Guerra contra o Irã completa seis meses sem saída política pros EUA

A guerra ançada por Estados Unidos e Israel contra o Irã completa seis meses nesta sexta-feira (28) sem que Donald Trump tenha alcançado os objetivos anunciados no início do conflito e sem solução a curto prazo. 

Apresentada pelo presidente norte-americano como uma “pequena incursão” que duraria de quatro a cinco semanas, a agressão imperialista já deixou quase 8 mil mortos, desorganizou o comércio mundial de energia e consumiu dezenas de bilhões de dólares dos cofres públicos dos EUA.

Trump chegou a afirmar, em março, que a operação estava adiantada em relação ao cronograma. Meio ano depois, o governo norte-americano ainda não conseguiu impor a rendição de Teerã, provocar a queda do governo iraniano nem restabelecer o fluxo normal de navios pelo Estreito de Ormuz. 

Nesta semana, diante do fracasso da previsão inicial, o republicano mudou o discurso e declarou que “não está com pressa” para retomar as negociações.

A resistência iraniana obrigou Washington a alterar sucessivamente seus objetivos. O governo Trump começou a guerra alegando que impediria o Irã de desenvolver uma arma nuclear, passou a defender uma mudança de regime e, mais tarde, concentrou as exigências na reabertura de Ormuz e na interrupção do programa nuclear iraniano.

Agora, com seus estoques de armamentos reduzidos e sem uma solução militar à vista, a Casa Branca tenta deslocar a ofensiva do campo de batalha para o terreno econômico.

O Departamento do Tesouro anunciou nesta semana uma nova campanha de sanções secundárias contra países, empresas e bancos que mantiverem relações comerciais com o Irã.

Guerra já matou quase 8 mil pessoas

Os seis meses de ataques deixaram ao menos 7.900 mortos, segundo dados reunidos pela Al Jazeera com base em ministérios da Saúde e outros órgãos oficiais. O maior número de vítimas está no Líbano, onde 4.350 pessoas foram mortas. No Irã, são 3.527 mortos.

Também morreram 28 pessoas em países do Golfo, 60 em Israel e 18 militares norte-americanos. O Pentágono reconhece ainda que 757 integrantes das Forças Armadas dos EUA ficaram feridos.

A extensão das mortes no Líbano revela como a guerra conduzida por Washington e Tel Aviv ultrapassou as fronteiras iranianas. Israel chegou a ocupar cerca de um quinto do território libanês e, apesar dos acordos de cessar-fogo, ainda mantém uma zona de ocupação correspondente a aproximadamente 6% do país.

Desde 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel realizaram pelo menos 3.580 ataques contra o Irã, de acordo com o Projeto de Dados de Localização e Eventos de Conflitos Armados (Acled, na sigla em inglês). O Irã respondeu com ao menos 2.053 ataques contra alvos militares e infraestruturas dos EUA e de seus aliados no Oriente Médio.

Resistência iraniana frustra planos de Washington

Os ataques iniciais mataram o líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, além de autoridades civis e militares. Washington e Tel Aviv apostavam que a eliminação da direção do país, acompanhada dos bombardeios contra instalações militares e nucleares, levaria rapidamente à desorganização do Estado iraniano e à sua rendição.

O resultado foi diferente. Embora tenha sofrido perdas humanas e materiais profundas, o Irã preservou capacidade suficiente para atingir bases norte-americanas, responder aos aliados regionais dos EUA e exercer controle sobre o Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o comércio mundial de petróleo e gás.

Antes da guerra, pelo menos cem embarcações atravessavam Ormuz diariamente. Nos seis meses seguintes, a média caiu para apenas sete navios por dia. A Organização Marítima Internacional registrou 70 ataques contra embarcações na região, com a morte de 19 trabalhadores marítimos.

Trump afirmou nesta quinta-feira (27) que o estreito estava aberto porque 24 navios haviam passado pelo local no dia anterior. O número, porém, ainda representa apenas uma fração do movimento registrado antes da guerra.

O controle iraniano sobre Ormuz tornou-se o principal instrumento de pressão de Teerã. Ao sobreviver à campanha de bombardeios e manter capacidade de interromper uma rota decisiva para a economia mundial, o país impediu que a superioridade militar dos Estados Unidos fosse convertida em vitória política.

Petróleo sobe e custo recai sobre a população

A redução do tráfego por Ormuz elevou em cerca de 22% o preço do petróleo Brent desde o início da guerra. O barril passou de US$ 72,48 para US$ 88,58 nesta sexta-feira e chegou a atingir US$ 120,88 no fim de abril.

Para conter a alta dos combustíveis, os Estados Unidos e outros integrantes da Agência Internacional de Energia decidiram retirar 400 milhões de barris de suas reservas estratégicas, a maior liberação coordenada da história. 

O estoque norte-americano caiu para 290 milhões de barris, o menor nível desde 1982 e equivalente a apenas 41% de sua capacidade.

O custo reconhecido pelo governo norte-americano já chega a US$37,5 bilhões, valor que inclui despesas previstas até o encerramento do ano fiscal, em 30 de setembro. 

Estimativas internas do Pentágono divulgadas pela imprensa dos EUA apontam, no entanto, que a conta pode alcançar entre US$80 bilhões e US$100 bilhões quando são incluídos os reparos em bases atingidas, a reposição de aeronaves destruídas e a recomposição dos estoques de armas.

A guerra também reduziu a disponibilidade de mísseis interceptadores e outros equipamentos militares norte-americanos. Parte das munições destinadas à Ucrânia e das defesas mantidas na Coreia do Sul foi deslocada para o Oriente Médio, enquanto o porta-aviões USS George Washington deixou o Pacífico para reforçar as operações na região.

Trump troca bombas por cerco econômico

Sem conseguir impor seus objetivos pela força, Trump tenta agora asfixiar economicamente o Irã e transferir o custo da guerra para os demais países. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou em 24 de agosto que empresas e governos que negociarem com Teerã poderão ser atingidos por sanções secundárias.

A ofensiva tem como alvos centrais China e Índia, principais compradores do petróleo iraniano. Pequim já rejeitou as medidas e classificou as sanções unilaterais como ilegais por não terem base no direito internacional nem autorização do Conselho de Segurança da ONU.

A dificuldade para retomar as negociações também decorre do histórico dos próprios Estados Unidos. 

Trump abandonou em 2018 o acordo nuclear firmado três anos antes, embora o Irã cumprisse os compromissos assumidos. Mais recentemente, Washington atacou o país durante processos de negociação, reduzindo a possibilidade de que qualquer nova promessa norte-americana seja aceita como garantia.

O memorando negociado em junho para orientar uma saída diplomática perdeu validade sem produzir um acordo definitivo. Catar, Paquistão e Omã tentam manter canais abertos, mas a Casa Branca rejeita voltar aos termos preliminares e insiste em acrescentar novas exigências.

A permanência do conflito também aumenta o desgaste interno de Trump. Pesquisa Reuters/Ipsos concluída em 24 de agosto mostrou que sua aprovação caiu para 33%, o pior resultado do atual mandato. O levantamento apontou ainda que 80% dos norte-americanos acreditam que a participação dos EUA na guerra continuará por um período prolongado. Apenas 16% esperam que ela termine em poucas semanas.

Seis meses depois de prometer uma campanha rápida, Trump não possui uma estratégia de saída. A guerra que deveria demonstrar a força dos Estados Unidos passou a expor os limites de seu poder militar, o isolamento de sua política de sanções e a incapacidade de Washington de transformar bombardeios em submissão política.

Artigo Anterior

Globo entrevista Flávio Bolsonaro nesta sexta; veja o horário e onde assistir

Próximo Artigo

ICE prende mais de 60 mil pessoas e bate recorde do primeiro mandato de Trump

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!