segundo Márcia Oliveira Aguiar, seu filho chegou em casa às 9h da manhã, no carro de um amigo, identificado apenas como Fábio, apelidado de “Ralado”. Ela nada disse a respeito de sua conversa com Fernando enquanto este ainda estava no carro do amigo, para convencê-lo a entrar em sua casa, conforme depôs a tia do rapaz.
O relato prossegue com ela dizendo ter observado que Fernando “não estava em seu estado normal ao chegar em casa, aparentando ter bebido”. Ela não explicou por que o filho se dirigiu à sua casa, já que não morava mais ali há meses, e sim com o seu pai, Cláudio, que, segundo ela, estava em Belo Horizonte (MG) naquele dia. A sucessão dos episódios a partir daí, de acordo com o depoimento da esposa de Queiroz, é a que segue transcrita abaixo, preservando a forma original em que foi registrada pelo escrivão de polícia:
“Que juntamente de seu companheiro (Fabrício Queiroz) aconselhou Fernando a dormir ali pois ele não esta bem; Que Fernando subiu para o quarto da irmã e foi dormir; Que alguns minutos depois escutou um barulho de tiro tendo Fabrício Queiroz companheiro da declarante ido ao quarto quando já viu Fernando morto; Que Fernando não apresentava nenhum problema aparente, tendo inclusive participado de um churrasco entre os familiares no dia anterior; (…) Que não sabe o que levou seu filho a tomar tal atitude.”
Veja trecho abaixo.

Os policiais não questionaram Márcia sobre o fato de que seu relato apresentava clara discrepância com o laudo pericial realizado pelo Instituto de Criminalística, que revelou que a morte de Fernando ocorrera entre 2h45 e 5h45 da manhã.
Os investigadores também não quiseram saber, e nem Márcia contou espontaneamente, por que ela não estava em casa na hora em que o primeiro policial chegou à cena da morte, o sargento Wellington, do 18º Batalhão da PMERJ, que registrou apenas a presença de Fabrício Queiroz no local, às 11h da manhã daquele domingo.
Foi a vez, então, de ouvir Fabrício Queiroz, o homem que foi a primeira testemunha a encontrar Fernando morto, por um tiro disparado de uma espingarda de sua propriedade.
O depoimento se deu no dia 8 de agosto de 2012, tendo se iniciado às 17h08. Nele, o então assessor de Flávio Bolsonaro disse que o enteado chegou em casa às 9h da manhã daquele domingo. O que aconteceu depois, conforme depôs Fabrício Queiroz, segue transcrito abaixo, na forma original como foi registrado pelo escrivão policial:
“Que Fernando falou com o declarante (Queiroz) e a mãe dele; Que falou para Fernando ir dormir na parte de cima da casa pois estava muito calor; Que Fernando dirigiu-se ao quarto da irmã que estava vazio; Que cerca de dez minutos depois o declarante ouviu um barulho de tiro vindo da parte de cima do imóvel; Que correu para onde Fernando estava, onde o viu deitado no chão já sem vida; Que no dia anterior Fernando passou o dia tranquilo sem apresentar nenhum problema; (…) Que não sabe o que levou Fernando a tomar tal atitude pois era uma pessoa tranquila; Que deseja esclarecer que Fernando não estava em seu estado ‘normal’; Que a arma utilizada por Fernando para suicidar-se pertence ao declarante (Queiroz) estando devidamente registrada; Que a arma estava guardada no guarda-roupa do quarto do declarante.“
Os policiais não perguntaram a Queiroz por que seu relato contradizia o laudo pericial, que estabelecera a hora da morte entre 2h45 e 5h45 da manhã, e não às 9h15. Tampouco indagaram o então assessor de Flávio se ele possuía mais armas em casa, que poderiam ter sido escolhidas por Fernando para cometer suicídio. Também não questionaram o fato de Queiroz, um experimentado policial militar, manter em seu guarda-roupa uma escopeta totalmente municiada, com sete cartuchos carregados, conforme foi encontrada no local pela Polícia Científica.
Sobre este ponto específico, o criminalista André Lozano Andrade, presidente da Comissão do Tribunal do Júri da OAB-SP, comentou o que segue: “É estranho que a arma tenha sido guardada carregada, especialmente tratando-se da arma de um policial militar, que é conhecedor das normas de segurança. Ainda mais porque a espingarda calibre 12 não é uma arma indicada para defesa pessoal, pelka baixa precisão que apresenta em disparos a curta distância.”
Já sobre a hora da morte, o especialista afirma:
“A questão do horário da morte é crucial. Pelos fenômenos cadavéricos, é possível verificar o horário aproximado da morte. Os depoimentos de Márcia e Fabrício entram em contradição com os achados da polícia científica. O laudo é claro ao afirmar que a morte havia se dado em momento diverso ao indicado pelas oitivas. Isso gera grande suspeita, pois os depoimentos das pessoas que estavam na residência diferem de provas técnicas.”
5 – Fotografia da cena da morte tem data de dois anos antes do suicídio
Se não serviu para esclarecer a hora da morte de Fernando, o depoimento de Fabrício Queiroz ao menos serviu para que se entendesse como o enteado teve acesso à arma do padrasto: ele teria adentrado ao quarto do casal Fabrício e Márcia, aberto o guarda-roupa e encontrado uma escopeta calibre 12 totalmente municiada, com sete cartuchos. Depois, foi até o quarto da irmã e só precisou de um projétil para tirar a própria vida, com um disparo fatal contra seu rosto.
O Inquérito 032-02757/2012, a que o DCM teve acesso, traz fotografias de como ficou a face de Fernando após o tiro, mas este site de notícias optou por não publicá-las, em respeito aos leitores e aos familiares da vítima.
Outra imagem contida nos autos é dos guarda-roupas de Queiroz, que, segundo a polícia, não havia sido tocado por ninguém no péríodo entre a morte de Fernando e a chegada da perícia. Tanto seria assim que, na foto produzida pela polícia científica, eles aparecem ainda com as portas abertas, como teriam sido deixadas por Fernando, após sua busca por uma arma de fogo municiada para se matar no quarto ao lado.
Só um detalhe não resta explicado: a fotografia anexada aos autos, do referido armário, traz em seu canto inferior direito a data em que teria sido registrada: 5 de agosto de 2010, quase dois anos antes da morte de Fernando. As imagens do corpo de Fernando, não publicadas por este site de notícias mas presentes no inquérito, também trazem datas diferentes daquela em que o suicídio ocorreu.


6 – Lacunas na investigação: ausência de depoimentos e exames
Os policiais civis responsáveis pelo Inquérito 032-02757/2012 ouviram apenas quatro testemunhas antes de solucionar o caso: as três já citadas acima – Jussara, Márcia e Fabrício, respectivamente tia, mãe e padrasto de Fernando – e Hamilton Antonio Tanini, que morava junto com Fernando (seu “sobrinho de criação”) havia cinco meses, desde que o vigia tinha deixado a casa da mãe e de Fabrício Queiroz. Ele foi ouvido pelos investigadores no dia 26 de julho de 2012, mais de quatro meses após o suicídio.
Na oitiva, Hamilton contou que ficou sabendo da morte do sobrinho por meio de um telefonema de Fabrício Queiroz, informando que Fernando se encontrava morto em sua casa. Prontamente após a ligação, ele se dirigiu ao local, que fica a menos de 500 metros de sua residência. Lá chegando, já avistou carros e agentes do 18º Batalhão da Polícia Militar e da 32ª Delegacia de Polícia Civil do Rio de Janeiro. O horário desses fatos não consta no termo de declaração lavrado pelas autoridades responsáveis.
O depoente declarou ainda que “seu sobrinho era uma pessoa saudável, sem problemas aparentes”. Disse também que “não sabe o que poderia levar seu sobrinho Fernando a tomar tal atitude; Que nunca ocorreu nenhum suicídio na família”.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro optou por não tomar o depoimento de Fábio, vulgo “Ralado”, que é a pessoa que teria estado com Fernando durante toda a madrugada de sábado para domingo, e que poderia fornecer informações sobre as atitudes e o estado emocional do vigia nas últimas horas antes de ele ter tomado a decisão de tirar a própria vida.
Fábio também poderia ter informado se Fernando havia ingerido drogas ou bebidas alcoólicas, e em qual quantidade, uma vez que nenhuma das testemunhas ouvidas soube dizer quais motivos o jovem de 23 anos poderia ter para tirar a própria vida, além do fato citado por Queiroz e sua esposa, de que ele “não estava normal”, e que “parecia de ter bebido”.
No inquérito, iniciado cinco meses após a ocorrência do fato investigado, as autoridades da PCERJ alegam que não puderam tomar o depoimento de Fábio porque ele teria se mudado de cidade entre o período em que o suicídio ocorreu e a instauração do procedimento investigatório.
Sobre este ponto, o criminalista André Lozano Andrade afirma: “Seria naturalmente indicado que Fábio (Ralado) fosse ouvido pela polícia, já que ele poderia confirmar ou não as informações trazidas pelas testemunhas. Mesmo com a indicação de que ele havia se mudado, seria possível expedir uma carta precatória para ouvi-lo em outro município.”
Outra lacuna na investigação é a ausência de exames periciais para verificar se no corpo de Fernando havia a presença de álcool ou drogas ilícitas, e em quais quantidades. Isso porque a única hipótese aventada no inquérito para motivar o suicídio de Fernando seria o estado de anormalidade em que se encontrava o vigia, possivelmente gerado pelo consumo dessas substâncias, momentos antes de seu suicídio, conforme testemunhado pelos dois então assessores de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz e Márcia Oliveira Aguiar.
“Teria sido certamente indicado realizar o exame toxicológico e o de alcoolemia no cadáver de Fernando, uma vez que é comum o uso imediatamente anterior de substâncias entorpecentes por pessoas que praticaram o suicídio. Além disso, há testemunhas de que a vítima havia chegado alterada ao local em que tirou a própria vida. O teste positivo poderia ser um indício de que existiu o ato suicida. Já o resultado negativo colocaria em dúvida a versão apresentada por duas das tesmunhas”, pondera o criminalista André Lozano Andrade.
Finalmente, causa espécie o fato de que a Polícia Civil do Rio de Janeiro não se preocupou em colher o testemunho do pai de Fernando, Cláudio Fernando Alves do Nascimento. Isso porque foi para a casa de seu progenitor que o vigia se mudou, após decidir não mais morar na casa de sua mãe e de Queiroz, onde veio a ser encontrado morto cinco meses depois.
A justificativa da PCERJ para não ter ouvido o pai da vítima é unicamente a de que ele estaria morando fora do estado do Rio de Janeiro, no município de Belo Horizonte (MG), quando o suicídio ocorreu. Ocorre que tal problema poderia ter sido contornado com a emissão de uma carta precatória, diligência que permite que uma testemunha seja ouvida por autoridades policiais de uma unidade da federação diferente daquela em que foram estabelecidas as investigações.
7 – Pai de Fernando estava no Rio e reconheceu o corpo do filho no IML uma hora e 41 minutos antes do cadáver ser periciado no local de sua morte
Para além da questão da carta precatória, o paradeiro de Cláudio no dia do suicídio de seu filho resulta na maior inconsistência do inquérito da PCERJ sobre a morte de Fernando Alves do Nascimento.
É que, contrariamente à informação registrada nos autos, de que Cláudio Fernando Alves do Nascimento, pai do vigia morto, estava em Belo Horizonte na época dos fatos, foi o próprio Cláudio quem reconheceu, na capital fluminense, no exato dia em que o suicídio de seu filho ocorreu, o cadáver de Fernando.
De acordo com os autos apresentados pela 32ª Delegacia de Polícia do Estado do Rio Janeiro, o pai do vigia foi até o IML Afrânio Pèixoto (situado na avenida Francisco Bicalho, 300, no centro do Rio, a meia hora de carro do local onde foi encontrado por morto por Fabrício Queiroz) no dia da morte do filho, para assinar o “Termo de Identificação Cadavérico”, o que fez após reconhecer o corpo e atestar que se tratava, de fato, de Fernando Alves do Nascimento.
Cláudio realizou o citado procedimento, sempre segundo o Inquérito 032-02757/2012 da PCERJ, às 13 horas e 6 minutos do dia 11 de março de 2012.
Ocorre que – sempre tomando como verdade o que consta no já referido inquérito da PCERJ – nessas mesmas hora e exatos minutos, 13h06min do dia 11 de março de 2012, um policial da PMERJ estava retirando o corpo de Fernando da casa de Queiroz, localizada no bairro de Taquara, a meia hora de carro do IML Afrânio Peixoto, conforme imagem de documento dos autos, reproduzida acima nesta reportagem.
Ainda fiando-se no que figura no Inquérito 032-02757/2012, após Cláudio ter reconhecido o filho morto no IML no centro do Rio, o cadáver reapareceu na cena do suicídio, onde um perito criminal realizou os exames e análises de prache, tendo iniciado seus trabalhos às 14h45, e ao fim atestado que o local da morte e o morto haviam sido devidamente preservados pelos policiais do 18º Batalhão da PMERJ, até a sua chegada.
Veja, abaixo, o Termo de Identificação Cadavérico constante no inquérito da PCERJ. As informações sensíveis de Cláudio Fernando Alves do Nascimento, por motivos de segurança, foram ocultadas pela reportagem do DCM.

8 – Inquérito é encerrado e caso é arquivado: conclusão é de que Fernando se suicidou
Com lacunas ou não, com inconsistências ou não, fato é que o Inquérito 032-02757/2012, da PCERJ, aberto em 16 de agosto de 2012, para apurar as circunstâncias da morte de Fernando Aguiar do Nascimento, ocorrida em 11 de março de 2012, chegou ao fim em 28 de fevereiro de 2013.
É esta a data de registro do Relatório Final sobre o caso, assinado pelo delegado Maurício Mendonça de Carvalho. A conclusão inequívoca, baseada nas investigações e diligências realizadas pela PCERJ, foi a de que Fernando Aguiar do Nascimento tirou a própria vida no dia 11 de março de 2012, na residência de seu padrasto, Fabrício Queiroz. Ele se matou com uma espingarda calibre 12 que pertencia Fabrício Queiroz. Ele encontrou esta arma totalmente municiada no guarda-roupa de Fabrício Queiroz. Ele foi encontrado morto por Fabrício Queiroz. A polícia (18º Batalhão da PMERJ) chegou ao local após ser contatada por Fabrício Queiroz. Fim.
Veja, abaixo, imagens dos documentos de conclusão do inquérito da PCERJ sobre a morte de Fernando Aguiar do Nascimento.

