Na sabatina da TV Globo na noite desta quinta-feira (27), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) transformou a pergunta sobre contas públicas numa aula improvisada de economia política.
Questionado por Renata Vasconcellos sobre a trajetória da dívida pública, que ultrapassou R$ 10 trilhões e atingiu cerca de 82% do PIB, o presidente recusou o diagnóstico de crise fiscal, rebateu o enquadramento do mercado e deslocou o centro do debate: o país não tem um problema de gasto descontrolado, mas sim de juros altos e de um longo período prévio de estagnação econômica.
Lula contestou diretamente a abordagem da entrevista logo no início da resposta. “Renata, eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente. Você pode dizer: ‘Presidente Lula, o senhor foi o único presidente na história do Brasil que fez superávit primário durante oito anos’. Dos países do G20, eu fui o único que fiz superávit primário durante oito anos. Nunca tive problema fiscal nesse país”, afirmou o presidente.
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O chefe do Executivo e candidato à reeleição enfatizou que a responsabilidade fiscal é uma marca permanente de sua trajetória e lembrou a herança deixada pela gestão anterior em relação aos resultados que vem entregando no atual mandato. “Se você não fizer a pergunta completa, eu vou dizer para você: a mim não preocupa a dívida pública. Eu vou lhe dizer por quê. Eu herdei esse governo, em janeiro de 2023, com déficit fiscal de 2,8%. Você sabe quanto que vai ser o orçamento esse ano? Superávit primário de 0,1%. Portanto, se tem alguém nesse país que tem responsabilidade fiscal, sou eu”, declarou.
Ao abordar o patamar do endividamento público, Lula rebateu o catastrofismo fiscalista e contextualizou a proporção da dívida brasileira frente ao cenário internacional. “Você acha que o Brasil tá com problema de dívida pública porque nós chegamos a 80%? Sabe por quê? Porque nós estamos há mais de dez anos sem crescer. Você se esquece que eu deixei esse país crescendo 7,5% em 2010 e, quando eu voltei, ele tava crescendo 1%. Ele cresceu 3% em 2023, 2024, 2025. Na medida que você começa a crescer a economia, a dívida começa a cair com relação ao PIB. 80% de dívida em um país não é muito se você olhar para os Estados Unidos, olhar para o Japão, olhar para a Itália. Sabe qual é a dívida dos Estados Unidos? 120% do PIB, é 40 trilhões de dólares.”
O presidente também colocou em xeque o arranjo da autoridade monetária e a taxa básica de juros como motores de expansão do estoque do endividamento, responsabilizando o custo financeiro cobrado do Estado. “Uma parte dela é por conta da taxa de juro, que vocês defenderam a vida inteira com o Banco Central independente. Você tá lembrado que o Fernando Henrique Cardoso trocou três presidentes do Banco Central? Eu entrei e fiquei dois anos com o presidente do Bolsonaro”, pontuou, evidenciando como a política monetária atua diretamente na transferência de recursos públicos para o setor financeiro.
A fala do presidente na TV Globo desmonta a narrativa de que o Estado gasta demais com políticas sociais e investimentos essenciais. Os dados operacionais do Banco Central confirmam que a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) alcançou 81,9% do PIB em junho de 2026 (R$ 10,8 trilhões), impulsionada fundamentalmente pela apropriação de juros nominais, que consumiram R$ 1,16 trilhão em 12 meses (8,80% do PIB), e não por déficit nas contas primárias.
Ao reformatar o termo “responsabilidade fiscal”, Lula sinaliza ao eleitorado que o controle das contas públicas não deve ser alcançado com a asfixia do investimento produtivo ou a paralisia do Estado, mas sim pela expansão da atividade econômica, pela geração de emprego e pela redução da taxa básica de juros, garantindo a soberania do crescimento nacional frente ao rentismo.