A transformação tecnológica do sistema financeiro internacional pode produzir um resultado diferente daquele esperado por quem aposta na perda de espaço do dólar: em vez de enfraquecer a moeda norte-americana, inovações como stablecoins, sistemas de pagamentos instantâneos e tokenização de ativos podem reforçar sua posição dominante.
Essa é uma das principais conclusões de um estudo elaborado por Gordon Liao, da Circle Internet Financial, Eswar Prasad, da Universidade Cornell e do Brookings Institution, e Tony Zhang, da Arizona State University. O trabalho, publicado em agosto de 2026, foi apresentado no Jackson Hole Economic Policy Symposium, organizado pelo Federal Reserve Bank of Kansas City.
Os autores partem de uma constatação: embora a participação do dólar nas reservas cambiais mundiais tenha diminuído nas últimas décadas, a moeda dos Estados Unidos continua amplamente dominante em outras dimensões das finanças globais, como pagamentos internacionais, empréstimos bancários, operações de câmbio e denominação de títulos de dívida.
Assim, a questão central do estudo não é simplesmente se o dólar perderá sua posição, mas como as novas tecnologias financeiras podem alterar a disputa entre moedas.
Stablecoins podem aprofundar a dependência do dólar
Em tese, a inovação financeira poderia reduzir as vantagens históricas das moedas dominantes. Sistemas de pagamentos mais rápidos, moedas digitais de bancos centrais, criptomoedas, plataformas de tecnologia financeira e mecanismos de tokenização diminuem custos e barreiras nas transações internacionais.
Isso permitiria, por exemplo, que empresas e investidores utilizassem moedas de países menores sem precisar recorrer necessariamente ao dólar como moeda intermediária. O problema é que o mesmo mecanismo pode funcionar no sentido contrário.
Os pesquisadores destacam o avanço das stablecoins lastreadas em dólar. Esses ativos digitais permitem realizar pagamentos internacionais utilizando tokens cujo valor está vinculado à moeda norte-americana.
Ao mesmo tempo, suas reservas são constituídas por ativos considerados seguros, especialmente instrumentos denominados em dólar. Na prática, a tecnologia facilita o acesso global a ativos financeiros norte-americanos.
O estudo argumenta que essa combinação pode criar um círculo de retroalimentação: quanto mais pessoas utilizam stablecoins vinculadas ao dólar, maior pode ser a demanda por ativos seguros denominados na moeda americana. Isso amplia a profundidade e a liquidez dos mercados financeiros dos Estados Unidos e, consequentemente, torna o dólar ainda mais atraente.
A inovação que poderia nivelar o campo de disputa entre moedas, portanto, também pode consolidar a vantagem de quem já ocupa a posição dominante. O fenômeno ajuda a explicar por que a perda relativa do dólar nas reservas internacionais não necessariamente significa uma substituição da moeda norte-americana no conjunto do sistema financeiro.
A integra do estudo está disponível abaixo