No Ceará, Elmano do “lado certo”, e Ciro entrincheirado no medo

O primeiro dia de horário eleitoral gratuito no Ceará não precisou de muitos segundos para revelar a maior ferida política do estado em 2026: a fratura exposta entre os irmãos Cid e Ciro Gomes. De um lado, Cid no palanque de Elmano de Freitas (Ceará Forte do Lado Certo), usando seu tempo de senador para martelar o bordão “estamos do lado certo”. Do outro, Ciro, agora filiado ao PSDB e apoiado pelo PL de Flávio Bolsonaro, gravando parte de seu programa dentro de uma casa destruída e pixada por facções criminosas. A estreia na TV escancarou não apenas duas campanhas distintas, mas duas leituras opostas sobre o que o eleitor cearense quer ouvir — e, principalmente, sobre o que funciona e o que soa como retrocesso.

O bordão que cola e a narrativa que avança

Elmano de Freitas, candidato à reeleição, acertou ao escolher um eixo narrativo claro e repetitivo: o “lado certo”. A expressão, repetida em variações (“do lado do povo, do lado da união e do cuidado”), cumpre três funções políticas simultâneas. A primeira é demarcar território ético diante da aliança de Ciro com o PL bolsonarista, explorando a alta rejeição a Flávio Bolsonaro no Ceará. A segunda é transformar a cisão familiar dos Gomes em trunfo: se Cid — histórico herdeiro do grupo — está “do lado certo”, o eleitor é convidado a concluir que Ciro, ao mudar de partido e de coalizão, cruzou para o lado errado. A terceira é oferecer uma âncora emocional em uma eleição polarizada: em tempos de desinformação, o eleitor quer saber de que lado cada um está.

A maior parte do programa de Elmano, porém, foi dedicada ao que a campanha chama de “realizações tangíveis”. O governador elencou o Malha d’Água (apresentado como o maior investimento em agricultura familiar da história do estado), o recorde de aprovações de alunos da rede estadual no ensino superior, a chegada do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) ao Ceará, o programa Ceará Sem Fome, o Data Center do TikTok e o crescimento do PIB acima da média nacional. A escolha é estratégica: ao invés de entrar na trincheira escorregadia da segurança pública, Elmano tenta pautar a eleição pelo desenvolvimento econômico e pela infraestrutura, terrenos onde sua gestão apresenta dados concretos para exibir.

A abertura do programa, com a história de vida encenada por atores e narrada pelo próprio candidato (“Sou resultado de uma mãe professora e um pai agricultor. Resultado do jovem que lutou por justiça nas comunidades eclesiais de base”), também foi um acerto tático. Em um estado onde o eleitor valoriza a trajetória pessoal do político, a encenação reforça a imagem de homem do povo que ascendeu pela educação e pela militância — um contraponto direto à imagem de Ciro como integrante de uma das famílias mais tradicionais da política cearense.

O erro de olhar para 1993

Ciro Gomes, por sua vez, cometeu dois equívocos estratégicos em sua estreia. O primeiro foi o enquadramento temático: ao focar quase exclusivamente em segurança pública, o candidato do PSDB se entrincheirou em um terreno onde, historicamente, governos de esquerda são mais vulneráveis e onde a direita tradicionalmente leva vantagem narrativa. A imagem de Ciro dentro de uma casa destruída e pixada por facções, perguntando “por que isso aconteceu?”, é visualmente impactante, mas politicamente arriscada. Primeiro, porque transforma o Ceará em um cenário de guerra, o que pode afastar eleitores moderados que buscam esperança, não medo. Segundo, porque convida o eleitor a comparar a gestão atual com a de Ciro como governador — e aí reside o segundo erro.

Ao invés de apresentar um projeto de futuro, Ciro optou por olhar para o retrovisor. “Construímos quase dois mil quilômetros de estrada, doze grandes barragens e mais de mil quilômetros de adutoras. Combatemos a mortalidade infantil e a nossa saúde era referência para o mundo, recebendo inclusive o prêmio da Unicef em 1993”, afirmou. A referência a realizações de mais de três décadas atrás é, no mínimo, desconectada do eleitorado de 2026. Jovens que hoje têm 25 anos nem haviam nascido em 1993; o prêmio da Unicef soa como peça de museu, não como proposta de governo. O movimento revela uma campanha que, na ausência de um projeto claro para o Ceará contemporâneo, recorre à nostalgia de um passado distante — um sintoma de quem não conseguiu atualizar seu discurso para os desafios do século XXI.

A tentativa de Ciro de se apresentar como candidato de segurança pública também esbarra em uma contradição interna: ele, que governou o Ceará entre 1991 e 1994 com um perfil de centro-esquerda, agora busca consolidar o eleitorado bolsonarista que tradicionalmente o rejeitava. A mudança de partido (do PDT para o PSDB) e a aliança com o PL podem ter aberto as portas desse eleitorado, mas a conversão narrativa ainda parece forçada. O Ciro que gravou dentro de uma casa destruída não é o mesmo Ciro que, em décadas anteriores, se apresentava como o modernizador de esquerda do Nordeste. A coerência, nesse caso, é sacrificada em nome da conveniência eleitoral — e o eleitor costuma perceber.

A cisão fratricida como espelho do Ceará

O que torna a estreia no Ceará particularmente reveladora é que ela espelha, em escala estadual, a ruptura maior que atravessa a política brasileira. Cid e Ciro, irmãos de sangue e de trajetória política durante décadas, agora estão em coalizões opostas — um defendendo a continuidade do projeto progressista no estado, o outro aliado ao bolsonarismo. A fratura familiar é, ao mesmo tempo, causa e consequência da polarização cearense.

Para Elmano, a presença de Cid em seu palanque é um ativo duplo: garante tempo de TV (Cid é candidato ao Senado com ampla base) e oferece uma narrativa de legitimação histórica. Para Ciro, a ausência do irmão é um passivo que nenhuma casa destruída ou prêmio da Unicef consegue compensar. A política, no fim, é feita de escolhas — e a escolha de Ciro de romper com o grupo que o projetou nacionalmente pode custar caro em um estado onde a memória política é longa e as lealdades familiares ainda pesam.

O que vem pela frente

A estreia do horário eleitoral no Ceará sugere que a campanha de Elmano acertou ao pautar a eleição pelo desenvolvimento e pela ética do “lado certo”, enquanto a de Ciro errou ao se refugiar no medo e na nostalgia. Mas eleições são maratonas, não tiros rápidos. Ciro ostenta vantagem nas pesquisas e a segurança pública continua sendo uma preocupação real do eleitorado cearense. O desafio de Elmano será transformar suas realizações de governo em intenção de voto; o de Ciro, atualizar seu discurso para o Ceará de 2026 sem perder o eleitorado bolsonarista que talvez o apoie.

O primeiro round, porém, teve vencedor claro. Elmano saiu da estreia com uma narrativa coesa, realizações concretas e o reforço simbólico de Cid Gomes. Ciro saiu com uma casa destruída, um prêmio empoeirado e a sombra incômoda de ter escolhido o lado que seu próprio irmão chama de errado.

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