
Por Laura Capote
Do Tricontinental
Estimadas e estimados camaradas,
Saudações desde o Escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
Durante o mês de agosto, em cada canto do nosso continente, acompanhamos as celebrações do centenário do nascimento do Comandante em Chefe da Revolução Cubana, Fidel Castro, e priorizamos, no Tricontinental, prestar uma homenagem a partir da recuperação de seu legado. Nesse marco, também participamos da IV Assembleia Continental da ALBA Movimentos, realizada em Havana, Cuba, de 6 a 9 de agosto, com o objetivo de enviar uma mensagem de solidariedade ao povo cubano e de defesa irrestrita de sua Revolução, um dos principais campos de batalha da nova ofensiva do imperialismo sobre o nosso continente.
Não atravessamos uma conjuntura simples e, nesse sentido, não apenas temos um acordo comum, como também estabelecemos uma de nossas principais prioridades para a pesquisa que realizamos a partir do Escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental. Como poderão ver na página web, estamos desenvolvendo uma série de projetos que, por um lado, buscam mapear qual é a caracterização atual das esquerdas em nosso continente, levando em conta o fortalecimento dos governos de extrema direita na região e os desafios políticos e organizativos que este momento coloca para as classes populares. Da mesma forma, estamos nos perguntando sobre o Futuro, tal como desenvolvemos no Dossiê 100 do Instituto, e quais são essas disputas a partir do nosso continente.
Celebrar Fidel é, sem dúvida, uma oportunidade de aprofundar essas duas questões. Em uma relação dialética, a construção do futuro só se realiza em nosso presente, o que nos obriga a perguntar como, no cotidiano, damos passos firmes em direção ao único horizonte possível para a salvação da humanidade: o socialismo.

Em Havana, com cerca de 200 delegados e delegadas de 27 países e 132 organizações, debatemos durante quatro dias não apenas sobre a necessidade, mas sobre a urgência da construção do socialismo como garantia para a defesa da soberania e da integração continental, com uma visão unitária em torno do inimigo que temos diante de nós e que hoje perpetua um genocídio silencioso contra o povo de Fidel. Pudemos ver, em meio aos ricos debates, a absoluta determinação de Cuba em defender sua Revolução até as últimas consequências, apesar dos efeitos devastadores do recrudescimento do bloqueio energético desde janeiro deste ano, que veio aprofundar os 60 anos anteriores de bloqueio ilegal à ilha por parte dos Estados Unidos.
A ALBA Movimentos é uma articulação continental de movimentos sociais e populares que reúne cerca de 400 organizações de 25 países da região e que, assim como o Tricontinental, integra a Assembleia Internacional dos Povos (AIP). Neste boletim, queremos compartilhar alguns fragmentos da Declaração Final da IV Assembleia Continental que sintetiza alguns dos principais desafios que enfrentamos como região. O Tricontinental, na qualidade de instituto de pesquisa que trabalha em parceria com os movimentos sociais, tem como prioridade investigar esses temas.
“A ofensiva contra Cuba responde à natureza de um imperialismo em profunda crise de hegemonia, que se depara com a comprovada incapacidade de oferecer um futuro para o planeta. As guerras e os genocídios que promove são a prova mais clara de sua decadência e o sinal de que, antes de morrer, o monstro pensa em levar consigo tudo aquilo que considera seu. Nessa fantasia predatória dos EUA, nosso continente está situado, e a velha fórmula da Doutrina Monroe se recrudesce mais do que nunca, para punir nossos povos e destruir toda possibilidade de transformação social do sistema capitalista.

A bota imperialista nunca deixou nossa região. Por meio de métodos dissimulados, sempre esteve presente na América Latina e no Caribe. No entanto, hoje, a remilitarização do continente se configura como uma das principais ameaças à nossa soberania e integração. Sob o argumento da luta contra o “terrorismo internacional”, o imperialismo impulsiona o projeto Escudo das Américas e, nesse marco, desencadeou-se na região um enorme deslocamento do Comando Sul, com a denominada “Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental”.
Essa ofensiva teve como principal cenário a região do Caribe, como primeira fronteira imperial. Aqui, nesses mares imensos, repletos de riqueza e diversidade, desenvolveram-se os cenários que marcaram a trajetória da luta anticolonial pela independência e pela soberania em todo o nosso continente. E justamente este é o cenário central deste período de remilitarização. Sob o pretexto da guerra contra o narcotráfico, vimos durante meses bombardeios e assassinatos deliberados de pescadores do Caribe perpetrados pelos EUA, que pretendiam justificar a ofensiva militar na região e que se concretizaram no ataque contra a Revolução Bolivariana da Venezuela na madrugada de 3 de janeiro.
Hoje, o mapa político de nossa região mudou radicalmente. A chegada de governos de extrema direita e de características fascistas aos países de nossa região implica não apenas uma ameaça aos nossos povos e às conquistas que pudemos alcançar nesses anos. Essa extrema direita fascista criminaliza aqueles que lutam e, por isso, exigimos a libertação dos presos políticos, lutadores e lutadoras vítimas dela. Esse avanço não ocorre apenas no âmbito institucional, mas também ameaça a própria existência da democracia. A crise da democracia liberal ainda é fruto do próprio neoliberalismo; por isso, afirmamos que defendemos outro modelo, não qualquer democracia, mas uma democracia popular, participativa e protagonista, na qual o povo seja quem oriente os destinos da Pátria.
Os povos da Argentina, Chile, Equador, Paraguai, Peru, Colômbia, Bolívia, Panamá, Costa Rica, El Salvador, Honduras e muitos outros hoje precisam enfrentar a violência fascista e criminalizadora de seus governos, enquanto buscam avançar nas reivindicações históricas das classes populares: a reforma agrária e a redistribuição da terra, os direitos trabalhistas, o direito à educação, o acesso universal aos sistemas de saúde etc. Sabemos que esse projeto desenhado pelo imperialismo estadunidense busca eliminar a força política organizada que nós, enquanto povos, constituímos ao longo dos séculos, especialmente os setores organizados de nossa região, como os povos indígenas, afrodescendentes, as mulheres e as juventudes.
Companheiras e companheiros, não temos outro caminho senão avançar como povos. Retroceder não é sequer uma possibilidade remota. Devemos nos qualificar nos terrenos em que o inimigo conseguiu impulsionar uma guerra cognitiva que, até o momento, tem lhe proporcionado bons resultados: o uso da inteligência artificial, a utilização dos meios de comunicação e das redes sociais e o manejo dos algoritmos são territórios que temos o dever de conhecer e dominar, para utilizar esse conhecimento produzido pela humanidade e pela classe trabalhadora em uma direção orientada à emancipação dos povos.
Esta Assembleia é um marco em nossa articulação. Chegamos a Cuba sob o lema “pelo socialismo, cem anos caminhando com Fidel”. Partimos com a reafirmação de que o socialismo não é apenas urgente, mas necessário, e o que nos espera daqui em diante é o compromisso radical de construí-lo, em cada escola, cada bairro, cada comunidade, cada território, cada local de trabalho. A melhor maneira de honrar esse horizonte e assegurá-lo não é apenas enunciá-lo, mas dedicar nossos esforços e nossas vidas a não baixar os braços até que tenhamos erradicado do planeta a desigualdade e a exploração.

A luta contra o imperialismo e suas expressões fascistas é nossa máxima prioridade. Não é possível construir esse caminho sem internacionalismo, sem feminismo popular e sem a participação dos povos originários, afrodescendentes e das trabalhadoras e trabalhadores do campo e da cidade. A partir desse mínimo, e junto às nossas redes irmãs na região e no mundo, abrimos um caminho de coordenação e confluência para construir uma grande articulação que nos permita dar passos firmes e eficazes rumo a esse objetivo. A partir da ALBA Movimentos, nos levantamos hoje e sempre ao lado dos povos da Palestina, do Sudão, da região do Sahel e de todos aqueles que, com sua resistência histórica e sua coragem, dão exemplo de dignidade”.
Assim como Fidel Castro defendeu o legado de José Martí como membro da Geração do Centenário do nascimento do apóstolo, em 1953, nós faremos o mesmo com o legado do Comandante em Chefe: somos a nova Geração do Centenário que, no nosso caso, a partir da Trincheira da Batalha das ideias e das emoções, da produção de pensamento crítico e da pesquisa social comprometida e rigorosa pelos e para os povos, seguiremos construindo o caminho necessário de organização e consciência para alcançar o futuro socialista.