SUS amplia atendimento psicológico para vítimas de violência e cuidadoras

O que começou em março como um projeto-piloto para mulheres em situação de violência no Recife e no Rio de Janeiro agora ganha escala nacional e um público mais amplo. O Ministério da Saúde passou a oferecer até 100 mil teleatendimentos mensais em saúde mental pelo SUS e incluiu na política mães atípicas, além de tias, avós, irmãs e outras familiares que cuidam de pessoas com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças raras. O serviço está disponível pelo aplicativo Meu SUS Digital.

A expansão, apresentada nesta segunda-feira (24) pelo ministro Alexandre Padilha e pela primeira-dama Janja Lula da Silva, transforma uma experiência localizada em uma oferta nacional de cuidado em saúde mental. O atendimento continua voltado às mulheres que vivem ou viveram situações de violência, mas passa a alcançar também aquelas cuja rotina é marcada pela responsabilidade permanente de cuidar de outra pessoa.

A mudança ocorre em um cenário em que a violência contra as mulheres segue chegando em escala crescente aos serviços de saúde. As notificações de violência física, psicológica, sexual ou financeira passaram de 167,4 mil, em 2015, para 348,5 mil, em 2025, segundo o Ministério da Saúde. Em uma década, o número mais que dobrou.

Leia também: Novo programa federal amplia ações contra violência de gênero

Para as mulheres em situação de violência, o novo atendimento não se limita à conversa inicial com uma psicóloga. O primeiro contato avalia riscos, rede de apoio e as principais demandas apresentadas pela paciente. Cada usuária pode realizar até dez sessões, com possibilidade de iniciar um novo ciclo quando necessário. A partir da avaliação, o cuidado pode continuar em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou em outro serviço da rede. O CAPS também pode ser procurado diretamente.

O desenho do serviço também estabelece uma ponte entre o atendimento remoto e a rede pública existente. Segundo Padilha, a proposta é que o teleatendimento funcione como acolhimento inicial e início do plano terapêutico, com articulação posterior com os estados e municípios. Onde a rede local ainda não estiver disponível, o Ministério continuará oferecendo o atendimento remoto.

A política chega também a quem cuida

A inclusão das familiares cuidadoras amplia o alcance da iniciativa para uma realidade que costuma permanecer restrita ao espaço doméstico. São mulheres que acompanham tratamentos, consultas e terapias, organizam a rotina de familiares e frequentemente precisam conciliar essa responsabilidade com trabalho e outras tarefas, o que pode tornar o próprio acesso à saúde mais difícil.

O Ministério da Saúde aponta justamente três obstáculos: distância, dificuldade de deslocamento e falta de tempo. O atendimento remoto permite que a mulher procure ajuda sem precisar abandonar por algumas horas uma rotina organizada em torno do cuidado de outra pessoa.

O dado da Organização Internacional do Trabalho citado pelo governo dá dimensão dessa desigualdade: as mulheres respondem por 75% do trabalho de cuidado não remunerado no mundo. A política também dá continuidade à atualização, em 2023, da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Pessoa com Deficiência, que passou a prever ações e serviços destinados aos familiares.

Violência exige cuidado para além da emergência

A política também amplia a resposta do SUS às consequências da violência. Para Janja, o acesso à saúde mental precisa fazer parte da proteção oferecida às mulheres que enfrentam situações de violência. Durante o lançamento, ela ressaltou que as mulheres precisam permanecer vivas e saudáveis e poder criar seus filhos sem o medo provocado pela violência.

O serviço, porém, não substitui os atendimentos de emergência nem a rede de proteção. Em situações de risco imediato, a usuária será orientada a buscar atendimento pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ou pela Polícia Militar, pelo 190. Nos casos graves que não exigem intervenção emergencial naquele momento, a equipe pode articular os encaminhamentos necessários com os serviços de saúde do território.

A equipe é formada por psicólogas mulheres capacitadas pelo Ministério da Saúde para realizar escuta sensível no ambiente virtual e identificar situações de risco. O atendimento funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, e aos sábados, das 8h às 14h.

Como acessar

Para utilizar o serviço, é preciso entrar no aplicativo Meu SUS Digital com a conta gov.br. Na área de “Miniapps”, a usuária deve selecionar Acolhe Mais – Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Mulheres. Depois, será encaminhada para a plataforma da AgSUS, onde fará o cadastro e indicará se está ou esteve em situação de violência ou se é cuidadora de alguém.

Em até 24 horas, a equipe entra em contato para definir o dia e o horário da consulta. Até o atendimento, a usuária recebe lembretes e, na data marcada, o link para a teleconsulta.

Quem já tem o Meu SUS Digital instalado também recebe uma notificação sobre a nova oferta, com acesso direto às informações do Acolhe Mais.

A capacidade inicial de 100 mil atendimentos mensais também permitirá ao governo avaliar o nível da demanda pelo serviço. A expansão nacional transforma uma experiência que começou de forma localizada em uma oferta permanente de cuidado e amplia o alcance do SUS para mulheres que enfrentam não apenas a violência, mas também as dificuldades de conciliar a responsabilidade pelo cuidado de outras pessoas com o direito à própria saúde

Artigo Anterior

Entenda a decisão da ANPD que multou o TikTok em R$ 153,7 mi por falhas na proteção de menores

Próximo Artigo

Belluzzo recebe prêmio por trajetória dedicada ao pensamento crítico

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!