Librarian Turing Test x Olímpiada de robôs chinesa
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Estranhar o novo mundo que está surgindo se tornou uma coisa indispensável.
A Olímpiada dos robôs realizada pela China protagonizou imagens ao mesmo tempo incríveis, fascinantes, interessantes e extremamente ridículas. Alguns feitos dos robôs são ao mesmo tempo curiosos e assustadoras. Os humanos próximos as vezes tem que tomar muito cuidado para não serem machucados.
De maneira geral, podemos dizer que eles superam as expectativas, mas somente se estas forem rebaixadas a um nível razoável. Eles já podem correr mais rápido do que um humano, mas são incapazes de desacelerar com a mesma elegância. Nem sempre eles seguem na direção correta. Quando quebram eles não emitem alertas.
Mas a pancadaria entre robôs trocando socos e pontapés num ringue desperta menos sentimentos negativos do que aqueles que uma pessoa normal sente ao ver um lutador humano desabar após um golpe bem colocado, porque não raro o dano causado à saúde do lutador é permanente.
O que nós estamos aprendendo sobre os robôs é muito diferente do que eles mesmos estão aprendendo. O aprendizado dos fabricantes deles é um pouco mais complexo, porque diz respeito tanto ao que pode ser aperfeiçoado nos robôs quanto à reação do público alvo. Afinal, robôs são produtos e os fabricantes querem vende-los e precisam de consumidores.
Não sei se compraria um deles, porque fico apavorado ao imaginar um robô alucinar diante da minha estante e resolver jogar todos meus livros pela janela por que ele calculou ser grande a probabilidade de salvar minha vida por que sendo inflamáveis os livros são perigosos para a vida dos humanos.
Robôs podem ser treinados para fazer qualquer coisa, até para atuar como bibliotecários. Mas não sei como seria possível treinar essas máquinas para diferenciar livros com base no que diz a capa. Só um humano é capaz de fazer atalhos cognitivos necessários para colocar o livro Empire of AI, de Karen Hao, ao lado de Profhecy, de Carissa Véliz, ambos bem próximos de Eu, Robô de Isaac Asimov e The Tecnological Society de Jacques Ellul , estes logo acima de Eu, Humano de Thomas Chamorro-Premuzic, A geração ansiosa, de Johnathan Haidt, La frabrique du crétin digital, de Michel Desmurget e The shallows: what the internet is doing to our brains, de Nicholas Carr, Tecnofeudalismo de Yanis Varoufakis e tantos outros livros de que tratam tanto das novas tecnologias da informação e de IAs quanto da intersecção entre estas e o Direito.
Além de conteúdos diversos, livros tem formatos diferentes, cores de capa diferentes, para não mencionar que são publicados em línguas diferentes. Organizá-los numa estante é uma tarefa humana que um robô pode ser treinado para fazer? Eu vejo as imagens da Olimpíada de robôs chinesa e imagino que talvez o novo teste de Turing não seja fazer os robôs imitarem atletas mas bibliotecários, estudiosos ou colecionadores de livros.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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